terça-feira, 31 de março de 2020

Dia 15 — A mesa do Dr Moreau

Há dois dias pusemos o nosso filho à mesa. Dantes púnhamos os pratos no tabuleiro próprio da cadeira, que encostávamos à mesa para ele comer connosco. Agora tiramos o tabuleiro (manobra que só consigo fazer como quem arranca a porta a um carro capotado e todo torcido para tirar de lá o Papa, mas a minha esposa fá-lo com a finesa de uma bailarina do Bolshoi — não compreendo) e encostamos a cedida directamente à mesa, as pernas do petiz debaixo desta. Isto resultou numa mudança de comportamento drástica.
Usando a mesa como os pais usam, o rapaz comeu imediatamente melhor, e com menos estardalhaço. Nos idos tempos do pré-mesa, o tabuleiro dele servia de tela, de campo de batalha e de laboratório para experiências ao estilo do Dr Moureau, envolvendo a comida, os talheres, os copos e os pratos que lhe púnhamos à frente, por vezes até mesmo as mãos — depois ficava nojentinho e pedia que lhas limpássemos. Para melhorar a frustração dos pais, era frequente tudo aquilo transbordar para o chão, por vezes a dois metros de distância (os salpicos de fruta cozida que se vê embebida no papel de parede por trás do lugar dele prova-o).
Pós-mesa, além de comer mais e melhor, a experimentação centra-se mais na imitação das técnicas de alimentação altamente treinadas e finamente executadas pelos pais. Suja menos; muito menos.
Ontem a minha mulher, hoje eu, gabamo-nos da nossa felicidade às respectivas mães por este salto evolutivo no comportamento do nosso filho. Nem de propósito, o jantar de hoje foi um retrocesso. Recusou a sopa — incluindo o bocadinho de pão que normalmente a acompanha; e ele adora pão. Mal tocou no segundo prato, cheio de coisas que ele adora (pronto, ok: ele não costuma comer as verduras assim tão bem...). Comeu a fruta cozida toda, é verdade, fresquinha do frigorífico, mas, mal acabou, pegou no copo de plástico com um restinho da papa de fruta e largou-a ao chão, onde o encontro do corpo em queda com o chão violentamente estacionário fez saltar o fluido viscoso, espalhando gotas e gotículas por um raio de quase um metro. Fiquei tão contente... Estava com saudades de me pôr de joelhos à procura de comida para limpar. Wohoo...

Não digam nada à minha mãe. Ou à minha sogra. Não lhes estraguemos a prisão domiciliária.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Dia 14

Hoje a mãe não foi excluída.
Logo depois do jantar, estava ele a espalhar coisas de forma pacífica pela sala, a rebolar pelo chão com almofadas e outras coisas fofas, enquanto os pais o observavam, meio distraídos pelas notícias do vírus. A dada altura, depois de muito se aninhar entre almofadas, peluches e um tapete de yoga enrolado, o petiz foi buscar uma mantinha que mantemos na poltrona onde é suposto este pai ler, ou relaxar (ahaha!), chegou-se ao sofá e começou a tentar cobrir a mãe, que estava meio deitada, pernas em cima do pai, cheio de dores por ter chegado há pouco (2 a 3 horas é pouco, não?) de uma corrida ao frio. Mandei logo a boca de que era a minha mulher a substituta da turquinha de olhos grandes, amiguinha do meu filho. A mulher que muito me atura disse que não, que não era líquido. Talvez fosse a boneca. As dúvidas dissiparam-se quanto à aceitação da mãe na brincadeira quando ele trepou para o sofá, mesmo do lado da mãe, e se enfiou também debaixo da manta, agarrando-se a ela e simulando dormir com aquele ressonar nada falso, róó-pchiiii. Foi aceite. Juro que vi uma emotiva lágrima a querer sair do olho direito da minha companheira.
Outra curiosidade é a evolução rápida do meu filho quanto às suas maneiras à mesa. Desde ontem que lhe tiramos o tabuleiro da cadeira, aquele no qual ele espalhava o que quer que fosse que se lhe pusesse à frente com curiosidade e/ou fúria, e o encostamos à mesa. Neste novo formato, nestes dois dias, ele comeu melhor, com menos habilidades extra, menos comida espalhada de propósito e cheio de vontade de se sentar connosco. Um menino grande, diz a orgulhosa mãe.
Ao jantar, hoje, enquanto a minha mulher foi buscar o segundo prato dele à cozinha, eu tentei convencer o petiz a comer mais um pouco de sopa, que ele deixara a meio (evolução positiva, garanto). Apontei para o prato e ele, intenso, fez-me um olhar ameaçador — ou assim pensou ele. Fechou os olhos quase por completo, num esforço que eu não entendi logo, de lábio projectado e testa franzida. Eu ainda tentei aguentar-me, mas não consegui. Soltei uma gargalhada curta e ele ficou um pouco sentido — tirei-lhe a sopa da frente, por via das dúvidas. O amuo passou mal viu a mãe entrar com o novo prato. Tudo bem.

domingo, 29 de março de 2020

Dia 13 — Faz-de-conta...?

Uns dias antes de fechar o infantário, por causa do famigerado vírus, tivemos uma conversa com a educadora responsável pelo grupo do nosso filho. O objectivo era partilharmos informações sobre o desenvolvimento do petiz. A aquisição de linguagem, o desenvolvimento motor e social, tudo na mesa, dos dois lados. Nada do outro mundo, à excepção do raio dos pés metidos para dentro ao andar.
No meio daquilo tudo, fomos trocando histórias. A que hoje nos interessa é a que a forte educadora, originária da Rússia, nos contou sobre o desenvolvimento social do rapaz; sobre a forma como brinca com os colegas.
Contou-nos, então, que o nosso filho faz parte de um trio mais chegado, com uma turca muito mimosa e um angolano grandalhão, todos mais ou menos da mesma idade. Brincam sempre os três, muito cúmplices. Acontece que, observou ela, de vez em quando o meu filho e a turca brincam às famílias, deitando um boneco entre eles e puxando a coberta sobre os três. Tanto o meu descendente como a menina de olhos grandes recusam, quando se embrenham nesta brincadeira, a presença do outro vértice do triângulo. Aparentemente, o angolano fica um bocado triste com a exclusão.
Ultimamente, aqui em casa e já sem ver os seus amiguinhos há quase duas semanas, o miúdo tem subido para a cama dos pais e, metendo-se debaixo dos lençóis, finge dormir com um ressonar simulado bastante conspícuo. Ontem eu deitei-me ao seu lado e fingi que dormia também. Riu-se e continuou a brincadeira, incluindo-me. À tarde voltou a tentar a brincadeira. Desta vez foi a minha esposa quem se dispôs a brincar com ele. Ele disse que não e empurrou a mãe, chateado. Ela levantou-se e eu substituí-a, e ele voltou a rir-se e fingir comigo.
Hoje de manhã, acabado o pequeno-almoço e encontrada a porta do quarto dos pais aberta, lá foi ele meter-se na cama grande, com edredão fofinho e tudo. A mãe tentou de novo entrar na brincadeira; foi de novo recusada. Eu voltei a entrar para o lugar dela, e mais uma vez fui aceite.
Conclusão aparente: eu sou o substituto de uma turca fofinha de dois anos, a minha mulher é o angolano de sorriso largo que promete ser jogador de basquete.

sábado, 28 de março de 2020

Dia 12 — Calmaria...

Em primeiro lugar, alívio! O meu filho não é machista; pelo menos não para já. Hoje fomos os três dar um passeio à serra, conduzidos pela minha mulher. O nosso menino não disse palavra, como habitual. Gozou a viagem e pronto.
De resto, dia calmo. A grande evolução foi que, na hora da sesta, aquela a que ele tinha por hábito resistir sempre um bocadinho, me pregou uma partida. Positiva, mas uma partida. Levantou-se, com ar ensonado mas decidido, e dirigiu-se ao seu quarto. Segui-o. Ele foi directo à lua da luz azul que o embala com musiquinha e ligou-a. Eu aproveitei e corri para a janela e baixei o estore, virei-me para trás e perguntei-lhe se queria mudar a fralda — nunca se sabe. Ele abanou-me a cabeça, de chucha bem presa na boca, enquanto metia uma mãozinha por cima da grade da cama e apontava para o colchão. Nem pensei duas vezes.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Dia 11 — Malandro...

Hoje foi o quarto dia da nossa terapia de choque, devidamente investigada entre várias publicações de puericultura, para que o nosso petiz perca a vontade de se levantar cedo; cedo demais. Basicamente, se ele acorda antes das 7 e meia e teima em levantar-se, encontra a casa às escuras, a TV mantém-se desligada, e ele tem apenas acesso à sala e ao nosso quarto, onde nós nos voltamos a deitar (como é óbvio, já não dormimos, atentos ao que se passa ao lado). Ele tem brinquedos na sala, mas mais nada.
Acordado às 6 e meia, o fofo, lá teve o leite (já bastante diluído, a ver se também desiste disso) e mais nada. Esteve uns 10 minutos sentado na sua mini-poltrona em frente à televisão desligada. Depois veio ter comigo ao quarto, onde trepou para a o meu lado e se deitou encostado a mim durante uns... 10 segundos. Depois quis o meu telemóvel; recusado. Deu a volta, para o lado da mãe, repetiu a dança; recusado. Voltou para a sala e deixou-se estar em silêncio. Demasiado calado. Tive de ir espreitar. Estava a estudar, na pouca luz que o estore deixava entrar, um livro dele ali abandonado da noite anterior. Deixei-o em paz.
Pouco depois, ligeiro, voltou a entrar no quarto e encostou-se à cama, mesmo ao meu lado. "Cocó", disse. Eu perguntei, a confirmar, se ele tinha a fralda cheia. Pareceu-me confirmar, com um aceno na penumbra. Perguntei se podia ver. Ficou parado, mas deixou-me espreitar-lhe a fralda. Nada. Malandro... Sabia que aquilo me faria sair da cama.
Como ainda não está muito assente de como deve assinalar que tem, efectivamente, a cheirosa prenda, não posso considerar que mentiu — até porque é muito novo para entender o conceito —, mas como sabe que "cocó" me faz interagir mais, tentou a sorte. Usou a palavra, e não o seu significado. É um malandro...!

A investigar:
Foi passear de carro à tarde, enquanto eu dava uma corrida. Tenho sido eu a conduzi-lo, e fica sempre calado, contente por estar naquela cadeira confortável a ver coisas. Desta vez, com a mãe ao volante e segundo relatório da própria, ia a reclamar, com autoridade e veemência. Tenho medo que seja alguma forma de machismo, a reclamar da condução da mãe.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Dia 10 — rapinas e o burro de carga

Hoje o meu filho viu um peneireiro passar-lhe mesmo à frente. Não sei quem ficou mais excitado (eu), mas para efeitos de deixar um pai contente, digamos que foi ele. Ele achou piada ao voo rasante, mesmo à nossa frente, mas passou logo à distracção seguinte. Foi mais um passeio pela montanha que o meu filho adorou — especialmente da cadeira XPTO em que se senta no carro, a ver coisas passar.
Ao fim da tarde virou-se para mim e apontou para o chão. Achei que quisesse brincar, como tem sido recorrente, às feras. Pus-me de gatas e rugi. Ele riu-se e rugiu também, mas depois ficou com ar de medo e correu para mim para me pedir um abraço. É comum. Quer ser um leão, depois fica com receio do leão maior e prefere o pai. Mas não era isso, realmente, o que ele queria de mim. Apontou de novo para o chão, agachando-se. Pôs de borco no chão e levantou o rabo. Queria flexões... Acabado de voltar de uma corrida, estava estafado. O meu filho insistia para que eu o acompanhasse, e eu tentava demovê-lo, ainda sem gás.
Lá cedi. Pus-me no chão, também de borco, e posicionei os braços de forma a poder levantar-me, empranchado, do chão. Para não variar, em vez de me acompanhar, o meu filho montou-me o lombo. Como não reagia de imediato, saltitou o rabo nas minhas costas, pôs as mãos em volta do meu tronco (até onde consegue) e puxou-me, como se me quisesse levantar. "Bom...", pensei, "vai ter de ser."
Ria-se à gargalhada de cada vez que subia, eu preocupado em que ele não caísse ou me faltassem as forças.
A mãe, muito simpática, resolveu filmar a cena. Que divertido... Ao menos o meu filho ficou contente e o meu ego não ficou muito estragado — ainda sou capaz de fazer flexões com um rapazote de 2 anos a fazer peso extra.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Dia 9 — carros e natureza

Aprendeu a palavra "carro", o meu filho. No nosso passeio matinal, pelas zonas verdes do campus universitário, exibia a nova habilidade de cada vez que via uma viatura de quatro rodas. "Carr'!", apontava energicamente e repetia, apontando para o do lado, "Carr'!" A falta da última vogal, prolongando o "rrrrr", pode ser da falta de aperfeiçoamento, ou do facto de ele ter nascido na Ilha da Madeira. Claro que a pronuncia do pai, também madeirense, não tem nada a ver com isso.
Como madeirense que ele não sabe que é, trepou colinas imensas (da minha altura, não é nada mau) de pau — perdão — espada na mão, em plena carga (desajeitada, é certo, mas ele só tem 25 meses) contra as forças opressoras de "Edward Longshanks". Quase se atirou a um lago artificial só para ver mais de perto um par de aves que me lembraram galinhas d'água — mas já estou destreinado... — e não queria vir embora. Claro que os bichos, de cada vez que ele se aproximava, com a delicadeza com que a Maria Leal sacode os ossos, se enfiavam entre os juncos.
Mais um pouco, mais um lago artificial. O busico não reparou logo, mas nele flutuavam, muito quietos, dois patos-reais macho. Eu apontei-lhos, um dos patos mexeu-se, e o meu filho excitou-se de tal forma que, mais uma vez, tive de o agarrar pela gola do casaco para que não tentasse correr pela água. Fiquei com ele ali, até que se cansasse de olhar para os patos que se afastavam devagar a cada gritinho excitado do petiz, para ir para casa.

Foi um bom dia.

terça-feira, 24 de março de 2020

Dias 7 e 8 — medo e birras

Ontem tive ainda menos tempo para isto, tão pouco que foi nenhum. Tinha um prazo de entrega para um texto hoje, e muito pouco tempo entre ser pai, marido e tratar das tarefas caseiras. Por isso escrevo hoje pelos dois dias.

Na tarde do dia 7 do fecho da creche, o meu filho surpreendeu-me, ao ver uns desenhos animados que me divertem (talvez por isso não devam servir para ele, agora que penso nisso), com um grito. Levantou-se da sua poltrona pessoal e correu para a minha perna, onde se agarrou com força a esconder a cara. Na televisão, reparei, um urso pouco verosímil urrava e corria atrás de um dos personagens patetas da série. Terá percebido o medo na face exagerada do boneco? Terá tido medo, ele próprio, do urso?
Voltou a sentar-se na poltrona, e o Netflix seguiu na mesma série. Daí a pouco, novo episódio, novo urso, desta vez branco mas exactamente a mesma fuça. Gritou de novo, correu para mim com ar de medo e, agarrado ao pai, continuou a ver a bonecada, começando a rir à gargalhada e tudo. Pensei que aquilo não seria normal, e convenci-o (com dificuldade) que era melhor ver outra coisa.
O pormenor cómico do dia:
À hora do banho, sendo a minha vez de o despir antes e vestir depois,  espreitei a fralda antes de a tirar, não fosse preciso estar preparado para uma desagradável surpresa escatológica. Nada. Nádegas limpinhas, limpinhas. Tirei-lhe, então, a dita cuja sem os cuidados que se exigiriam. Já em pelote, o petiz fez sinal de que queria ir para o chão e foi agarrar na roupa que usou durante o dia, para a meter no cesto da roupa a lavar. Tudo parte da rotina, direitinho, mas, quando devia ir ter com a mãe à casa-de-banho, virou para o sofá-cama que tem quarto. Queria trepá-lo, e fê-lo. Foi aí, quando ele alçou uma das pernas para cima do sofá, que reparei que entre as nádegas do meu filhote havia qualquer coisa que não devia lá estar. Agarrei nele e espreitei, ele sempre a espernear e a rir, que havia ali um cocozinho, pequenino, duro e bem preso, escondido entre as bochechas. Sob reclamação do filho, agarrei nele e num toalhete, e limpei-lhe o traseiro.
Lá o deixei ir para o banho — teria sido divertido (mas potencialmente letal para mim), se o tivesse deixado ir assim, cocó preso entre as nádegas, para o banho da responsabilidade da mãe. Aquilo ia flutuar, eu ia rir-me, e levar com o olhar... (arrepios!)

Hoje, 8º dia, acordei às 5 e 55 da manhã. Um choro pouco estridente, relativamente baixo, mas insistente como um despertador arraçado de ambulância fazia um eco ainda mais enervante entre o que se ouvia do quarto, e a sua repetição quase imediata no monitor. Fui espreitar: estava acordado, de pé, agarrado à grade que ainda o mantém na cama. Estrebuchado (tinha-me deitado à uma e meia da manhã — quatro horas e meia antes), tirei-o da cama e percorri os passos da rotina matinal com manifesta má-disposição. Foi o começo de uma manhã de maus humores. Não houve bulha nem nada disso, mas houve birras e braços-de-ferro a rodos. E também ele fez birras.
A meio da manhã, deixando-o a ver o raio dos bonecos que queria, fui para a cozinha tratar da louça e preparar as coisas para fazer o almoço, enquanto via um documentário no "tablete". Cerca de 10 minutos depois, ele vem ter comigo e quer o "tablete". Depois de uns 5 minutos de birra, resolveu que  ia ficar por ali na mesma. Empoleirou-se no raio do banquinho de onde tinha caído no outro dia, a ver a vida enclausurada do lado de fora — muito vento e ninguém na rua. Mais uns minutos e... catapum! Caiu-me dali abaixo outra vez. Fez "áua" (alemão para dói-dói — sim, é uma porcaria ser tão parecido com "água") —, pelos vistos,  e levou um miminho. Fui pô-lo à sala, em frente à televisão (sou um pai extremoso, não sou?), e voltei para a louça. Mais 5 minutos e tenho o reguila de novo na cozinha. Mais uma vez, empoleirou-se a ver passar navios. Mais uma vez escangalhou-se dali abaixo. Mais miminho, menos banquinho. Pus o raio da coisa atrás da porta de entrada (que fixe!), longe de qualquer janela. Ele voltou à cozinha e, sempre a querer ver ninguém passar (vá... uma pessoa por cada 3 a 5 minutos), empoleirou-se no rodapé estranho que o senhorio achou que ficava bem ali, solto. Mais baixo, muito mais baixo, o petiz lá se esticou a ver se via. Ele não viu, mas vi eu: o raio do rodapé virou e ele caiu de lá abaixo, mas equilibrado e de pé. Não houve mimo — não houve "áua" —, mas houve viagem de regresso à babá "bonecos animados". Repetidas vezes, até acabar a louça a lavar.

domingo, 22 de março de 2020

Dia 6 — a fralda...

Hoje amanhecemos, para não variar muito, às 6 e meia da matina. O amoroso petiz acordou, e pronto: nada a fazer.
Um dia de céu aberto, sem uma nuvem à vista, o que permitiu o Sol aquecer o frio da manhã até uns abafados 9ºC entre as 13 e as 14 horas. Perfeito para o meu passeio diário com o filho, por três quarteirões carregados de flores e carros estacionados que lhe despertavam a atenção. Para me ajudar a manter a forma e lembrar-me do defeito lombar, o adorado filho exigiu colo por mais de metade do percurso. Na fase final do passeio, para meu descanso físico mas não nervoso, pediu para ir para o chão, agarrou-se a um pau e distribuiu porrada a cada tronco de árvore e frondoso arbusto; as bicicletas tiveram a minha avisada protecção, não fosse ter de recorrer ao seguro.
Ao fim do dia, entre o jantar e o banho, pus-me na brincadeira com ele. Eu construía qualquer coisa em Legos, ele destruía e espalhava as peças pelo chão, o mais longe possível. É um dos seus desportos favoritos, agora, e um que eu adoro... a sério... adoro. A certa altura resolveu ajudar-me: colocou uma peça onde lhe deu na gana, e ficou a rir-se. Depois destruiu tudo na mesma. Foi por esta altura que parou, agarrou-se à pilha de caixas de brinquedos, muito quieto, e — desconfiei, com uma dose de confiança bastante grande, devido ao som — descarregou uma prenda na fralda. Confirmei o sucedido, segundos depois, pelo cheiro.
Ora, como o banho estava a menos de 5 minutos, continuei a brincar com ele. O facto de ser a minha vez de dar o banho e ser a minha mulher a despi-lo, ajudou à decisão. Todas as decisões têm consequências.
O petiz, amoroso, preferiu continuar a folia usando o pai como carrossel, ou ginásio, ou lá o que fosse. Ele trepou e deu cambalhotas por cima de mim. Empoleirou-es no meu peito, de pé e agarrado às minhas mãos, e começou uma caminhada em direcção à minha virilha. A cada passo senti o perigo aproximar-se, o medo a aumentar, a possibilidade de um irmão para o meu filho esvair-se. A um passo de me pisar o que não deve, agarrei nele e fiz-lhe cócegas, ele sentado na minha barriga. Ele lutou bravamente e eu libertei-o. Ele usou a liberdade para se arrastar por mim acima, até esfregar a fralda, cujo cheiro não enganava, na minha cara. Não achei piada.
A sério; não teve piada.
Amanhã não há passeio...!

sábado, 21 de março de 2020

Dia 5 — o terror nocturno

Ontem o meu filho embirrou mais que o normal com a rotina da hora da cama. Livre de roupa e fralda, em vez de se dirigir por si até à casa-de-banho, onde a mãe esperava, banheira cheia e brinquedos a nadar, resolveu passear a sua nudez por todos os centímetros do apartamento que não são a casa-de-banho. A negociação foi dura mas firme; ele lá foi, sempre com um sorriso de charme, a ver se a mãe o deixava solto e seco por mais algum tempo. Não é que não goste de tomar banho, mas mais porque gosta de ser ele a controlar os tempos.
Banho tomado, dentes lavados, lá foi para o quarto, onde começou nova ronda de negociações. Desta vez não queria fazer o que faz todos os dias: ir pacificamente para a cama. Ganhou uns minutos, mas acabou por ir com um lamento que não é comum — regra geral, vai sem espinhas. Mas o pior estava para vir.
Acordei com o monitor a chorar e a reproduzir uma musiquinha de embalar. Eram 3 e 25 da manhã, e o meu filho acordara de repente, a chorar estridentemente, o que disparou a lua que lhe toca canções de embalar. Esperei uns minutos, a ver se a música funcionava, como é costume. O aperto emocional de o ouvir chorar continuou, e lá foram ambos os pais ver o que se passava. Estava de pé, agarrado ao interruptor da lua, a tentar desligá-la. Sempre a chorar, pediu colo e que desligasse aquilo. Fiz tudo o que me pediu. A mãe perguntou-lhe se queria leite, e disse que não. Não era normal. Parecia genuinamente assustado. Um terror nocturno, presumimos.
A mãe, tendo que ir trabalhar na manhã de hoje, confiou-me a missão de o acalmar e adormecer de novo. Ele pedia, sempre choroso, para abrir os estores, como pede de manhã quando já não volta para a cama. Mostrei-lhe, por outras janelas, que estava tudo escuro lá fora e não era hora de acordar. Entre passeios ao colo, conversas sentados no sofá da sala escura, e tentativas de o deitar de novo, passaram duas horas até que adormecesse, colado a mim, no sofá-cama que temos no quarto dele. Entre pô-lo de volta na cama dele (tentei...), onde ele desatava a chorar como se a cama o mordesse, ou deixar toda a gente dormir, desde as vizinhas idosas, em cima e em baixo, até a minha mulher, no quarto ao lado, resolvi dormir assim, sem cobertura e com almofada de sofá.
Dormiu até pouco antes das nove, sempre aninhado contra mim. Eu?... fui dormindo; umas vezes com medo de me mexer e esmagá-lo (pouco provável, porque quase não me mexo quando durmo), outras com frio nas pernas. Mas lá ele dormiu.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Dia 4 — ver as vistas

Hoje soube que a cidade-distrito de Heidelberg, onde resido, pondera obrigar os seus cidadãos a ficar em casa. Soube-o depois de ter passado a primeira parte da manhã na pequena (440m) "montanha dos santos" (Heiligenberg) com o meu filho, a respirar o ar fresco entre árvores, aves canoras e a possibilidade de ver uma rapina. Corços, ou outros mamíferos de maior porte, tenho pouca esperança de ver — não me afastei muito da estrada, que eles têm a inteligente tendência de evitar.
A felicidade do meu filho ao explorar as ruínas do mosteiro de São Estêvão, o sorriso com que apontava para as árvores de cada vez que ouvia um pássaro cantar por cima dele e a vontade com que comeu o lanchinho, sentado num banco virado para a cidade velha lá em baixo, deixaram-me babado e feliz por lhe ter dado este mimo. O facto de estarmos lá em cima sozinhos — um carro ou outro passaram, um parou, mas nunca vimos outras pessoas — ajudou bastante.

Ontem à tarde, no passeio diário, já o meu filho tinha tido um pequeno contacto extra com a natureza (tem sempre, que esta zona é bastante verde e amiga da fauna que se atreve a penetrar na área urbana). Levei-o ao campus universitário, ali ao lado, para perto de onde a mãe estaria ainda a trabalhar. Estando quase nada em funcionamento, o campus está quase vazio. O meu filho, sempre intermitente entre o próprio pé e o transporte parental, lá foi descobrindo as relvas e flores silvestres, os barulhentos periquitos-de-colar, os chapins-azuis, os melros, as gralhas e os corvos, até pôr o olho num outro animal, incapaz de voar. A uns dez metros de nós, uma lebre julgava-se camuflada pela erva alta. Eu vi-a e apontei, o petiz viu-a e não aguentou; dirigiu-se, a medo, para lá. Eu segui-o, devagar. Excitado, o meu filho dava uns passos, olhava para mim, apontava, e sorria muito. A lebre, confiante, não se mexia. Quando o meu busico estava a cerca de um metro do bicho, desatou a correr, o que fez disparar a lebre, o que fez explodir a excitação do meu filho, que me apontou a lebre em corrida, seguindo-a com os olhos até que se escapulisse para lá da esquina de um edifício. Os olhos arregalados dele diziam tudo.

Voltando à manhã de hoje, apenas um comentário: ao conduzir de volta, encosta abaixo, uma rapina de grande porte levantou voo à minha frente, da beira da estrada. Só tenho pena que não fosse do lado em que o meu filho estava preso à cadeira de segurança. Desconfio que não a viu.

Dia 3 — Cérbero põe o nariz de fora

Ao terceiro dia, com pouco tempo para escrever — porque quero dormir um pouco (fui acordado às 6 da manhã, outra vez, pelo mais fofo dos filhos) —, eis que tive um vislumbre do que o medo e o condicionamento mental, provocados por uma pandemia das chatas, fazem a um pai.
Fui para a cozinha tratar da louça e do almoço, deixando os bonecos televisivos nas cantorias e/ou histerias despropositadas a dançar no ecrã. Desta vez o petiz preferiu seguir o pai a ficar a saber, no meio de gritinhos e risinhos incompreensíveis, a quem pertencem as orelhas pintadas, sabe-se lá porquê, numa parede de madeira lá na quinta por onde saltita, desacompanhada, a Pequena Lola. Nenhum problema; desde que não se agarre às pernas do pai, não atrapalha.
Como o pai pouco lhe ligava — uma seca...! —, o meu filho fez o que faz com frequência, há muito tempo, quando está na cozinha com os pais. Trepa ao escadote/banco de dois degraus que temos encostado à janela e encosta-se ao vidro, de cotovelos no parapeito interior, a coscuvilhar o mundo exterior. O pai relaxa, porque é algo habitual e ele já o faz com o cuidado e a destreza mais que necessários.
Mas... (o raio do mas) há sempre excepções à regra. Num segundo em que virei as costas, para pôr um prato a secar, ouvi-o trambolhar. Ainda me virei a tempo para o ver a cair de lado no chão e rodar, dando um pequeno toque com a cabeça no chão. Antes deste prognóstico de pouca gravidade, o meu cérebro disparou: primeiro, "Ai, que o miúdo matou-se!", seguido de — e aqui é que me dei algo em que pensar —, "Irra, que não é boa altura para ir às urgências!" Como é óbvio, não queria correr o risco de ter de o levar a um possível foco de infecção...
Vi o inferno por segundos, mas o dói-dói foi ligeiro — o mimo não.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Dia 2

(O petiz já dorme a sesta, posso escrever.)
Depois da sesta de ontem, lanche tomado, resolvi levar o rapaz a dar um passeio a pé. Levá-lo à rua para respirar ar fresco, apanhar sol e exercitar as pernas sem ser a dar voltas ao apartamento. Aqui não pensam pôr quem sai à rua no calabouço mas, não tendo muito para onde ir (a cidade pediu que fechasse tudo menos supermercados, farmácias e bombas — os restaurantes laboram, mas só para take-away ou entrega) e o receio da infecção, as ruas estão mais ou menos vazias. Apesar da primavera que espreita desde anteontem, os alemães contentam-se, com responsável diligência, em apanhar sol nas varandas e nos jardins. O meu filho adorou, apesar de ter feito, de forma intermitente, mais de metade do passeio ao colo do pai. No fim não queria voltar para casa, pelo que teve de ser carregado mais uma vez; de forma pacífica, surpreendentemente.

Hoje acordou às 6h30 da matina... iupi.
A meio da manhã lá me pôs a fazer exercício. "Bola", disse-me. Eu acedi a dar uns pontapés na pequena bola que ele persegue e pontapeia com vontade. De vez em quando pára a bola, dá uns passos de dança para trás — mais uns saltinhos de hesitação que passos —, arma os braços para o lado direito, para dar balanço — ainda é mais um desperdício de energia que outra coisa — e avança para o esférico, com a vontade de um CR7, mas o jeito do pai — genes(?). Mas acerta na bola, e com força. Cansado da bola, aproveitou que o pai se atirou ao chão, depois de sofrer uma horripilante entrada a pés juntos — ok; ele nem me tocou... — para se sentar nas minhas costas e começar a puxar o meu tronco para cima, sem resultados. É o sinal dele para que eu faça flexões com ele em cima. E fiz, sempre cheio de medo que ele se largasse e me caísse ao chão no pico da subida. Depois decidi eu, já que estava a fazer algum exercício, pegar nele pelo tronco e fazer agachamentos que terminavam com o arremesso (não era atirar ao ar, que o tecto falso é baixo...) da preciosa carga de 13 kg acima da cabeça. Ele riu-se como um perdido; eu fiquei com os ombros a arder — para as pernas é brincadeira (ehehe!).
Ao almoço pediu-me que lhe mostrasse como usar faca e garfo. Já usa o garfo há muito tempo, mas a curiosidade para com o nosso uso dos dois talheres tem aumentado a olhos vistos. Estive cinco minutos a cortar o que lhe restou no prato em bocados cada vez mais pequenos, agarrado às mãozinhas dele, que não largavam nem faca nem garfo. Ele estava maravilhado.

Agora que dorme, não consigo deixar de pensar que o meu receio de perda de juízo é, para já e ainda no início, uma visão longínqua. Hoje, até agora, passei bons momentos.

terça-feira, 17 de março de 2020

Dia 1 — a antecâmara da sala 101

Hoje começa a saga do filho-em-casa. Aqui onde moro, a partir de hoje, apenas os supermercados, mercearias, farmácias e bombas de combustível estão abertas — e o laboratório onde a minha mulher trabalha, para já. Não foi o estado alemão, o federal, quem o decidiu, mas a cidade, que é autónoma (é uma cidade-distrito, ou Stadtkreise) dentro do estado, o federado, em que se insere. Este estado é, hoje e pelo que ouvi, aquele que mais casos confirmados da infecção COVID-19 alberga. A cidade tem 112 desses casos, 4 deles hospitalizados.
O dia começou bem, com a criança a dignar-se a contrariar a tendência dos últimos dias — acordar uma hora, pelo menos, antes do despertador dos pais. Acordou apenas meia hora antes, vá lá. Até sinto que dormi demais. A recusa em sair do pijama mal saiu da cama foi consistente com as semanas anteriores e o pequeno-almoço correu normalmente, mas a saída da mãe sem que o levasse com ela foi o começo do fim. Faltou-lhe a dança de recusa a entrar no carrinho sem antes dar uma volta ao fim da entrada exterior do prédio, imagino. Ele não é de ficar muito ansioso com as saídas de um dos progenitores, mas nesta é costume ele também ir. E não foi, para mal dos meus pecados.
Os desenhos animados mantiveram a paz por mais uma hora, mais ou menos, até lhe dar na cabeça que queria mudar de canal. Pode parecer pouco, mas é preciso ter em conta que, a partir do momento em que ele pede para mudar o canal, ou seja, o boneco que está a dar, pela primeira vez, a frequência com que o faz aumenta exponencialmente. Ou me desloco ao computador/media-centre com a frequência exigida, ou levo com uma ladainha chorosa, bastante incómoda e pouco amiga da minha saúde mental. Mudei uma, duas, três vezes e parei. "Ête!", atirou-me, apontando para o ecrã, certo de que o meu papel como comando televisivo seria cumprido com zelo depois de tão eloquente autoridade. Falhado este propósito, começou o choro.
Como sou um fã de Legos (sim faço publicidade gratuita, porque sim), espalhei os dele (Duplo, tem de ser) pelo tapete da sala e comecei a brincar. Ele ficou feliz e ria-se à minha volta. Eu construí um edifício, ele ajudou com uma ou duas peças. De resto, a colaboração dele resumiu-se em correr até a porta e voltar, pegar em peças Duplo e escondê-las debaixo do seu móvel favorito na sala inteira — depois da sua poltrona de esponja, claro. Quando dei a obra por concluída, fiz-lhe um sorriso e adornei a revelação com mãos-de-festa, a ver se o excitava com aquilo. Excitei, é verdade, mas a excitação dele deu para correr para a minha construção e espetar-lhe um pontapé, todo sorridente e orgulhoso da destruição consequente. Depois pegou nos conjuntos de peças que ainda não se tinham separado, um a um, e correu ao outro lado da sala para atirar tudo ao chão, espalhando as peças individualmente. Eu fiquei semi-catatónico, como se balas me atingissem pelas costas enquanto um UH-1 levanta, deixando-me para trás esburacado e ensanguentado.
Foi aí que pensei em fazer uma pausa do meu adorado petiz. Pensei em lavar a louça. Sim; é preferível. Como já havia previamente acordado com a minha companheira conceder ao nosso filho uma hora diária de tablet, decidi que era hora da hora.

Agora dorme. É hora da sesta, depois do almoço. É a minha janela.