Hoje começa a saga do filho-em-casa. Aqui onde moro, a partir de hoje, apenas os supermercados, mercearias, farmácias e bombas de combustível estão abertas — e o laboratório onde a minha mulher trabalha, para já. Não foi o estado alemão, o federal, quem o decidiu, mas a cidade, que é autónoma (é uma cidade-distrito, ou Stadtkreise) dentro do estado, o federado, em que se insere. Este estado é, hoje e pelo que ouvi, aquele que mais casos confirmados da infecção COVID-19 alberga. A cidade tem 112 desses casos, 4 deles hospitalizados.
O dia começou bem, com a criança a dignar-se a contrariar a tendência dos últimos dias — acordar uma hora, pelo menos, antes do despertador dos pais. Acordou apenas meia hora antes, vá lá. Até sinto que dormi demais. A recusa em sair do pijama mal saiu da cama foi consistente com as semanas anteriores e o pequeno-almoço correu normalmente, mas a saída da mãe sem que o levasse com ela foi o começo do fim. Faltou-lhe a dança de recusa a entrar no carrinho sem antes dar uma volta ao fim da entrada exterior do prédio, imagino. Ele não é de ficar muito ansioso com as saídas de um dos progenitores, mas nesta é costume ele também ir. E não foi, para mal dos meus pecados.
Os desenhos animados mantiveram a paz por mais uma hora, mais ou menos, até lhe dar na cabeça que queria mudar de canal. Pode parecer pouco, mas é preciso ter em conta que, a partir do momento em que ele pede para mudar o canal, ou seja, o boneco que está a dar, pela primeira vez, a frequência com que o faz aumenta exponencialmente. Ou me desloco ao computador/media-centre com a frequência exigida, ou levo com uma ladainha chorosa, bastante incómoda e pouco amiga da minha saúde mental. Mudei uma, duas, três vezes e parei. "Ête!", atirou-me, apontando para o ecrã, certo de que o meu papel como comando televisivo seria cumprido com zelo depois de tão eloquente autoridade. Falhado este propósito, começou o choro.
Como sou um fã de Legos (sim faço publicidade gratuita, porque sim), espalhei os dele (Duplo, tem de ser) pelo tapete da sala e comecei a brincar. Ele ficou feliz e ria-se à minha volta. Eu construí um edifício, ele ajudou com uma ou duas peças. De resto, a colaboração dele resumiu-se em correr até a porta e voltar, pegar em peças Duplo e escondê-las debaixo do seu móvel favorito na sala inteira — depois da sua poltrona de esponja, claro. Quando dei a obra por concluída, fiz-lhe um sorriso e adornei a revelação com mãos-de-festa, a ver se o excitava com aquilo. Excitei, é verdade, mas a excitação dele deu para correr para a minha construção e espetar-lhe um pontapé, todo sorridente e orgulhoso da destruição consequente. Depois pegou nos conjuntos de peças que ainda não se tinham separado, um a um, e correu ao outro lado da sala para atirar tudo ao chão, espalhando as peças individualmente. Eu fiquei semi-catatónico, como se balas me atingissem pelas costas enquanto um UH-1 levanta, deixando-me para trás esburacado e ensanguentado.
Foi aí que pensei em fazer uma pausa do meu adorado petiz. Pensei em lavar a louça. Sim; é preferível. Como já havia previamente acordado com a minha companheira conceder ao nosso filho uma hora diária de tablet, decidi que era hora da hora.
Agora dorme. É hora da sesta, depois do almoço. É a minha janela.
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