quarta-feira, 15 de julho de 2020

O que tem de ser...

Foi já há duas semanas e meia que o meu filho foi autorizado a voltar à creche. Desde o início que nós, pai e mãe, esperamos que ele traga para casa qualquer coisa extra. Bactérias ou vírus, é sempre de esperar que, quando se reunem crianças em bandos, se espalhem mais ou menos amiúde e com alguma eficácia. Nesse caso, porque vivemos em tempos de medo generalizado, antecipávamos procedimentos e burocracias várias para levar a criança de volta para a creche. Mas a certeza de que ia acontecer estava lá, e a desconfiança era de que fosse quase de imediato. O que tem de ser...
A primeira semana passou com o nosso filho tão saudável como nos meses em que ficou confinado a casa, aos passeios com os pais, e a uma ocasional visita ao parque infantil. Nem um pingo de ranhoca. A segunda semana acabou da mesma forma: nada de infecção ou virose, nem um toque de febre para amostra. Estávamos com sorte.
No Domingo antes de começar esta terceira semana de regresso à creche, passou a manhã bem-disposto, mas a jorrar ranho pelo nariz. Pronto, já tem um toque, pensamos nós. Depois de uma hora do almoço em que, para não variar, comeu de pouco a nada (diz que é normal, algures no segundo ano de vida, mas é um estímulo ao desenvolvimento de úlceras nos pais), parecia um pouco cabisbaixo. Ao tirá-lo da cadeira, a mãe apercebeu-se de que estava quente. Era altura de muda de fralda (espero não ter de o fazer dentro de um mês ou dois...), por isso seria uma boa oportunidade para lhe medir a temperatura. Febre.
Passou a tarde assim, com uma febre alta, mas não exagerada. A noite, filho entupido de anti-piréticos, foi um carrossel de deita-levanta, tira temperatura aqui, muda fralda acolá, tosse cavernosa e respiração dificultada, a espaços dolorosa. Calhou-me medir-lhe uma febre de quase 40º, já depois das 4 da manhã. Por momentos considerei levá-lo para o hospital, mas decidi-me por um novo supositório e voltar para a cama. Dormir é que já foi pouco e leve, para ambos os pais. Ouvi-lo gemer não ajuda nada à conversa com Morfeu.
Segunda-feira de manhã, eu com receio que fosse o mefistofélico vírus, a minha mulher com a calma de quem tem de aturar um filho doente e um marido nervoso, fomos directos à pediatra do petiz. Esperamos cá fora, numa espécie de sala-de-espera naturalmente arejada e desinfectada a raios ultra-violeta directos do Sol, máscaras penduradas no nariz e orelhas. Éramos os quintos da fila — da exterior, para as crianças cujos sintomas coincidem com os da doença-que-não-se-pode-mencionar. Antes de sermos chamados, chegaram mais três, se bem me lembro.
Feito o exame rápido — pulmões limpos e uma ligeira vermelhidão na garganta —, a médica pede-nos autorização para lhe enfiar uma zaragatoa pelo nariz acima, outra no fundo da língua. Acedemos, mas doeu-nos ter de agarrar no nosso filho, forçando-o àquela tortura que ele, claramente, não queria. Esperneava e eu impedia-o de o fazer, prendendo-o. Senti que o traía. A mãe dava-lhe beijos no cocuruto, com ar consternado. O que tem de ser...
Nesse dia a febre foi sempre no limite mais baixo, o que me deixou mais descansado — agora era a minha mulher a mais nervosa dos dois. Eu previa a melhoria, ela desconfiava (ainda bem que não coincidimos nos momentos pessimistas). Ainda por cima, não tendo a certificação documental de que não era o vírus do Capeta, ela foi forçada a trabalhar em casa. Eu fiquei no meu escritório mais comum (em casa), mas o serviço foi cuidar do petiz.
Na manhã seguinte, papel de resultado negativo na mão, a minha mulher já pôde voltar ao laboratório. Eu... mais dois dias com o filho em casa: a nova política do infantário é que a criança fique em casa por 48 horas depois a última medição de febre. Amanhã, se o rapaz não tiver febre entretanto, volta para os amiguinhos. O que tem de ser...

segunda-feira, 6 de julho de 2020

De regresso

O meu filho foi, finalmente, autorizado a regressar à creche. Regressou há exactamente uma semana e foi um dos primeiros, por decisão da instituição de ensino, a participar do regresso progressivo do "resto das crianças". Estas crianças, as que restavam, eram aquelas cujo regresso não era absolutamente necessário. O infantário nunca fechou a cem por cento, já que algumas das crianças teriam ambos os pais a trabalhar nas actividades essenciais (no caso, por ser um dos infantários dos serviços da universidade, eu diria que médicos, enfermeiros ou investigadores cujo trabalho não parou por estar ligado à clínica da universidade). A primeira fase de regresso, já há cerca de um mês, fez-se para as crianças cujos pais, os dois, não pudessem ser dispensados do trabalho presencial. O meu filho tem uma mãe que apenas abrandou, ligeiramente, o trabalho que desenvolve para bem da ciência, mas um pai que escreve coisas. Não precisa de sair de casa para isso, dizem eles; e têm razão.
De email informativo em email informativo, lá foi a nossa expectativa crescendo, à espera de notícias definitivas acerca do regresso do nosso petiz à socialização com outras crianças. A certeza veio em forma de telefonema — tenho orgulho em dizer que foi todo em alemão, se bem que cheio de "bitte?" e engasganços da minha parte. O meu mais-que-tudo desamparar-me-ia a loja a partir da segunda-feira seguinte.
Mas, como em quase todos os países em desconfinamento, o regresso teria regras. Imaginei o meu filho de chapéu-de-distanciamento-social, supervisionado por meias-caras, sem nariz ou boca, que não lhe permitiriam qualquer contacto humano. Enganei-me. Apoiados num estudo da universidade cá do burgo, os responsáveis do estado de Baden-Württenberg não impuseram nenhuma regra de distanciamento às crianças — apenas aos pais.
A ver: as crianças estão como sempre estiveram, sem regras nenhumas de distanciamento e com educadores desmascarados. Os pais vão pô-las e buscá-las como sempre foram, mas de máscara na fuça e mãos devidamente descascadas de pele morta e perfeitamente estéreis, por vigorosa lavagem das ditas com gel desinfectante disponível atrás da porta de entrada. Já me fizeram entrar pela porta do jardim, onde não há desinfectante, mas não me queixei. As regras são, claramente, para proteger os educadores; foi precisamente uma educadora quem me abriu a porta do jardim e chamou, estava eu a esconder o bigode e a barba na máscara, pronto para entrar pela frente e matar a flora da pele das mãos. Avisei. Confirmou-me que entrasse por ali — não me queixei.