quarta-feira, 26 de agosto de 2020

To fralda, or not to fralda?

Tivemos, antes do fim-do-mundo de 2020, uma reunião com a educadora responsável (uma russa que não se deixa levar pelo charmezinho das crianças) pela sala do nosso menino. Entre outras coisas, ficou combinado que íamos tentar convencer o petiz a largar as fraldas este verão. Tendo ele outras três ou quatro crianças de idade muito próxima, talvez o grupo o fizesse em conjunto, seguindo os exemplos uns dos outros.
Acontece que, aquando do regresso da criança ao infantário após meses sem socialização nenhuma, além da que sofre por ter de aturar os pais — o pai, então...! —, a russa, nossa aliada, não voltou ao trabalho. A sala dele estava entregue às duas jovens que se amolecem todas com o sorrizinho dele, deixando-o fazer o que quer delas. Não nos pareceu que viria grande ajuda dali.
Fomos observando o nosso filho, à procura de sinais que nos fizessem acreditar que estava pronto, mas ele não tem demonstrado qualquer interesse em avisar que vai fazer um qualquer despejo fisiológico, nem sequer se incomoda em ter o rabo borrado. De qualquer das formas, e depois de a minha mulher ter visto um dos tais coleguinhas do nosso filho a avançar, lampeiro, casa-de-banho adentro, baixar as calças e sentar-se na retrete do infantário (com o tamanho certo para os petizes), sem ajuda ou incentivo presencial, assomada que se sentiu de pressão social, decidimos experimentar avançar com o desfralde.
No fim-de-semana passado, por ocasião do que seria uma muda de fralda, a minha mulher tirou-lhe a fralda suja, mas substituiu-a por umas cuecas, em nada absorventes. Trouxe, também, o penico em forma de baleia para a sala, onde o sentou, explicando-lhe que teria de baixar as cuecas, sentar-se, e fazer o que viesse. Ficou ali, o miúdo, sentado na baleia, de tablet na mão e cuecas nos joelhos, sem ares de preocupação nenhuns. A sua primeira reacção veio quando sentiu os pés molhados.
Fez, efectivamente, o seu primeiro chichi no pote — e eu celebrei muito, a ver se ele curte a coisa — mas, uma vez que a mãe dele é desprovida de extensão exterior da uretra (vulgarmente apelidada de pila), não se lembrou que devia apontar a do petiz para baixo. Alguma urina acabou, efectivamente, dentro do pote, mas eu diria que a maior parte ficou fora. Correria para limpar, entre vivas e palmilhas ao petiz, que me parecia confuso entre as felicitações e a azáfama urgente com que limpávamos o chão, acabamos por o deixar mais livre ainda, sem a cueca.
A micção seguinte foi, sem qualquer pejo e na maior das descontrações, confortavelmente sentado na sua poltrona de esponja. De esponja, sim. Outra houve em cima do tapete da sala. Não podia ser no chão; tinha de ser no tapete. E na esponja. E claro que a conversa não podia parar na micção.
Continuou, o meu rico filho, nas suas brincadeiras, de tudo pilinha e traseiro ao léu. Ainda havia esperança de que usasse o penico por vontade própria, já que ele é dos que se incomoda se se sujar — à excepção do rabo, quando de fralda. Apoiado na mesa onde normalmente desenha (na mesa, não em cima da mesa), no meio do tapete da sala (onde também já desenhou qualquer coisita), de repente e sem qualquer tipo de aviso não-verbal (nem um esgar de esforço, nem um desvio na atenção que prestava aos bonecos com que brincava, nada), sai-lhe um escatológico bolo por entre as nádegas, de saudáveis dureza e tamanho. Disparei na direcção do meu petiz ainda antes do cocó cair no tapete, mas ele reagiu antes de eu chegar e virou-se, a ver onde tinha tombado a obra. Pisou-a, descalço, no momento em que o levantei. Incomodado com meio-bolo pendurado no pé, o rapaz esperneou, espalhando bocados de cocó em volta, incluindo no exacto ponto onde, fracções de segundo depois, eu pousei o meu pé — também descalço — e nem reparei.
Nos minutos subsequentes, enquanto a minha mulher me avisava que eu tinha pisado a prova do crime e limpava o tapete e restante chão da sala, eu limpava o filho e o meu pé — confirmada a pisadela — daquele desastre. Depois limpei o chão do corredor, onde as minhas pegadas denunciavam o sucedido.
Cerca de dez minutos depois, estava o meu filho já de fralda (foi demais para hora e meia sem fralda) e a brincar no chão limpo de fresco, e eu, que me deitara de lado no chão a brincar com ele, queixei-me de ainda sentir o cheiro do bolo do meu menino. "É impressão tua", disse-me a minha mulher.
Pouco depois, incomodou-me uma comichão na perna, na zona da canela. Fui coçar... Depois fui a correr à casa-de-banho lavar a perna: restava um pequeno pedaço da prova do crime, provavelmente aspergido contra a minha perna pelo espernear do rapaz.
Não sei... não sei se o meu filho está pronto. Também não sei se eu estou pronto. Sei é que o trauma deixou-nos avessos à experiência. Vai ser preciso encontrar nova coragem.

PS: A educadora russa não voltou, para já, porque está de licença de maternidade, descobrimos entretanto.

PPS: As jovens educadoras que restam estão doentes, pelo que o meu filho tem estado com outra educadora. Ela conseguiu pô-lo a ir ao pote, fazer um cocó, uma vez. Na verdade ela pô-lo no pote e ele largou a bomba. Será que conta?...

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O que tem de ser...

Foi já há duas semanas e meia que o meu filho foi autorizado a voltar à creche. Desde o início que nós, pai e mãe, esperamos que ele traga para casa qualquer coisa extra. Bactérias ou vírus, é sempre de esperar que, quando se reunem crianças em bandos, se espalhem mais ou menos amiúde e com alguma eficácia. Nesse caso, porque vivemos em tempos de medo generalizado, antecipávamos procedimentos e burocracias várias para levar a criança de volta para a creche. Mas a certeza de que ia acontecer estava lá, e a desconfiança era de que fosse quase de imediato. O que tem de ser...
A primeira semana passou com o nosso filho tão saudável como nos meses em que ficou confinado a casa, aos passeios com os pais, e a uma ocasional visita ao parque infantil. Nem um pingo de ranhoca. A segunda semana acabou da mesma forma: nada de infecção ou virose, nem um toque de febre para amostra. Estávamos com sorte.
No Domingo antes de começar esta terceira semana de regresso à creche, passou a manhã bem-disposto, mas a jorrar ranho pelo nariz. Pronto, já tem um toque, pensamos nós. Depois de uma hora do almoço em que, para não variar, comeu de pouco a nada (diz que é normal, algures no segundo ano de vida, mas é um estímulo ao desenvolvimento de úlceras nos pais), parecia um pouco cabisbaixo. Ao tirá-lo da cadeira, a mãe apercebeu-se de que estava quente. Era altura de muda de fralda (espero não ter de o fazer dentro de um mês ou dois...), por isso seria uma boa oportunidade para lhe medir a temperatura. Febre.
Passou a tarde assim, com uma febre alta, mas não exagerada. A noite, filho entupido de anti-piréticos, foi um carrossel de deita-levanta, tira temperatura aqui, muda fralda acolá, tosse cavernosa e respiração dificultada, a espaços dolorosa. Calhou-me medir-lhe uma febre de quase 40º, já depois das 4 da manhã. Por momentos considerei levá-lo para o hospital, mas decidi-me por um novo supositório e voltar para a cama. Dormir é que já foi pouco e leve, para ambos os pais. Ouvi-lo gemer não ajuda nada à conversa com Morfeu.
Segunda-feira de manhã, eu com receio que fosse o mefistofélico vírus, a minha mulher com a calma de quem tem de aturar um filho doente e um marido nervoso, fomos directos à pediatra do petiz. Esperamos cá fora, numa espécie de sala-de-espera naturalmente arejada e desinfectada a raios ultra-violeta directos do Sol, máscaras penduradas no nariz e orelhas. Éramos os quintos da fila — da exterior, para as crianças cujos sintomas coincidem com os da doença-que-não-se-pode-mencionar. Antes de sermos chamados, chegaram mais três, se bem me lembro.
Feito o exame rápido — pulmões limpos e uma ligeira vermelhidão na garganta —, a médica pede-nos autorização para lhe enfiar uma zaragatoa pelo nariz acima, outra no fundo da língua. Acedemos, mas doeu-nos ter de agarrar no nosso filho, forçando-o àquela tortura que ele, claramente, não queria. Esperneava e eu impedia-o de o fazer, prendendo-o. Senti que o traía. A mãe dava-lhe beijos no cocuruto, com ar consternado. O que tem de ser...
Nesse dia a febre foi sempre no limite mais baixo, o que me deixou mais descansado — agora era a minha mulher a mais nervosa dos dois. Eu previa a melhoria, ela desconfiava (ainda bem que não coincidimos nos momentos pessimistas). Ainda por cima, não tendo a certificação documental de que não era o vírus do Capeta, ela foi forçada a trabalhar em casa. Eu fiquei no meu escritório mais comum (em casa), mas o serviço foi cuidar do petiz.
Na manhã seguinte, papel de resultado negativo na mão, a minha mulher já pôde voltar ao laboratório. Eu... mais dois dias com o filho em casa: a nova política do infantário é que a criança fique em casa por 48 horas depois a última medição de febre. Amanhã, se o rapaz não tiver febre entretanto, volta para os amiguinhos. O que tem de ser...

segunda-feira, 6 de julho de 2020

De regresso

O meu filho foi, finalmente, autorizado a regressar à creche. Regressou há exactamente uma semana e foi um dos primeiros, por decisão da instituição de ensino, a participar do regresso progressivo do "resto das crianças". Estas crianças, as que restavam, eram aquelas cujo regresso não era absolutamente necessário. O infantário nunca fechou a cem por cento, já que algumas das crianças teriam ambos os pais a trabalhar nas actividades essenciais (no caso, por ser um dos infantários dos serviços da universidade, eu diria que médicos, enfermeiros ou investigadores cujo trabalho não parou por estar ligado à clínica da universidade). A primeira fase de regresso, já há cerca de um mês, fez-se para as crianças cujos pais, os dois, não pudessem ser dispensados do trabalho presencial. O meu filho tem uma mãe que apenas abrandou, ligeiramente, o trabalho que desenvolve para bem da ciência, mas um pai que escreve coisas. Não precisa de sair de casa para isso, dizem eles; e têm razão.
De email informativo em email informativo, lá foi a nossa expectativa crescendo, à espera de notícias definitivas acerca do regresso do nosso petiz à socialização com outras crianças. A certeza veio em forma de telefonema — tenho orgulho em dizer que foi todo em alemão, se bem que cheio de "bitte?" e engasganços da minha parte. O meu mais-que-tudo desamparar-me-ia a loja a partir da segunda-feira seguinte.
Mas, como em quase todos os países em desconfinamento, o regresso teria regras. Imaginei o meu filho de chapéu-de-distanciamento-social, supervisionado por meias-caras, sem nariz ou boca, que não lhe permitiriam qualquer contacto humano. Enganei-me. Apoiados num estudo da universidade cá do burgo, os responsáveis do estado de Baden-Württenberg não impuseram nenhuma regra de distanciamento às crianças — apenas aos pais.
A ver: as crianças estão como sempre estiveram, sem regras nenhumas de distanciamento e com educadores desmascarados. Os pais vão pô-las e buscá-las como sempre foram, mas de máscara na fuça e mãos devidamente descascadas de pele morta e perfeitamente estéreis, por vigorosa lavagem das ditas com gel desinfectante disponível atrás da porta de entrada. Já me fizeram entrar pela porta do jardim, onde não há desinfectante, mas não me queixei. As regras são, claramente, para proteger os educadores; foi precisamente uma educadora quem me abriu a porta do jardim e chamou, estava eu a esconder o bigode e a barba na máscara, pronto para entrar pela frente e matar a flora da pele das mãos. Avisei. Confirmou-me que entrasse por ali — não me queixei.

domingo, 31 de maio de 2020

Exemplos, sempre os exemplos

Além dos obrigados — pronunciados biáp ou bigá —, temos tentado guiar mais comportamentos do nosso filho através do exemplo.
Tendo comprado o penico (com aspecto de brinquedo, com um design bonito que o faz parecer uma baleia — a cauda serve de encosto), tenho anunciado ao meu filho todas as minhas idas à retrete, convidando-o a, pelo menos, sentar-se no seu penico ao meu lado. Não sei se terá resultados, se é uma má ideia, se isto faz de mim bom ou mau pai, mas a minha ideia é ele habituar-se ao penico e ao acto de... seja qual for o acto que se efectua sentado numa retrete — ou penico.
Acontece que, por vezes, eu sento-me na cadeira de louça, o assento do filósofo, de telemóvel na mão para passar o tempo com o único jogo que tenho no aparelho. O meu filho, que me ignora quase todos os avisos de que vou à casa-de-banho, quando decide deitar o olho ao pai — quer ver onde estou, não vá precisar do comando pessoal para mudar de canal — e me vê sentado com o telemóvel à frente, corre para o penico, arrasta-o para o meu lado e aponta para o telemóvel com os cinco dedos abertos, como quem pede que lho ponha na mão. Demorei, mas entendi que o exemplo que lhe estava a dar não era "podes fazer as necessidades no penico, em vez da fralda", mas antes "vais ao penico para brincar com o telemóvel"... Resolvi deixar o telemóvel fora da casa-de-banho.
O outro exemplo que temos tentado (porque o petiz tem andado a recusar provar, sequer, a sopa — costumava devorá-la) é o de comer a sopa sem tocar no pãozinho, que é o que ele mais gosta no jantar. "Pão é só depois da sopa", insistimos. "Basta uma colher e damos-te o pão", negociamos. Enquanto isso comemos nós a sopa, entre a birra e a tempestade de lágrimas, cortando-nos o coração às fatias — apesar das caras de ferro. De vez em quando pede a sopa (afastamos o prato mal o festival começa, para não haver acidentes), mete a colher lá dentro e aponta para o pão. Nós insistimos. Ele insiste. Nós continuamos a comer a sopa e ele não come o pão.
Hoje ele insistiu, com a colher na sopa e prometendo, com acenos positivos, à mãe que ia comer a sopa. A minha mulher confiou que, desta vez (já esta semana tinha feito a mesma promessa, comeu o pão, e mandou-nos comer a sopa), ele ia cumprir. Eu, como São Tomé, só vendo. Comeu o seu pão de olho no meu pão (quando gosta da comida é um glutão). Logo de seguida a mãe confrontou-o com a sua promessa. Ele cedeu! Pôs uma colher à boca. Pôs uma segunda e continuou até pedir à mãe que o ajudasse a rapar o prato. Parece que, afinal, gostou.
A ver se amanhã volta à teimosia, se ao gosto pela sopa.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Um degrau para a independência

O meu filho, desde que a sua individualidade se evidenciou, pareceu-me sempre ser bastante independente. Brinca com o pai quando quer, manda o pai dar uma volta para brincar sozinho quando lhe apetece, quer sempre ver se consegue fazer tudo por si e, quando vê que está perto de o conseguir, insiste para que o deixemos experimentar em paz. Hoje, por exemplo, já come a sopa (quando come...!) de prato normal, com colher de adulto, e não quer saber de voltar atrás.
Na semana que passou pusemo-lo a tomar duche, em vez do banho na banheira de bebé. Não toma o duche sozinho, mas bem tenta. Quer segurar a cabeça do duche por si, mas depois tem dificuldade em usá-la. Das vezes em que tomei o duche com ele, bem me apontou o duche à cara, a rir-se à gargalhada com a minha reacção (também sei brincar).
Entretanto, aproveitando a abertura das lojas, a família foi comprar umas coisinhas. Um dos objectos comprados foi um banquinho, que também serve de degrau, em plástico suave e assente em silicone anti-derrapante. Aquilo foi feito para crianças pequenas, como o meu filho ainda é. Este banco foi uma descoberta para o petiz.
Onde eu o pousava na coxa e lhe lavava as mãos e a cara, de repente ele já só quer usar o degrau para se empoleirar, esticar-se todo para abrir torneira e lavar mãos e cara por si. Só não usa a toalha para secar tudo; tem de ser um dos progenitores a fazê-lo. Onde lhe dava a escova de dentes e ele passeava-se com ela a chuchar a pasta de dentes, agora empoleira-se com o banquinho e escova (mais ou menos) os dentes, sem vaguear pela pequena casa-de-banho. Adivinho uma pequena economia em papel higiénico, um dos brinquedos favoritos dele e fonte de ansiedade para quem de nós o acompanha na escovagem das presas. Na hora do duche senta-se no banco enquanto lhe passamos a água pelo pêlo.
Já o apanhei a trazer o banquinho para a sala, pousá-lo junto à porta da varanda, encostada pela mãe que foi lá fora esconder do filho o facto de estar a jogar um joguinho qualquer no tablete, e chegar a mão à tranca da porta. Ia trancar a mãe lá fora. Fui buscar o filho e levei o banco para a casa-de-banho. Um heróico acto que salvou a minha mui apreciada esposa de ficar presa na varanda (espero que ela leia isto).
Um pequeno degrau mim, um grande passo para o meu filho e as suas tropelias.

domingo, 17 de maio de 2020

Duche

Neste apartamento alugado não temos banheira. A casa-de-banho, decorada a azulejos e louças de cor laranja, assim para o pastel (mais um pouco, era castanho), está equipada com simples um duche poliban relativamente espaçoso, mas com um espaço para saída e entrada um bocado estreito. Além da cor pouco aprazível, esta casa-de-banho cria-nos um problema na hora de lavar o miúdo. Até agora temos usado uma banheira própria, que pousamos no chão, entre o poliban e a retrete, e enchemos com a mangueira do duche.
Há já algum tempo que temos discutido a hipótese de lhe dar banho no poliban de canto, mas o pouco espaço de manobra que teríamos foi desencorajando a aventura. Há dois dias atrás a minha mulher teve uma ideia. A ideia, que até já nos tinha surgido noutras ocasiões, de passagem, consistia em colocar-me dentro do poliban com o petiz, para eu ter espaço para lhe dar o banho. Desta vez, a minha adorada esposa, queixando-se do meu viril cheiro a suor (vá-se lá entender!), mandou-me tomar banho. Eu fi-la ver que era praticamente hora de dar banho ao filho, mas isso não a demoveu. De nariz torcido, disse que podíamos tomar banho juntos. Temendo pela saúde do meu casamento, acedi.
Enquanto a minha mulher despia o menino, aqui o rapaz despia-se na casa-de-banho. O meu filho entrou na casa de banho, cheio de boa vontade e desprovido de roupa, e dá de caras com o pai, igualmente desprovido de roupa. Não o traumatizei — antes pelo contrário: corri eu risco de trauma permanente quando o meu filho se desatou a rir.
Meti-me no poliban e liguei a água, chamando-o. Ele interessou-se pelo duche, pôs um pé na base cor-de-laranja, mas acabou por não entrar. A minha mulher encheu a banheira e tomamos banho ao mesmo tempo, o meu filho e eu, mas separados.
Ontem experimentamos a mesma coisa — desta vez o meu cheiro não foi posto em causa, vá. Desta vez o petiz colaborou. Dei-lhe um duche rápido, com alguma resistência à água pela cabeça abaixo. Hoje repetimos a brincadeira.
A princípio parecia que ia ser igual, mas o meu filho resolveu que não queria mesmo que lhe passasse o duche pela cabeça; e só se lembrou disso depois de ter a cabeça ensaboada. Resolvi dar o exemplo, e passei-lhe a cabeça de duche para a mão, ajudei-o a apontá-la à minha cabeça. Mesmo de cócoras fico com a cabeça mais alto que a dele, pelo que o duche estava apontado à minha cara, e não ao cocuruto. Soprei através da água que me escorria pela boca e ele riu-se à gargalhada. Lá tive de aguentar mais umas repetições a brincadeira até conseguir que ele aceitasse tirar o sabão da cabeça... mas deu!
A ver se, durante a próxima semana, conseguimos dar-lhe o banho sem que eu esteja lá dentro com ele. Ele tem de estar à vontade porque, pelo menos no meu caso, não consigo enfiar os dois ombros ao mesmo tempo pela abertura do poliban. É no que dá ter os ombros do Dwayne "The Rock" Johnson. (Ok, exagerei... um bocadinho!)

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Resultados — bons e maus

Eu e a minha mulher temos insistido em agradecer tudo em frente ao nosso filho, e a ele, a ver se ele se habitua pelo exemplo. Resultou, uma vez que há já algum tempo que ele agradece por tudo e mais alguma coisa. Passo-lhe um brinquedo para a mão, bigad. Dou-lhe o copo de água que me pediu, bigad. Tudo nos trinques.
O problema é a evolução degenerativa a que a palavra tem sido submetida. Depois de um curtíssimo período de testes falhados para dizer "o-bri-ga-do", fiquei contente quando ele me disse, lesto, "bigado". Faltava a primeira sílaba, mas as outras três estavam lá, claras e bem pronunciadas. Depois foi-se apagando a última — "bigad" — até chegar a "bigat". Hoje, quando quer despachar a coisa, já só sai "bigá". Sempre é melhor que não agradecer, suponho. Parece que a preguiça madeirense em pronunciar as sílabas todas apegou-se-lhe ao nascer na melhor ilha do mundo...
Entretanto, continuei a agradecer-lhe sempre (confesso que, como madeirense eu próprio, também agradeço com sílabas a menos, se não tomo cuidado), para não se perder um bom hábito. Isso, e responder-lhe com o devido "de nada" de cada vez que ele me agradece. Que eu reparasse, nunca me imitou nesse hábito.
Hoje, durante o ritual de lavagem de dentes antes de ir para a cama (ele chucha a escova, sorve a pasta de dentes, mas raramente escova efectivamente as dentuças de leite), eu pousei a tampa do tubo de pasta de dentes na beira do lavatório. Ele pega nela, observa-a atentamente e depois entrega-ma quando lhe passo a escova carregada para a mão. Eu, obviamente, agradeço pela entrega da tampa. Ele responde-me "nada". Mais de duas horas depois, ainda estou com dificuldade em reter a baba.
É tão fácil satisfazer um pai...!

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Jet, a jacto!

Já não vou contar mais dias. É uma lembrança quase diária de que prescindo. É pressão extra no meu juízo.
Por falar em juízo sob pressão, hoje prestei atenção aos bonecos do meu filho. Pronto... confesso que até costumo prestar atenção, mas hoje pus-lhe os Super Wings a correr na plataforma de streaming para que desembolso uma mensalidade. Ele adora a música do genérico e vai vendo os entretantos enquanto se distrai com outras coisas. Quando está a acabar, levanta-e e prepara-se para dançar como um verdadeiro air-guitarrista e desata a abanar o esqueleto mal ouve os primeiros acordes. A maioria das vezes tento ler, sentado atrás dele, mas não são raras as vezes em que eu me sento ao lado dele a comentar os bonecos com ele; ou para ele, não sei porque não percebo dois terços do que diz o meu filho — ou tenta dizer.
Nestes bonecos em particular o personagem principal é o Jet, um avião/robô que diz ser o pequeno avião mais rápido do mundo. O Jet faz entregas de maravilhas da engenharia — ou magia... — a pedido, sempre para crianças de uma parte do mundo diferente conforme o episódio. A criança descreve lá o que for que deseja, por vezes com pormenores estapafúrdios, e um auto-denominado engenheiro com aspecto de pré-adolescente hiperactivo, que por alguma razão flutua pela sala, carrega nuns botões, sempre da mesma forma e na mesma sequência. Por estas artes mágicas uns braços mecânicos numa sala ali ao lado fabricam, quase como se fizessem parte de uma super-sónica impressora 3D  de todos os materiais existentes se tratasse, seja o que for que pediu a criança do dia. Em segundos. Depois, independentemente da dimensão da encomenda, como por magia, a dita é empacotada numa pequena mala que se acopla aos costados do pequeno avião vermelho. Desconfio que até uma tuneladora de 10 metros (no mínimo!) enfiavam ali dentro. Assim carregado, o Jet aprende uma expressão do país para onde vai e segue viagem — "Jet, a jacto!"
Tenho que dizer que o Jet tem uma visão extraordinária. Ele ainda vai a altitude de cruzeiro, acima das nuvens, e já diz (quase sempre...!) que está ali a casa de fulano. Ele vê a casa-alvo, e reconhece-a (não sei de onde), por entre as nuvens e a roçar o limite superior da atmosfera.
Uma vez chegado à porta em questão, o Jet entrega a encomenda e entra casa a dentro, seguindo o cliente sem pedir licença. Devo confessar que vi, uma vez, o diacho do robô ser convidado a entrar — foi a excepção. Entra e mete o bedelho na encomenda, pergunta para que é, e até se propõe a acompanhar a criança enquanto esta põe a coisa em uso, em vez do progenitor. Não sei quem são estes progenitores, mas eu atirava água salgada ao robô vermelho, que não conheço de lado nenhum, que se propusesse a levar o meu filho por aí.
Depois corre sempre algo mal. Geralmente a culpa é do Jet. É nesta altura que o robô/avião que fez asneira chama a ajuda de outro robô/avião para o ajudar a corrigir o seu disparate. A ajuda chega sempre em minutos (uma vez o problema era uma bola de neve gigante que já rebolava de encontro a uma aldeia — aí a ajuda veio em segundos enquanto o Jet esperava, limitando-se a observar a ameaçadora bola), estejam eles onde estiverem. Pelas partidas do Jet (nessa altura vê-se o globo, como um mapa), desconfio que a base dos Super Wings fica algures no meio do Pacífico, mas os aviões, mais lentos que o Jet (se ele é o mais rápido...), chegam a Itália, por exemplo, nos mesmos minutos em que chegam ao Japão.
Tenho muita coisa a apontar aos Super Wings — a quantidade de leis da física que são flagrantemente quebradas... —, mas ontem vi algo que me incomodou. Os dois aviões/robô que resolveram o problema causado pelo Jet foram recompensados com um convite para almoçar... sushi. Ainda se fosse um bife Kobe... sempre dava para queimar nos jactos.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Dia 53 — Danças com patos

Hoje levei o petiz à recentemente reaberta margem relvada do Neckar, um parque muito usado para passeios, piqueniques e outras tropelias (há uma zona onde se pode jogar à bola à vontade, por exemplo).
Por lá passam patos e gansos aos bandos, e o meu filho adorou um casal de patos que estavam em pleno namoro, com vocalizações mais atraentes para o meu pequeno. Ele perseguiu-os, ralhou-lhes por fugirem, perseguiu-os outra vez. Foi de tal forma que a pata, a certa altura, levantou voo e pousou, com as asas a baterem contra os galhos, numa árvore próxima, lá bem no alto.
Eu persegui o meu filho, tentei convencê-lo a não chatear os bichos, sem sucesso. Ele gostou muito deles. Eles, pareceu-me, não retribuíram o sentimento.
Não os culpo. Já não se pode namorar em paz?!

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Dias 51 e 52 — Apalpar terreno

Ontem fui dar um passeio com o meu filho. Não levantou problemas a calçar-se, a pôr o casaco, ou a pôr um boné. Bem... não foi bem assim: dei-lhe um boné, exigiu o outro. Cedi — queria sair rápido.
Ao primeiro semáforo, numa rua larga com separador central, onde passam os meios de transporte colectivos, levou tempo a fazer a primeira parte da travessia. Ficamos presos, pelo sina vermelho, na placa central. Nada que o preocupasse, muito bem comportado ao meu lado, à espera de sinal para passar. Ao verde, dei-lhe sinal para avançar; deu dois passos, para o meio da estrada, e parou. Na urgência, agarrei nele e atravessei com o petiz no braço, sob o olhar divertido dos transeuntes que já paravam do outro lado.
Pousei-o pouco depois da travessia, já no campus universitário, virado para um passeio onde três ou quatro infantes arbóreos de troncos escanzelados foram enfiados em canteiros rasos e cheiros de gravilha. Ora... gravilha é a nova mania do meu filho. Aquilo aguça-lhe a curiosidade e espicaça-lhe a vontade de experimentar. Demorei uma eternidade a fazer cerca de 30 metros, porque o mexilhão tinha que mexer, agarrar, escoar pelos dedos e tapar pequenos buracos de escoamento com a gravilha.
Ultrapassado o obstáculo da gravilha, fizemos caminho até um dos lagos artificiais daquele campus. Ouviam-se rãs e eu queria ver se mostrava uma ou outra ao meu filho. Todas bem escondidas. Mas vi, julgando-se escondida entre os juncos, o que me pareceu ser uma galinha-d'água. Tentei apontar, mostrá-la ao meu filho, mas ele estava mais interessado no coaxar que numa silhueta escura que mal se mexia na sombra.
Dando a volta ao edifício onde a mãe trabalha, o meu filho começou a abrandar o passo. Sentou-se num muro de canteiro. Mandou-me sentar com uma palmadinha no espaço vazio ao lado dele. Sentei-me. Falei com ele — não esperando resposta inteligível —, contei-lhe que o plano agora era voltar para casa e levantei-me pedindo que me acompanhasse. Ficou sentado. Deu nova palmadinha no cimento de onde me tinha acabado de levantar. Começava a batalha das vontades.
Depois de o convencer a levantar-se e seguir-me (peguei nele e pousei-o dois metros mais à frente...), começou a apalpar o terreno, a ver até onde podia teimar com o pai. Fui andando, sem parar, obrigando-o a seguir-me. Ele seguia-me cada vez mais devagar, apontando para cada folha de relva como se fosse a descoberta do século. Chegou a apontar para rachas no chão, com vocalizações de surpresa, a ver se eu parava. Até que ele parou. E eu parei, e chamei-o.
Por esta altura ele fingia que não me ouvia, que nem me via. Olhava para o vazio, parado, a ver qual seria a minha reacção. Senti-me cada vez mais testado —e frustrado. Resolvi continuar a andar, uma vez que não havia ninguém à volta, nenhum perigo, e ver se o forçava a seguir-me. A certa altura ouvi um "papá!" e voltei-me para trás. Estava no mesmíssimo local, já a uns 50 metros de distância (ok... posso estar a exagerar). Fiz-lhe sinal para que viesse. Arrancou, devagar.
Chegou ao pé de mim com um sorriso atrevido. Eu recomecei a andar, ele ao meu lado, em passinhos pequeninos. A pequeninos começou a adicionar lentinhos.
Com pressa de chegar a casa, uma vez que estávamos a meia-hora da hora do jantar, perdi a paciência e peguei nele ao colo. Pediu-me duas vezes para ir para o chão, duas vezes o recusei. Fiz cerca de um quilómetro com 14 quilos alternando entre um braço e outro.
Cheguei a casa a horas e com dores nas costas. Adormeci com dores entre as omoplatas.
Ainda estou a tentar perceber se me impus, ou fiz exactamente o que ele queria...

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dias 49 e 50 — Porque sim

Há dias o meu filho perguntou-me "poquê?" Na altura respondi-lhe "porque eu quero"; referia-me a mudar a fralda. Senti-me um pouco culpado, mas era o que era preciso naquela situação, já ao fim de uma negociação aturada. Não estava a conseguir convencer o adorável malandro a ceder, até porque, nas palavras dele, "cocó na tem!" E não tinha — mas estava a abarrotar de xixi.
O meu petiz tem demasiada estima por tabletes e/ou telemóveis espertos. Digamos que essa estima exacerbada é, de momento, a maior fonte de birras. O ecrã de televisão também lhe testa a concentração. São raras as vezes em que lhe quebro a concentração nos bonecos à primeira. Regra geral, só pondo-me entre ele e o ecrã é que consigo quebrar o feitiço, e mesmo assim há sempre um atraso na resposta — demora a desligar...
Ontem ele viu o meu telemóvel e decidiu que queria fazer uso do aparelho. Eu neguei, dentro daquele meu esforço para o separar da mania, mas ele insistia, a fugir para a birra. Disse-lhe logo que com birra não tinha nada de certeza. Desta vez resultou — não escalou mais. Mas continuava a estender a mão na direcção do malfadado objecto, com insistentes "mein" pelo meio. Fui ignorando, até que lhe deitei um olhar inquisitivo. Foi aí que me pareceu ouvir um claro "eu qué". Resolvi responder com uma pergunta: "porquê?"
"Poque sim". Foi o que me pareceu que ele respondeu, apanhando-me de surpresa. Fiquei calado um bocado, sem saber se desatava a rir, se o abraçava, mas não cedi. Há que manter a decisão de não lhe dar o aparelho para a mão só porque sim.
O karma tem esta mania estúpida de nos morder o assento...

domingo, 3 de maio de 2020

Dias 47 e 48 — A torre

Fui dar um passeio com o meu filho à Montanha dos Santos (Heiligenberg), como já fiz várias vezes.
Perto do topo, e até ao topo, existem vários pontos de interesse histórico de cariz arquitectónico. Há por ali vestígios de uma fortificação celta, uma dupla muralha, em volta do topo (desconfio de onde estão as paredes, feitas socalcos, mas nunca confirmei). Há um poço que ninguém sabe bem quem lá deixou nem para que serviu — a teoria mais forte, no momento, é de que seria uma cisterna deixada pelos romanos — e que é mesmo um buraco no chão rodeado de informações turísticas, em alemão. Do pouco que percebi, tiraram de lá alguns artefactos, incluindo uma seax viking.
Também lá há, perdido entre as árvores mas enorme, um dramático anfiteatro ao ar livre construído pelos Nazis antes da guerra; Thingstãtte.
Depois há os dois mosteiros, ambos em ruínas. O maior, de São Miguel, o Arcanjo, aparentemente acompanhado de uns vestígios de um templo romano dedicado a Mercúrio (nunca vi estes vestígios — tenho de procurar melhor), construído no pico do Miguel, ou Michaelsberg. O outro mosteiro, mais pequeno e de paredes ainda mais rasas, o de São Estêvão, viu algumas das suas pedras serem usadas, nos finais do século XIX, para construir uma torre de observação. É uma torre estreita, mas alta.
Em passeios anteriores tenho preferido sempre levar os meu filho ao mosteiro mais pequeno, onde há bancos de jardim que dão para uma abertura da cobertura arbórea, mostrando o castelo de Heidelberg lá em baixo, na outra margem do Neckar, como quem sobe para a outra cadeia de elevações geográficas não superiores a 600 metros (440 e 568) de Heidelberg. Ele gosta de se sentar naqueles bancos, regra geral com a promessa de um sumo e duas ou três bolachas. Eu gosto da paisagem e há para lá uma rapina de grande porte que ainda não consegui identificar. Das vezes que lá andei com o meu filho, ele todo satisfeito a correr, a passar pela única porta de pé do mosteiro e a experimentar folhas mortas, pedras e paus variados, eu a correr atrás dele, nunca me passou pela cabeça subir à torre. Há uma primeira vez para tudo.
Depois de lhe dar o sumo, desta vez sem bolacha (o almoço estava próximo), pensei em mostrar-lhe uma vista ligeiramente mais desimpedida, da plataforma mais baixa da torre — um primeiro andar relativamente baixo e com escadas de acesso normais. Ele subiu comigo, pelo seu pé, e nem olhou para as vistas; meteu logo o nariz no pequeno pórtico escuro que dá para a estreita escada em caracol que leva ao topo. Não o parei.
Subiu todos os degraus sozinho, agarrado à minha mão, ele divertido e eu preocupado. Parou umas duas vezes, para espreitar pelas pequenas janelas — ao estilo de seteiras, mas não exactamente —, a ver o que havia lá fora, mas foi sempre por ali acima, lesto e voluntarioso.
Chegados ao topo, descobrimos que as amuradas são altas demais para o rapaz ver seja o que for, mas ele não se importou: tinha um círculo à volta do fosso das escadas para correr e o pai só lhe tapava o acesso às escadas propriamente ditas. Ainda por cima tinha chovido. Havia poças de água e vontade de experimentar...
Estava o meu filho a molhar as calças com os seus saltos para água, a pés juntos, quando eu vi, no canto do olho, alguma coisa grande a passar ali perto. Era a águia. Tive uns três segundos para a ver em condições antes de se meter entre as copas das árvores. Não deu para ver muito.
Em contrapartida, o meu filho estava todo molhado do meio das coxas para baixo, sorridente e cheio de energia. Desceu pelo próprio pé, novamente, o que me obrigou a descer de costas, para estar no caminho caso ele caísse, e ao mesmo tempo para lhe dar a segurança da minha mão. Ele divertiu-se. Eu ganhei uma úlcera.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Dias 45 e 46 — Sai mesmo aos seus...

Eu tenho uma compulsão que combato. Eu não posso ver uma moldura ligeiramente desviada. Sinto uma compulsão para corrigir a sua posição relativa às arestas da parede de que se suspende. Muitas vezes dou por mim a proibir-me de o fazer, por não ser a minha moldura nem a minha casa. Hoje resisto melhor, mas ainda exige alguma força de vontade.
A minha mulher sofre de uma condição social a que vulgarmente se chama de vergonha alheia. Não sei se há alguma designação técnica, mas penso não ser necessário investigar. A verdade é que, de cada vez que, por exemplo, me dá para animar uma pista de dança com passos tirados do início dos anos 90 do século passado, a minha mulher ruboriza-se um pouco (eufemismo para muito) e fica com um sorriso em que os dentes se colam numa aparente dentada, enquanto os revela em toda a sua alvura. Também me quer parecer que fica com os olhos ligeiramente mais humedecidos que o normal. Eventualmente vira-se, em vez de apreciar a destreza e sensualidade com que penso mover-me (pelos vistos, erradamente), apesar de já não ser um adolescente há cerca de 25 anos.

No outro dia, ao correr para ver a mãe pela janela da cozinha, o meu filho deparou-se com o escadote de dois degraus, aquele que normalmente usa para se empoleirar à janela, desviado do centro da parede por meio decímetro. Já com o pé no primeiro degrau, detém-se, desconfiado, e observa os dois lados do escadote, medindo tudo. Desmonta a estrutura e arrasta-a o tal meio decímetro de volta ao seu lugar. Só depois trepou e se colou ao vidro, mandando beijos à mãe lá em baixo.

Hoje, estava a mãe a mudar a fralda ao filho, ele relaxado e a mãe contente por ele não estar a reclamar, de tal forma que resolveu cantar-lhe. Como comentário à capacidade instrumental da voz da minha esposa, é óbvio que só posso dizer que é como ouvir mel entrar-me pelos ouvidos dentro. A minha reacção é sempre ficar embevecido a ouvi-la, juro. A reacção do nosso filho foi... mandar calar a mãe e tapar a cara. Diz a minha mulher, o rouxinol, que parecia estar com vergonha. Era a tal vergonha alheia, assegurou-me.

Sai aos seus...! É o que se diz, não é?

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Dias 43 e 44

Aqui, na cidade que nos acolhe,  há 44 dias que as creches e infantários estão em serviços mínimos. Até esta semana, só as crianças cujos pais — ambos — trabalham nas áreas absolutamente essenciais para o combate à pandemia continuaram a frequentar os infantários. Agora já podem ir as outras, desde que nenhum dos pais possa, em absoluto, ficar em casa com o afrouxar do confinamento. No caso do meu filho, cuja mãe continuou a trabalhar e cujo pai não tem de pôr dos pés fora de casa para trabalhar, o infantário continua a ser miragem.
Quando o nosso trabalho é escrever, ter que tomar conta de uma criança de 2 anos o dia inteiro significa que não se trabalha. Se antes era um pai de trazer por casa a meio tempo, hoje sou-o a tempo inteiro.
Leio aos soluços, quando posso, entre as vontades do meu filho (ou isso, ou vou espreitando as redes sociais — mas o meu filho tem a tendência a querer usar seja qual for o aparelho com que eu o faço, quando o estou a fazer, por isso desisto quase sempre). Trato dos afazeres caseiros durante a sesta de duas horas de início de tarde e convivo com a minha mulher, sem interferência infantil (se excluirmos a minha...), depois de o pôr a dormir. Tiro algum tempo neste último item para escrever estas linhas. É a única coisa que consigo escrever desde que mandaram o meu filho para casa. Sinto saudades.
Esqueço-me dos dias.
Em contrapartida, tenho convivido muito com o meu filho e vejo em primeira mão todas as evoluções. Já o vi soprar dentes-de-leão com algum sucesso. Vejo-o agradecer sempre que lhe dou alguma coisa. Ouvi-o usar algumas frases de três palavras. Já ajuda a pôr a mesa. Melhor que tudo, questiona-me mais vezes, batendo o pé à ordem pela ordem: tenho de começar a explicar-me. É justo. Cansativo, mas justo. (Sim — às vezes não dá para explicar e tem mesmo de ser.)
Oscilando entre o cansaço e a galhofa desabrida, o tempo que tenho passado com o meu filho não tem sido nem um desperdício, nem um peso. Vejo-o crescer à minha frente, com a minha ajuda e apesar dela, cada dia mais perto de ser um homenzinho.
Sinto a falta de escrever. De me sentar num café, num pub, e dar corda à caneta. De estar mais de duas horas com um texto em frente, fazendo-o crescer e criar raízes pela minha mão e imaginação. Apesar disso, não tenho pressa de mandar o meu filho de volta ao infantário (tenho pena pela falta de socialização nesta fase importante do seu desenvolvimento). Leio o livro dele, sabendo que algumas das páginas sofreram alguma edição da minha responsabilidade, mas com a esperança que seja um livro melhor que o meu.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Dias 41 e 42 — Locomoção

Andar. Todo o progenitor anseia pelos primeiros passos do seu primogénito. Sabendo o que sei hoje, deduzo que os anseios mudam, talvez de forma diferente para cada um, no que à prole subsequente diz respeito. Sendo eu pai de um anjo que já anda há algum tempo (já corre e tudo), já sei o que significa ter o petiz capaz de se locomover de forma ligeira.
Começar a andar é começar a ganhar independência, o que é positivo tanto para os pais como para os próprios. Também é pesar menos vezes na coluna dos pais, uma vez que se vai diluindo a necessidade de o transportar para todo o lado. Não me lembro de mais pontos positivos, assim de repente, além do gozo (já viram uma criança de fralda a andar?).
Quando o petiz começa a usar locomoção bípede abre-se um outro mundo — um mundo assustador. A criança passa a chegar onde antes não chegava. Começa a viajar mais longe, mais rapidamente, e sem ajuda — sem companhia, cada vez mais. Começa a ter ideias... e não são ideias indutoras de serenidade.
Tudo o que houver para agarrar à altura que agora alcançam, mãos dispensadas da prisão da locomoção quadrúpede, agarram. É preciso alterar a decoração toda, mudar produtos perigosos de lugar e deixar telemóveis em cima da mesa passa a ser motivo de grande ponderação e cuidado — quanto mais longe da beirinha, que tanto jeito dava, melhor.
O salutar passeio, que antes se fazia de forma relaxada empurrando o carrinho para onde quiséssemos, aturando apenas um chorinho aqui, outro ali, passa a ser uma montanha-russa de emoções. A vontade do petiz tem agora mais força, e mais meios. É preciso tê-lo sempre debaixo de olho, não vá o adorável bípede inexperiente resolver desviar-se do caminho, parar, disparar para a estrada, ou tentar apanhar todo e qualquer animal em que ponha o olho em cima. Parar, ou não, é um problema; tanto pode não querer parar quando nós queremos, como pode querer parar, sem razão aparente (regra geral é porque não quer ir para onde vamos, ou porque está a largar lastro na fralda), quando estamos já atrasados para voltar para casa.
Quer, o progenitor, ir à casa-de-banho? Se estiver só com o pimpolho não pode (não deve) fechar a porta, e é mais que certo que, ou o desenho animado, o jogo no tablete ou que mais prender a atenção do petiz são mais mais interessantes, ou vamos ter companhia, a apreciar o que estivermos a fazer.
Mudar a fralda? Já foge, se não quiser passar pela seca de mudar de cueiros. Obriga quem o quiser fazer a uma perseguição pela casa.
Alívio, orgulho, preocupação, susto, nervos. No fundo, mudam-se as preocupações um pouco. Aumenta aqui, diminui ali; excepto os cabelos brancos — esses só aumentam.

sábado, 25 de abril de 2020

Dias 39 e 40

40 dias. O Coisa-Ruim tentou-me algumas vezes nestes 40 dias. O lado negro da minha imaginação tem-me pregado partidas que me fazem rir, mais do que levar a sério, ao ponto de as partilhar com a minha mulher, que se ri — nervosa. Eu não tenho a certeza de que ela saiba que eu estou a brincar.
Estando o meu filho numa fase chata — manda na TV, não me deixa arranjar uma porta em paz, não me deixa lavar a louça em paz, não me deixa ir à casa-de-banho sozinho — penso ser normal que o meu demónio interior, que tanta vez é uma ajuda, se manifeste um pouco mais. A jaula que o prende é forte, mais forte ainda quando o seu alvo é o meu filho.
Apesar de todas provações dos 40 dias, o meu filho ainda me sorri e faz sorrir. São mais as vezes em que nos rimos que as que nos chateamos. Confesso que por vezes me deixo chatear só para ter uma desculpa para respirar um pouco, e depois volto à galhofa.
Ele ajuda-me a fazer exercício, dificultando-me os movimentos, fazendo a vez do peso, fazendo luta-livre. Sim, o meu filho gosta de investir contra mim e ri-se como um perdido quando finjo os movimentos todos.
Por mais que nos zanguemos (e o meu filho zanga-se muito comigo; basta que o prive de um dos seus pequenos prazeres, ou lhe mude a fralda sem ter cocó), é-me impossível não ficar meloso e contente quando o ouço chamar "pai" e agarra-se à minha perna — sim... de repente deixei de ser papá para ser pai. Cedo demais, não?

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Dia 38 — Dúvidas

Hoje ouvi o primeiro porquê? do meu filho. Eu queria mudar-lhe a fralda. Tinha acordado há pouco, ainda de pijama, e estava com a fralda da noite, cheia de urina até o gargalo. "Vamos trocar a fralda...", sugeri com autoridade. "Nein!", respondeu, "cocó, na tem!". Sim, o pai acredita que não tens cocó, mas a fralda está cheia de chichi. "Anda mudar a fralda...", disse, mais firme. "Puquê?", choramingou. Quase me deixou sem resposta, surpreendido por um tão claro porquê?, mas tive de responder de imediato. Usei a resposta que me deixava mais chateado na minha meninice, que eu dizia que não ia usar com o meu filho...: "Porque eu disse."
Desculpa, mãe. Desculpa, pai.

Ontem fui jogar à bola com o meu filho, hoje foi a minha mulher. A certa altura, ontem, o meu filho quis que o pegasse ao colo. Depois apontava para a bola e recusava que eu lha desse. Apontava e sacudia os pés. Dei um pontapé na bola e ele riu-se. Era o que ele queria... e eu cedi. Andei um minuto ou dois a mandar a bola à parede com o danado no colo, torcido de forma a ver a bola, e a dar-me pancadinhas nas costas com a mão com que se agarrava a mim. Queixei-me à minha mulher, que se riu...
Hoje foi ela jogar à bola com ele (eu fui gastar uma hora na bicicleta, sem ninguém a precisar da minha atenção, coisa que não acontecia há cerca de uma semana). Cheguei a casa, já estavam os dois à minha espera, e a minha adorável companheira abeira-se e diz-me que ele também lhe pediu colo, e apontou para a bola. Ela não cedeu e mandou-o ter juízo. Fez bem. Fez melhor que eu...

Depois destas coisas fico a pensar: serei um bom pai? Serei o pai que queria ser? Serei...?
Que se lixe! Sou o pai que sou, faço o meu melhor, e o meu filho não parece querer fazer-me desaparecer — para já. (Sim, eu não tenho pressa de chegar à adolescência.)

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Dias 36 e 37 — Tal pai, tal filho

Não tenho orgulho nisto, mas sou um cabeça-quente. Quando era criança e alguém me irritava os nervos, parti um brinquedo ou outro contra o chão. Não ganhei nada com isso — e fiquei sem brinquedo. Lembro-me de, adolescente já com canoagem no corpo, ter-me chateado com um jogo muito importante da equipa da Federação Portuguesa de Futebol e, controlando o nervo, ter saído porta da cozinha fora, ter apanhado três ou quatro troncos de lenha e tê-los disposto contra uma parede, partindo-os um a um, com método e sem espalhafato. A minha mãe observou tudo e riu-se, abanando a cabeça, a gozar comigo. "Que é que resolveste com isso, rapaz?", perguntou-me. Na altura ri-me de volta, já descomprimido, e respondi "Nada, mas ao menos já deitei os nervos fora."
Hoje, mais controlado, volta e meia sou capaz de dar um murro no braço do sofá, ou na minha coxa. Péssimo exemplo, eu sei.
Esta manhã vi-me no lugar da minha mãe. O meu filho estava chateado com alguma coisa no seu pequeno-almoço, e reclamava comigo. Eu comecei a imitá-lo. Ele enervou-se mais e deu uma pequena palmada na mesa. Tanto eu como a minha mulher dissemos logo "não!" Ele irritou-se ainda mais e deu nova palmada, mas desta vez acertou de raspão na beira da tigela de plástico de onde comia os cereais. Voou a tigela, voou a colher, voaram os cereais. Enquanto a minha mulher lhe ralhava, eu tive de sair. Ia começar a rir. Não por achar a acção dele engraçada, mas porque me vi nele (neste caso, infelizmente), parvo como tudo, e porque, como eu com os brinquedos, ele ficou sem os cereais que tanto adora. A sorte dele é que a mãe foi buscar mais.
O que não teve piada foi limpar aquilo tudo. Ainda bem que a minha mulher ainda estava em casa — não limpei sozinho.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Dia 35 — Sua Majestade...

Por muito porreirinho que seja o meu filho, todo charmes, sorrisos e conversa de bebé, também tem os seus momentos rei-na-barriga. Quando não quer comer o que está na mesa, ou já acabou o que tinha e quer mais, vira-se para a mãe e aponta para a cozinha com uma vocalização não-verbal que soa a ordem. Não o faz comigo, por estranho que pareça, apesar de apontar para a cozinha, mas com olhos de quem pede muito delicadamente. Mas faz-me outras...
Hoje, à hora do lanche, resolveu que o sumo que lhe restava na canequinha, depois de comer as bolachas todas, servia perfeitamente para fazer experiências. Enfiou a mão lá dentro, punho fechado. Como esperado, o punho fechado do meu fofinho provocou uma deslocação do sumo para o único espaço livre, a boca da caneca. Algum sumo pelo tabuleiro da cadeira dele, algum pelo chão, foi uma brincadeira divertida. Tirou a mão de lá e reclamou, apontando-me a mão a pingar sumo. Fui buscar um guardanapo, limpei-lhe a mão (faz destas e depois fica todo nojentinho) e pu-lo no chão. Depois de lhe lavar mãos e cara, fui limpar a cadeira e o chão. Foi aqui que sua majestade, vendo-me de quatro no chão, a limpar o sumo que sua excelência espalhou, resolveu que eu não estava a limpar de acordo com os seus padrões. Apontava-me o que estava sujo, incluindo um pedaço de papel que ele tinha acabado de deixar no chão, acompanhando o dedo com a tal vocalização com que manda mãe para cozinha.
Mais tarde, mesmo antes do jantar, estava eu a mexer no telemóvel e o meu rico filho aproximou-se de mão em riste, apontada ao telemóvel. Eu disse que não, não podia ser. Ele insistiu e esticou a mão. Ao afastar o aparelho do alcance dele o couraçado do meu telemóvel fugiu-me da mão, tentei apanhar-lo com a outra e só consegui fazê-lo girar no ar, de encontro à minha cara. Apanhei-o no ar logo depois de me acertar no lábio superior, deixando-me com uma dor considerável. Enquanto eu me agarrava ao lábio, que parecia arder, o meu adorado filho ria-se à gargalhada. Riu-se à gargalhada o tempo todo em que eu estive agarrado à boca. Não lhe dei o telemóvel, bem feito!... Com filhos destes...
A sorte dele é que o adoro.

domingo, 19 de abril de 2020

Dias 33 e 34 — Teimosia

É verdade que me vou queixando, com alguma frequência, da teimosia do meu filho. Imagino que todos os pais, ou quase todos, se queixam do mesmo. A verdade é que ele é um reguila, mas até é rapaz para compreender e ceder quando temos paciência; e nem é preciso muita.
Ontem queria calçar as botas, cheias de pêlo, que usou durante grande parte desse Inverno. "Bó!", pedia ele, com as ditas cujas na mão. Sentado na poltrona dele, botas entretanto pousadas em frente, ela apontava para as botas enquanto levantava o pé, pedindo que o calçasse.
Estava um bocado quente para botas, principalmente aquelas botas, e a minha intenção era fazê-lo correr atrás da bola, ou algo no género. Trouxe-lhe os sapatos próprios para a actividade e condições climáticas em questão e pousei-os ao lado das botas. Conversei com ele, dizendo que era melhor calçar os sapatos, que eram melhores para jogar à bola. Ele resistiu aí uns dois minutos até que eu, sentindo-me confiante, peguei num dos sapatos e pedi-lhe o pé, mostrando um pouco de entusiasmo. Ele levantou o pé, com alguma relutância, e deixou-se calçar. Não se falou mais dos sapatos. Correu como um perdido atrás da bola, à frente da bola, a rir-se do pai, que teve de se arrastar para ir buscar a bola abaixo de um BMW dos baixinhos, e a jogar à apanhada comigo. No meio disso tudo quis arranjar um pau para treinar contra os troncos de árvore, mas agarrou-se a um ramo de silvas seco. Mais uma vez, tive de o convencer a largar o pau com galinhas mansas — arrancá-lo da mão à força seria correr o risco de ter de o levar para casa tratar do "auá" (dói-dói para os alemães).

Hoje, como noutros dias, quando chega a hora de tirar a roupa para ir para o banho, resiste. Arranja subterfúgios como começar a brincar com algo que estava esquecido há que tempos, ou sentar-se em frente à televisão, muito interessado no que nós, os pais, estamos a ver. Finge que não percebe. Quando, finalmente, pego nele ao colo para o levar e pronto, muitas vezes reclama, resiste a que lhe tire a roupa, rebola...
Mais uma vez, converso com ele. Carinhosa mas firmemente agarrado, o meu filho ouve-me e negoceia, até perceber que não vale a pena. Aí sorri e conversa (não percebo mais de metade) enquanto lhe tiro a roupa com calma. Ele até colabora e despe parte da roupa por si.
No fundo, apesar de às vezes me fazer duvidar da minha capacidade para ficar zen, o meu reguila é um bom menino. A não ser que não queira. É melhor não me deixar enganar.
Respire-se fundo!

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Dia 32 — Atleta de primeira

Hoje descolei o meu filho da televisão — desliguei-a — e peguei na pequena bola de futebol. A relutância passou-lhe quando a porta se abriu e ele pegou na bola. Meteu-a debaixo do braço, quase encostada ao sovaco, e saiu porta fora com a inconfundível postura de dono da bola.
Conduziu-me até o largo onde costuma dar os seus pontapés na bola, chamando-me para o seguir. Andou ao chuto e correria de um lado para o outro, arrastando o pai pelo processo, até meter a bola de novo debaixo da asa e apontar para o passeio que nos levaria a dar uma volta ao quarteirão.
Fez quase todo percurso a correr atrás da redondinha, eu a esforçar-me por não deixar a bola fugir demasiado. Nas zonas de possível passagem de carro, limite máximo de 30 à hora, dei saltos de cabrito para manter a bola no passeio. Até que a bola cai para a estrada. Eu arranquei atrás, disse-lhe que ficasse quieto, olhei para a estrada e fui buscar a bola o mais rápido que pude, não fosse o petiz saltar atrás de mim. Quando agarrei a bola e me voltei para ele, estava exactamente na mesma posição de quando lhe pedi, assertivamente, que ficasse quieto. Parecia uma estátua com um sorriso malandro.
Quando voltamos para o prédio, o meu filho quis jogar à bola de novo. Dei-lhe a bola e posicionei-me de forma a que a bola não fosse para a zona dos carros estacionados. Mais correria.
A certa altura o meu filho lembrou-se de que há ali muita relva e ervas e galhinhos pelo chão a explorar. Deixou a bola e encontrou a espada perfeita.
Quando ele agarrou noutro pau e mo pôs na mão, eu fiz a asneira de bater no dele, como se estivesse a esgrimir. Percebeu a brincadeira e achou piada. Começou a atacar a minha espada num frenesim impressionante. Eu, arrependido, pensei que esta seria uma brincadeira má para ele levar de volta ao infantário, não vá acertar no olho de alguém. Depois lembrei-me que eu próprio, naquele momento, de cócoras, estava a correr o risco de levar uma vergastada. Estava este pensamento a ferver-me na minha cabeça quando o meu filho, num entusiasmo mais aguerrido, me acertou com a ponta do galho na borda da narina. Parece ridículo, mas aquilo doeu-me como múltiplos cortes de papel simultâneos. Aguentei — que remédio!
O meu filho correu, saltou, deu pontapés e esgrimiu sem parar. Não é de admirar que tenha subido meio lance de escadas, suspirado profundamente, e pedido colo para o resto da subida.
Em casa, sentou-se na poltrona e apontou para o ecrã...

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Dia 31 — Lebre ou tartaruga?

No passeio desta manhã, depois da luta para o convencer a largar os bonecos, o meu filho liderou o passeio sem problemas, divertido e interessado em ver coisas. Aos 15 minutos de passeio passamos ao largo de um jardim onde deambulam dois ou três coelhos de estimação. O petiz agarrou a minha mão — só desce o passeio agarrado à minha mão — e puxou-me até o outro lado da estrada, onde se colou à cerca. Durante mais ou menos o mesmo tempo que durou o passeio até ali, o meu filho perguntou-me vezes sem conta "qui'é?", ao que eu respondi de algumas formas diferentes, incluindo sempre a palavra coelho na frase — a maior parte das vezes respondi com uma frase de uma palavra só.
A princípio ele só apontava, excitado, enquanto perguntava o que aquilo era. Por vezes parecia conversar com o próprio coelho, não entendi bem sobre o quê. Ou o quê...
Acocorado ao lado do meu rapaz, uma das vezes em que o bicho se aproximou da cerca e meteu o focinho entre as grades, passei-lhe o dedo pelo focinho. O meu filho excitou-se ainda mais; mas quando o coelho se virou para ele, deu um salto para trás, reclamou um segundo, e depois abriu um sorriso enorme. A partir dali queria falar com o animal mais de perto. Agarrou-se à cerca, meteu o braço na cerca algumas vezes, mas nunca tocou; até que o coelho voltou a pôr o focinho entre as grades, mesmo apontado ao meu filho. Ele aventurou-se, devagar, e tocou no focinho do manso animal. Se a cara dele já estava iluminada, agora parecia o Sol. Achei que era a altura ideal para o levar para casa bem-disposto.
Pegando nele ao colo, atravessei a rua com alguma, pouca, reclamação, e pousei-o do outro lado da estrada. Não tentou voltar para trás. Entende que não vai dar e pronto.
Voltar para casa, apesar da ausência de reclamação, birra, ou exigência de colo, foi penosa. O malandro foi andando, devagar e devagarinho, parando de vez em quando para investigar o que já investigou vezes e vezes sem conta em passeios anteriores. Houve dois pontos da viagem de retorno em que isto foi evidente.
Já perto de casa há um grupo (cinco ou seis...) de estacionamentos em espinha privados, com aquelas trancas que se deitam para que o carro estacione por cima, mas que ficam erectas quando os proprietários do lugar as trancam, impossibilitando o estacionamento por parte de estranhos. O meu filho, que já os analisou e mexeu à náusea noutras ocasiões, resolveu que aquilo tinha piada e começou a sacudir uma das trancas, a ver como é que aquilo funcionaria. Eu esperei, pacientemente. Ele resolveu que queria investigar mais uma, para comparar, e aproximou-se de uma mais para trás, afastando-se de casa. Eu chamei-o e comecei a andar em direcção a casa, a ver se ele sentia a pressão. Nada. Continuei a andar, sempre a chamar, até estar a cerca de 5 metros dele, atrás de uma sebe arbustiva. Dava para o ver, mas ele não me via. Chamei, ele não ligou. Aguentei-me ali a ver até onde o braço-de-ferro ia. Lá resolveu, passado meio minuto (uma eternidade para um pai cujo filho está longe e na rua — a estrada estava vazia, sem movimento absolutamente nenhum, quer pedestre, quer automobilístico, senão nem tinha deixado o miúdo assim), chamar por mim. Eu respondi, sem sair do lugar. Não veio; preferiu abanar uma das trancas uma última vez. Chamou outra vez. Desta vez respondi saindo de trás da sebe. Ele veio ter comigo, com a maior calma do mundo.
Logo a seguir, já nas escadas do edifício, ele começou a parar nos degraus, a conversar comigo, a apontar para sei-lá-o-quê pela vidraça. Estava a um lance da porta de casa, já atrasado para pôr o almoço a fazer. Resolvi subir e abrir a porta — desatou a reclamar, correu para o lance de escadas e apontou para mim, dando-me uma descompostura. Desci as escadas e acompanhei-o na subida, agora mais rápido, mas sempre a reclamar, comigo. Tens razão, filho, mas já estavas a exagerar.
O meu filho é um reguila. Ainda bem.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Dia 30 — O mês

Esta manhã, mal a minha mulher pôs os pés porta fora (uns minutos depois, vá), mudei de canal, para a RTP2. Estava a começar o programa dos Twirlywoos, que eu até acho não ser uma má ferramenta didática. Aproveito para corrigir, e completar, já agora, a minha descrição de ontem destes bichos. Eu disse que não tinham dedos e não é verdade: têm polegares oponíveis. Também são desprovidos de bico e não tenho a certeza de que tenham penas — têm feltro. Andam sobre pernas nuas que acabam em barbatanas, como um pato. Há uma parte que, como é costume nestas coisas para crianças da idade do meu filho, é sempre repetida, com um pequeno ponto de variação. Aqui ouve-se bater à porta, e os surpreendidos Twirlywoos acorrem à dita cuja, que soa de novo com duas pancadas, e eles caem de costas no chão. O meu filho ri-se como um perdido. Levanta-se, ouve-se bater à porta de novo, e elas caem para trás.... mais uma vez. O meu filho quase caiu da poltrona, contorcido de tanto rir. Eu... Ok.
Acabados os... coisos, desliguei a televisão e aguentei as reclamações enquanto me vestia. Entretanto o petiz resolveu-se a concordar com o passeio e foi buscar as botas e um colete de penas para vestir. Estava um pouco para o frio, lá fora, e o colete até lhe manteria o tronco quente, mas era preciso pensar nos braços. Guerra para mudar de roupa.
A certa altura despi eu o casaco e sentei-me, dizendo que assim não saíamos. O bluff resultou — ufa! — e lá me pediu para tirar o colete (eu tinha-o vestido na esperança de que ele aceitasse pôr um casaco de malha por cima — não resultou), foi buscar o polar e entregou-mo para o ajudar a vestir. A partir daqui o passeio foi canja. Correu tudo bem, inclusivamente o regresso, dentro o tempo estipulado (mais ou menos).
Ao almoço comeu tudo, menos um bocadinho de cuscuz que resolveu deitar dentro do copo de água. Está numa de experiências. Uma delas foi, depois de comer uma banana inteira e dar por terminada a refeição, atirar o copo cheio de água e cuscuz para o centro da mesa. Não foi só uma toalha molhada, mas uma toalha molhada com cuscuz amolecido e peganhento. Fiquei tão divertido que precisei de contar até dez para não me desatar a rir à gargalhada e dar-lhe a ideia errada. Talvez divertido não seja a emoção correcta, mas vou manter esta versão.
Foi divertido. Muito...

terça-feira, 14 de abril de 2020

Dia 29 — Uma batata de sofá

A expressão idiomática da anglofonia que uso ali como título refere-se ao meu filho. Não que eu não tenha a mesma tendência, daí obrigar-me a fazer exercício fora de casa — em casa sento-me e vejo TV; quando o meu filho não toma conta da programação —, mas o miúdo tem apenas dois anos e migalhas.
Tem sido cada vez mais difícil pô-lo a mexer, a andar, a correr, a corrigir aqueles pés-para-dentro que me preocupam. Levanta-se da cama e resiste a mudar a fralda e do pijama para qualquer outra coisa, porque só quer ir a correr para a frente do ecrã, sentado na sua poltrona à medida. Nós ligamos a televisão, sim, mas nas notícias, o que suscita apenas uma leve reclamação por parte do petiz, que acaba espantado até mesmo para as notícias. Só sai dali para se aproximar mais do ecrã, ou para ir para mesa comer o pequeno-almoço.
Entretanto a mãe sai para trabalhar. Fica o pai, que lhe muda para a RTP2, onde estão a dar outros dos novos favoritos do rapaz, os Twirlywoos. São uma família de bonecos que lembram aves de cintura vasta e asas úteis apenas como braços sem dedos. Voam usando as três penas da cabeça, que giram como as pás de um helicóptero, se esse helicóptero tiver o tamanho de um avião jumbo com as hélices de um drone. Não falam, mas são muito coloridos e barulhentos.
Mal aquilo acaba eu tento brincar com ele. Jogo à bola dentro de casa, ele olha de lado e aponta para o ecrã, pedindo que mude de canal. Sento-me ao lado dele a fazer coisas com os legos duplo, e ele só se levanta se lhe apetecer testar, com violenta minúcia, a robustez das minhas construções. Ri-se e senta-se logo de seguida.
Hoje vesti-me por completo, calçado e tudo, o que costumava fazer soar um alarme na cabeça dele e correr a buscar as suas botas para as calçar. Desta vez mandou-me ir. Eu perguntei se ele não queria vir passear. "Na...", sem tirar os olhos do ecrã. Como até estava uma manhã fria, deixei a saída do dia para o fim da tarde, com a minha mulher (sou um querido, eu sei). Como precisava de ir tratar da louça e do almoço, piorei as coisas. Deixei-o de bonecos na TV, e o tablete no colo. Se eu costumo vir ver como vão as coisas com frequência, hoje quase não precisei. Por alguma razão, o rapaz veio amiúde ter comigo, de tablete na mão, música de um genérico a bombar, para abanar o capacete comigo.
À tarde, disse-me a mãe (eu fui às compras), foi preciso forçá-lo pela porta fora. Depois, para não variar, foi preciso muito para o convencer a voltar.
Tenho que o fazer mexer, longe do ecrã. Ainda desligo a televisão, sacrificando o meu próprio vício, mas as pernas algo musculares do meu filho estão a ficar mais... borrachudas. Uma batata de sofá...

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Dias 27 e 28 — Quer lá saber...

Ontem fomos jogar à bola para os campos à volta da cidade. Peguei na bicicleta, acoplei-lhe a carroça em que puxo o filho, e levei a minha pequena família a ver uns cavalos que vira dias antes. Tinha ido dar uma volta de bicicleta, para fazer exercício — não foi para desanuviar sozinho por uma hora; foi para pôr a máquina a mexer, sim. Claro que, chegado ao local, nada de cavalos. O cheiro estava lá, mas os quadrúpedes não estavam à vista.
Paramos pouco depois, numa clareira, e descarregamos filho e bola, ambos soltos quanto baste. Ora, solto, o meu filho aproveita. Brinca um bocado e depois explora o que pode sem pedir cavaco nem ajuda. Foi, por exemplo, vê-lo fazer um sprint repentino na direcção do rio que passa ali mesmo ao lado, a mãe a dar um grito e a correr atrás. Também por algumas vezes parecia correr de propósito para as trajectórias das bicicletas que iam passando, aqui e ali. Também foi muito divertido vê-lo desandar por ali a fora, cada vez mais longe dos pais, sem ligar aos nossos esforços para o chamar de volta, ou atraí-lo para o pé de nós. Quer lá saber.

Hoje fui passear com ele de manhã, sem a mãe. Foi pegando em paus para praticar dar coça em árvores, ervas e vedações sem contar muito com o pai, a não ser para me apontar o pau e imitar o que eu imagino ser um tiro. Nestas ocasiões era suposto eu reagir, fosse fingindo-me atingido por um projéctil imaginário, fosse com uma careta e um som engraçado. O que era preciso era reagir, fosse como fosse.
Quando chegou a hora de voltar para casa, aquela mania dele de ignorar os pais atacou forte. Eu indiquei-lhe a esquina a dobrar para regressar; ele foi em frente, sozinho e a ignorar os meus chamamentos. Deixei-o ir um bocado, a ver até onde ia. Parou ao pé de um carro e começou a tentar abrir-lhe a porta. Imitei um latido. Ele gosta de cães mas tem medo deles, por isso ouviu o latido e correu para perto de mim, sempre à procura do cão. Não tenho orgulho da brincadeira (apenas da minha imitação quase perfeita), mas funcionou...
Negociado o regresso a casa, evitando tentar roubar viaturas pelo caminho, ele lá me foi seguindo, de pé pesado, bem arrastado. Toda a planta do caminho foi desculpa para parar. As habitações daquela zona têm todas jardins e quase todas plantas pendentes para o caminho. Com a paciência em cheque, comecei a não parar quando ele parava. Mais uma vez, quis lá saber. Eu ia andando, ele ia ficando, deitando o olho de vez em quando. Ladrei de novo e mais uma vez veio para o meu lado.
Na última esquina a virar, a uma recta de duzentos metros de casa, ele reabriu as negociações, que eu recusei. Queria continuar o passeio, mas eu queria chegar a tempo da hora certa do almoço, não eu fosse ouvir da minha mulher — que tem sempre razão, como é de esperar. Afinal, escolheu-me para marido (ehehe!).
Ladrei de novo, confiante de que ia resultar. Mandou-me bugiar. Aqui o Pedro gritou lobo demasiadas vezes. Foi à moda antiga: carregado, a pesar ao pai, mas sem escolha. Fiquei com a impressão de fiz o que ele queria...

sábado, 11 de abril de 2020

Dia 26

Toda a gente pode mudar de opinião. É natural, e saudável, que o façamos de vez em quando. Quanto à opinião mais básica, os gostos, mais natural é, principalmente quando falamos de um indivíduo no começo da sua exploração do mundo e de si próprio.
Nos últimos dias, eu sempre a pensar no Booba, nos Oddbods e nos Superwings, vi o meu filho mudar a sua preferência de bonecada em pouco tempo. O desgraçado do homúnculo não-verbal, de pêlo branco e cauda de pincel, Booba de sua graça, não tem sido escolhido para passar o tempo do príncipe da casa, como o bando de esquisitos mas divertidos Oddbods foi esquecido, e os Superwings são já apenas fonte de divertimento quando lhe apetece sacudir a fralda numa rockalhada — quer ouvir a música de entrada, e pouco mais.
A peste da Masha e o desgraçado do Urso, que eu pensei esquecidos, voltaram à playlist de sua senhoria, mas só para um ocasional cheirinho. O fedelhos que se mascaram de pijama, com poderes animalescos e para quem a noite vem sempre no preciso momento em que são precisos para salvar a cidade de outros fedelhos, foram pelo mesmo caminho; é um cheirinho ocasional.
O que o meu filho agora quer ver até lhe saltarem as órbitas dos olhos, são as fabulosas (e um bocado trapalhonas) aventuras da Barbie. Sim... a Barbie. Já papou uma das séries e vai na segunda. A Barbie. Aquilo é tão vazio e tonto que eu fico com palpitações de cada vez que ele me aponta o quadradinho da Barbie na página dele do serviço de streaming que me sai do bolso...!
Para a semana há-de ser outra coisa. Ou assim espero — afinal, eu vejo quase tudo o que ele vê, e eu não quero ver a Barbie....!

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Dia 25 — Cá se fazem...

É meu modus operandi, quando ouço algum som tipo trombeta vindo vizinhança do meu filho, ou me sinto assaltado por um cheirinho mais desavindo com o meu olfacto, perguntar ao rapaz se tem cocó. Completo sempre o inquérito com um apalpão da fralda, pelo lado que der mais jeito. Umas vezes a coisa não passou de um gás, outras vezes é mesmo preciso mudar a fralda. Por vezes ele diz que não à sugestão de mudança de roupa interior. Nessas alturas peço-lhe para confirmar, então, a ausência ou presença da prenda. Umas vezes recusa-se, outras vira-se e põe-se de quatro, rabo para o ar, e deixa-me espreitar — um amor. Para convencê-lo, efectivamente, a mudar a fralda é preciso começar, mesmo que reclame de início. Regra geral deixa fazê-lo com risos e gargalhadas — é como quem diz, "vá, limpa-me o rabo; mexe nisso"...
Hoje, a preparar-me para sair, sentei-me na poltrona (na minha, que a dele não me serve no rabo) a calçar os sapatos. Ele adivinhou que íamos sair e correu ao seu quarto buscar o calçado da sua escolha. Teve (tive eu...!) sorte que acertou no calçado que lhe teria eu escolhido, já que ainda anda com a mania das botas, quando está já a ficar quente para elas — teria sido bonito se tivesse ainda que lutar com ele para mudar de ideia a esse respeito. Colocou-se à minha frente, encostado ao meu joelho, sapatos na mão e sorriso de antecipação.
Na posição em que estava, pressão no baixo ventre para chegar aos atacadores, senti que havia um volume extra naquela zona que me incomodava. Tentei contê-lo mas não consegui. O volume escapou-se-me, na sua forma gasosa, ainda por cima sonoramente conspícuo.
O meu filho ri-se e atira "cocó!". Não contente, estica o braço e enfia a mão por baixo de mim, como quem me apalpa a fralda. "Cocó!", outra vez...
Eu digo-te o cocó...!

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Dia 24 — O CR7 que se cuide!

Estamos quase no mês inteiro com o petiz em casa. Mas isso agora não interessa.
De manhã levei-o a dar um passeio. Deixei-o escolher a maioria do percurso, e ele aproveitou. Andou, andou, e a certo ponto, correu. Correu bastante — obrigou-me a andar em passada larga — e parecia não querer parar. Mas parou, agarrou-se aos joelhos (imitei-o) e desatou a correr de novo, arrancando um sorriso e um elogio de um fumador de máscara pelo queixo que por ali fazia a pausa. E correu de novo, ufa!
A certo ponto no nosso passeio, entre cerejeiras carregadas de flor, ele resolveu brincar sozinho, de pau na mão, a testar os menos de metal. Afastei-me um bocado, a ver se ele me seguia, e nada. Deixou-se focar isolado, apesar de observado pelo pai, e nem se preocupou. Quando o fui buscar — estava a abusar —, veio comigo sem problemas. Fomos ver que fauna havia a ver no laguinho ali perto, e eu descobri, além do pato e de uma ave que me lembra o galeirão (mas não é), uma lebre que se afastava do lago calmamente por um relvado. Lebre... aquilo tinha o corpo de um buldogue inglês, e mexia-se de acordo com o peso que parecia ter. Chamei o meu filho, pus-me de cócoras e sentei-o no meu joelho, encostado a mim para poder apontar-lhe o bicho com maior eficácia. Percebi o seu isolamento anterior. O miúdo emanava um fedor da fralda que me atingiu de surpresa, deixando-me zonzo. Tinha-se isolado para se poder aliviar sem pressões. Compreende-se. Peguei nele ao colo e desandei para casa. Havia uma fralda a mudar.

À tarde, já com a mãe ajuntada à festa, fui dar uns pontapés numa pequena bola que lhe comprei há cerca de um ano. Correu atrás da bola, deu-lhe uns valentes pontapés, falhou outros tantos. Descobri que é dos que pega na bola e não deixa jogar se não toca na bola há mais de... um minuto, digamos. Pegava na bola, reclamava um pouco, pousava a bola e dava dois passinhos atrás, torcia o tronco para dar balanço e mandava um valente pontapé na bola. Para uma perninha ainda tão curta, um pé esquerdo que aponta para a direita e um pé direito que ainda não se decidiu para onde aponta, o pontapé dele não está nada mau...
Se ele quiser ser jogador da bola, tem de ser tão bom ou melhor que o CR7, que a mãe já disse que se é para ser mãe de jogador da bola, ao menos que seja como a Dona Dolores...!

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Dia 23 — Super Wings

O meu filho já tem bonecos favoritos. Os primeiros que ele não dispensava, se bem me lembro, foram os Ratinhos Construtores, depois os da Ladybug e o Booba.
Os Ratinhos Construtores são uns bonecos da Baby TV, muito simples, tão simples que o guião é sempre igual. Acontece sempre exactamente o mesmo, mudando o objecto que quase cai e depois se tem de adivinhar qual é, ou o animal que o mágico tem de completar. De resto, os movimento da queda e do salvamento são sempre exactamente os mesmos, a peça que falha no animal é a mesma e o sofrimento do pai é sempre o mesmo.
A Ladybug é uma personagem adolescente de uma série francesa mas afinal japonesa e para adolescentes. Faz lembrar a Navegante da Lua, diz-me a minha esposa, e não entendo porque raio gosta o meu filho daquilo.
O Booba é uma espécie de homúnculo peludo, de cauda tipo pincel e penca generosa, que explora vários ambientes da vida de um ser humano, umas vezes entendendo nada, outras vezes entendendo demais. É um tipo de humor físico, que desafia constantemente a física, que até me diverte —vá — um bocado.
Entretanto passou por uns Oddbods, um sexteto (se não me engano) de seres sem nariz, cujos corpos lembram cápsulas de remédio com pernas e braços, vestidas com roupas peludas com antenas ou protuberâncias tipo cornos, cada um com a sua cor e a sua personalidade próprios. Têm personalidades diferentes, inequivocamente associadas aos seus talentos exagerados. Mais humor físico, mais gargalhadas do pai. Por empatia, claro...
Agora, sei lá porquê, deu-lhe para querer ver, ad nauseum, os Super Wings. Para quem não sabe, estes resumem-se a um avião, chamado Jet, que percorre o mundo e as diferentes culturas para entregar encomendas magicamente concebidas e utilizáveis. É uma perfeição. Onde quer que chegue, apenas para fazer a entrega, este avião-correio entra sempre em casa dos recipientes da encomenda, sempre crianças — claro! —, depois de a entregar, para ver para que é que estes querem aquilo. Tudo muito profissional, até porque não me lembro de uma única vez ter sequer sido convidado ou ter pedido autorização para entrar. Há sempre algum dilema a resolver, e o robô-avião-carteiro (uma espécie de Transformer estilo manga infantil) prontifica-se logo, mais uma vez, sem que ninguém lho peça, para chamar um ou mais dos seus amigos robôs-veículos (quase sempre voadores) para ajudar. Corre sempre tudo muito bem, até porque a física ajuda, pausando o correr do tempo, para que os heróis mecânicos conferenciem e, eventualmente, se transformem em versões turbinadas de si mesmos, tipo Ana Malhoa, a rainha do som tropical-urbano.
Uma réstia de esperança: o que mais excita o meu filho nos Super Wings é a música do genérico, que é rock. Mal vê que um episódio vai começar, levanta-se e finca os pés, afastados, virado para a televisão e de mãos quase em posição de air-guitar. Quando a música começa, é um abanar de fralda e braços, flectindo os joelhos ao ritmo da guitarrada. No fim já sabe que há um acorde final mais forte, quase apoteótico, e lá sai um vitorioso movimento correspondente.

Vá; tudo a sacudir as melenas:
"Super Wi-ings! Oh, Oh...! Super Wi-ings!!"

terça-feira, 7 de abril de 2020

Dia 22 — Arrumações

O meu filho é, por assim dizer, arrumadinho. É comum, quando resolve ajudar na arrumação das caixas de brinquedos, mudar o que eu pus numa caixa para outra, onde ele acha que é o lugar daquilo. Tudo tem o seu lugar, e ele reclama se descobre algo fora dele.
Há já algumas noites seguidas que ele me surpreende, de manhã, com uma arrumação expediente — e interesseira. O ritual de acordar passa (ou passava) por tirá-lo da cama, dar-lhe o biberão, abrir o estore (ele ajuda), despir o saco-cama e mudar a fralda e a roupa, para depois ser solto — vai a correr para a poltrona de onde vê televisão. Nós ligamos a televisão para o pequeno-almoço, nas notícias, e ele pede sempre bonecos; não os tem, mas pede-os. Recentemente, depois de começar a chamar — e nós esperarmos pelo nosso despertador para o habituar que não é ele quem decide quando acordamos; apesar de ser... — eu entro no quarto e, surpresa, está já sem saco-cama e este está dobrado sobre a grade do fundo do berço, onde eu o costumo pendurar daquela mesma forma. Já saltou um passo para poder ir pedir bonecada para a frente do ecrã. Malandro...

Por falar em malandro:
Ontem à noite, batia a meia-noite, a minha mulher ressonava ao meu lado e eu acabava de ver um episódio de uma série sobre um vírus (coincidência) disseminado na chuva, quando ouço um choro baixo, adormecido, com uma palavra repetida. Era a palavra dele para a chupeta (não usa nem a portuguesa, nem a alemã — usa "mi'a", porque é dele). Fui verificar ao monitor e vi que, realmente, estava a chucha no chão e ele estava de costas, para a câmara, meio a dormir. Correndo o risco de o acordar  mesmo, entrei no quarto e pus a "dele" na cama, ao pé da mão do meu filho. Apanhou-a e meteu-a na boca, mas virou-se logo para mim, que já me esgueirava para fora do quarto. Levantou-se e começou a fazer o seu choro propositado, para me chamar a atenção, ligando a lua que lhe toca canções de embalar. Saí na mesma, esperançoso no sono dele, e voltei para a frente do monitor. Mantendo sempre o choro em ondas regulares, qual sirene, vi o meu filho por-se de quatro na cama, esticar o braço através das grades, e largar a chucha no chão, quase pousada. Se eu fui lá por causa da chucha, iria outra vez. Resisti, a ver o que ele faria. Passado um minuto ou dois, baixou o volume e a intensidade do choro e esticou de novo a mão, para apanhar a chucha. Para azar de ambos, ele enfiou a mão entre as barras erradas, falhando a dita cuja. Tentou outra abertura, mais longe da chucha, e o choro começou a ficar mais sério. Lá entrei eu de novo.
Desta vez não consegui ignorar o choro. Cedi. Dei-lhe a chucha e ele esticou-me os braços. Peguei nele ao colo, por dois minutos, sempre a conversar com ele, a pedir-lhe que dormisse. Voltei a pô-lo na cama e saí com um "boa-noite!". Voltei para o monitor. Voltou a deixar a chucha no chão. Deixei-me estar, a ver até onde ia o malandro. Desta vez desistiu do artifício rapidamente — menos de meio minuto — e resgatou a mi'a com sucesso. Deitou-se e pareceu adormecer quase de imediato. Ufa...! Era a minha vez de ir dormir.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Dia 21 — Coisas de atleta

Nos últimos três ou quatro dias temos usado com frequência a palavra "atleta" em relação ao nosso filho. Hoje confirmei-o, no nosso passeio diário, já que a certa altura começou a fazer sprints. Correu muito, e rápido (só o acompanhei com passada larga — uma estafa!), sempre a aumentar o comprimento das corridas sem perder muito fôlego. Só caiu ao fim de várias corridas, o que não o impediu de pedir ao pai para limpar o dói-dói do joelho (no ego... mas pronto) e voltar a fazer uma corrida ou outra uns minutos depois. Ainda perdeu algum tempo a treinar artes marciais, armado com um pau, contra os troncos que via pelo caminho. Um atleta...
Mas o que pôs a palavra "atleta" na boca dos pais no que toca o petiz nestes últimos dias, é algo que vem dos primeiros tempos de atleta deste pai que agora escreve sentado num sofá. Fui federado, ao longo da minha ainda curta vida, em três desportos diferentes: karaté, canoagem e futsal. Primeiro o karaté, na pré-adolescência, seguido da canoagem, até ir para a faculdade, e o futsal foi o regresso ao desporto, já na passagem para os trinta. Foi a partir da canoagem que passei a ter a companhia permanente — apesar de há quase 20 anos estar tão controlada que parece ausente — de um imperfeito fungo. Sou portador de pé-de-atleta.
Há cerca de 4 dias a minha mulher chamou-me para ver, entre os dedos dos pés do meu filho, umas peles soltas em volta de zonas mais cor-de-rosa. Não havia ferida (ufa!), mas para lá caminhava. Tendo sido eu massacrado por aquela coisa durante alguns anos, senti o cheiro e senti-me culpado... O raio do miúdo apanhou-me o fungo! A minha mulher não tem (ou não se manifestou até agora), apesar das muitas oportunidades para partilhar a maleita, mas o filho parece ter apanhado. O mais estranho é que, como disse, há décadas que não tenho feridas ou comichões. Há a hipótese de ter apanhado noutro lugar, sim, mas a hipótese paternal é forte.
A culpa pesa-me... Vou perguntar aos meus colegas do tempo da canoagem quem foi o sacripanta...!

domingo, 5 de abril de 2020

Dias 19 e 20

O dia de ontem foi para o casal. Em vez de escrever aqui, mal pusemos o petiz na cama, resolvemos fazer uma soirée de casal. Nada de mais: jogamos cartas e comemos nozes variadas enquanto bebíamos uma cerveja cada. Merecemos. Isto de ficar em casa — mais do que o costume — custa um pouco. Digamos que "saímos" à noite.
Pouco antes, pré-jantar, o miúdo não quis ouvir os avisos, tanto do pai como da mãe, para que não se metesse entre as pernas da mãe, que estava a cozinhar. Ora, agarrado a uma das canelas da mãe, que se mexia pouco para não magoar o filho,  o desgraçado ancorou o pé no tapete ao rodar um pouco em volta da perna da mãe. O tapete fugiu, a criança entrou em parafuso e foi de costas, a esfregar de cima a baixo, contra a esquina de um degrau do banco/escadote de cozinha que estava mesmo ao lado. Ficou com uma tatuagem em forma de foice, cor-de-rosa-esfolão, com uma ponta mais roxo-névoa-leve. Uma tatuagem mutante, uma vez que hoje a curva é menos rosa e mais totalmente roxo-névoa, menos leve. Bonito... As boas notícias é que ele não se queixa muito do toque. É um duro — que faz birra por não poder brincar com o telemóvel do pai.
Hoje viu alguns cães, o meu filho, durante um curto passeio por um cemitério/monumento dos homens da área mortos na Primeira Guerra Mundial, que é no topo de uma elevação considerável. As pessoas, nesta altura de reclusão social, levam os cães a passear para estes locais, na esperança de serem os únicos. Nós pensamos no mesmo, com o nosso filho, e não fomos originais. Mesmo assim, os visitantes eram em número suficiente para que as distâncias fossem consideráveis. O meu filho viu passar os cães ao longe, dando-lhes sempre o mesmo nome: "Cã!"
Pouco depois passamos por uma vacaria... "Qu'é?" apontou ele a todas a vacas que via, em fila no estábulo. "Vaca. Faz muuu!" Respondi eu a princípio. Depois passei ao "vacas; tudo vacas".

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Dia 18 — Exibicionismo

Falo poucas vezes ao telefone com o meu pai mas, quando falo, falamos durante bastante tempo, e com intensidade. Partilhamos paixão por alguns assuntos e somos ambos faladores. Hoje não foi excepção. O problema é que eu tinha uma criança de 2 anos sob o meu cuidado.
Hoje chegou uma bola de esponja, tamanho certo para o meu filho, textura certa para a vizinha de baixo — não faz barulho. Estávamos em pleno jogo, sem saber bem as regras, quando o meu pai me liga. Um olho no burro, outro no cigano, é que diziam os mais velhos — antes da patrulha do politicamente correcto atacar —, e foi o que fiz, mas com um ouvido para o meu pai e um olho para o meu filho. Mas a conversa foi longa e o petiz estava na sua poltrona a ver a bonecada, muito compenetrado. A certo ponto da conversa, eu olho para o meu filho; calças pelos joelhos, a olhar para as pernas. Puxei-lhe as ditas cujas de volta à cintura e voltei à conversa. Mais uma ou duas de treta, voltei o olhar para o filho. Sentado, de calças pelo joelho de novo, a puxar as presilhas do cós do body. Resolvi ignorar, a ver se o desmotivava por não dar importância. Erro crasso.
Dez minutos depois, quando voltei a entrar na sala depois de ter ido à cozinha pôr o jantar a fazer, sempre em debate com o meu pai, apanhei o malandro de calças pelos joelhos, o body pendurado e de cós solto, fraldas penduradas apenas pelo joelho esquerdo e... pilinha ao relento. O sorriso com que ele me presenteava enquanto dava passinhos encurtados pelas calças quase me fez sorrir de volta; mas aguentei-me. Sem deixar de falar com o meu pai, trouxe-o ao colo até o quarto dele e troquei-lhe a fralda. Ele esteve o tempo todo a rir...

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Dia 17 — O perito em informática

O meu filho já mexe em tudo o que é telemóvel "esperto", tablete, ou mesmo computador. Ele já percebe como funciona a coisa e faz quase tudo com uma dose de intenção que me deixa espantado. Para um tipo que foi apresentado ao mundo dos computadores numa idade precoce para a sua geração, pouco antes dos 10 anos — um ZX Spectrum 48K —, é estranho ver uma criança de dois anos, completados há um mês, mexer nestas coisas melhor do que eu. Não sou fã do telemóvel "esperto", confesso, e tenho-os evitado. O meu filho não os evita; antes pelo contrário. É uma das maiores fontes de birras — por sorte tenho um miúdo de birra curta; para já.
Hoje cedi e deixei-o a jogar o único jogo que tenho no raio do aparelho, enquanto eu o vigiava com um olho e ouvia umas coisas no youtube. Ouvi uma música que não ouvia há muito, o meu filho já estava a ver coisas na app youtube kids. Fui verificar e fechei-lhe umas oito páginas de publicidade. Descobri uma música nova, escrita por uma conhecida banda alemã (Die Ärzte) durante a quarentena, sobre a quarentena. Achei-lhe piada, no pouco que percebi (eles costumam ser divertidos e irónicos), e resolvi traduzir a letra para português — sempre treino e aprendo mais algumas palavras do raio da língua. Antes, fui fechar mais algumas janelas no telemóvel.
Demorei cerca de meia hora para fazer a tradução à letra da... letra. Nesse intervalo de tempo voltei algumas vezes à vigilância do que andava o meu filho a fazer no telemóvel. Sim... ele esteve mais de meia hora a jogar e a ver bonecos naquela coisa — sou um pai horrível. Quando fiz a pausa, antes de melhorar a tradução com um toque ou outro que ajude a fazer mais sentido na língua de chegada (estou a fingir que sei da poda, sim), fui verificar o que raio se passava com o meu filho e o meu telemóvel. O filho estava baralhado e o telemóvel ainda mais. O fofo do petiz pôs-se a mexer nas configurações e eu não reconhecia nada no meu telemóvel, cuja bateria estava agora a 2%; prestes a desligar-se. Nada do que me fazia reconhecer aquele telemóvel como meu, à excepção das múltiplas rachas no vidrinho de "protecção" de ecrã, a maior parte de responsabilidade da criatividade estética do meu descendente, estava lá. Liguei o aparelho ao carregador e verifiquei a memória; procurei as fotografias do diabrete, mais especificamente. Estavam todas lá. Ufa!

Liguei o aparelho cerca de uma hora depois, e consegui perceber o que raio fez o meu filho ao telemóvel quase duas horas depois disso.
Diacho do miúdo... qualquer dia ensina-me!

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Dia 16 — Brincamos...

Sendo eu uma criança no corpo de um urso — perdão — robusto adulto, há duas actividade que não me importo nada de partilhar com o meu filho. Brincar e ver desenhos animados. Se a brincadeira incluir legos, então, eu sou capaz de me perder. Se os desenhos animados forem dos menos pueris, também é possível que o meu filho tenha companhia na gargalhada — só que eu entendo mais piadas que ele, ora toma!...
O problema é que o rapaz está a gostar demasiado dos bonecos do ecrã, assim como dos aparelhos de ecrã. Se o deixar, já fica mais de uma hora de ecrã na mão. Para o evitar, além do impedimento físico, tento distraí-lo do seu desejo pelo telefone ou tablete brincando eu com os legos à frente dele. É um sacrifício enorme.
Por acaso até é: imaginem o que é construir uns quatro veículos diferentes, como fiz hoje, com peças Duplo (quem percebe de legos sabe que a variedade das peças é menor, pelo que exige mais da imaginação), enquanto o petiz permanece colado aos Super Wings (não são dos que me atraem). E continua a ignorar as minhas obras e arte até a mãe chegar do trabalho, altura em que, depois do beijinho à mãe, descobre (finalmente!) os coloridos bólides — e uma nave espacial — e, em vez de brincar com eles, resolve testar a resistência das construções.
Heidelberg, a cidade onde nos encontramos, não foi bombardeada durante a Segunda Grande Guerra. Hoje, na sala do pequeno apartamento onde nos confinamos, em vez de bombas choveram carros e uma nave espacial. Ele sentiu a necessidade de os atirar mais do que uma vez ao chão, já que as minhas obras são sólidas, espalhando peças por todo o lado. Abandonei a sala, deixando o bombardeiro com a mãe, sentindo cada aguçada pancada de legos no chão como se de um soco no estômago se tratasse...

Ainda bem que aquele jipe de lego adulto (a partir dos 7 são adultos, sim!) que lhe ofereceram no Natal foi... guardado para quando ele for mais velho, totalmente montado, na estante dos meus livros. Tudo pelo meu filho.