Uns dias antes de fechar o infantário, por causa do famigerado vírus, tivemos uma conversa com a educadora responsável pelo grupo do nosso filho. O objectivo era partilharmos informações sobre o desenvolvimento do petiz. A aquisição de linguagem, o desenvolvimento motor e social, tudo na mesa, dos dois lados. Nada do outro mundo, à excepção do raio dos pés metidos para dentro ao andar.
No meio daquilo tudo, fomos trocando histórias. A que hoje nos interessa é a que a forte educadora, originária da Rússia, nos contou sobre o desenvolvimento social do rapaz; sobre a forma como brinca com os colegas.
Contou-nos, então, que o nosso filho faz parte de um trio mais chegado, com uma turca muito mimosa e um angolano grandalhão, todos mais ou menos da mesma idade. Brincam sempre os três, muito cúmplices. Acontece que, observou ela, de vez em quando o meu filho e a turca brincam às famílias, deitando um boneco entre eles e puxando a coberta sobre os três. Tanto o meu descendente como a menina de olhos grandes recusam, quando se embrenham nesta brincadeira, a presença do outro vértice do triângulo. Aparentemente, o angolano fica um bocado triste com a exclusão.
Ultimamente, aqui em casa e já sem ver os seus amiguinhos há quase duas semanas, o miúdo tem subido para a cama dos pais e, metendo-se debaixo dos lençóis, finge dormir com um ressonar simulado bastante conspícuo. Ontem eu deitei-me ao seu lado e fingi que dormia também. Riu-se e continuou a brincadeira, incluindo-me. À tarde voltou a tentar a brincadeira. Desta vez foi a minha esposa quem se dispôs a brincar com ele. Ele disse que não e empurrou a mãe, chateado. Ela levantou-se e eu substituí-a, e ele voltou a rir-se e fingir comigo.
Hoje de manhã, acabado o pequeno-almoço e encontrada a porta do quarto dos pais aberta, lá foi ele meter-se na cama grande, com edredão fofinho e tudo. A mãe tentou de novo entrar na brincadeira; foi de novo recusada. Eu voltei a entrar para o lugar dela, e mais uma vez fui aceite.
Conclusão aparente: eu sou o substituto de uma turca fofinha de dois anos, a minha mulher é o angolano de sorriso largo que promete ser jogador de basquete.
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