domingo, 31 de maio de 2020

Exemplos, sempre os exemplos

Além dos obrigados — pronunciados biáp ou bigá —, temos tentado guiar mais comportamentos do nosso filho através do exemplo.
Tendo comprado o penico (com aspecto de brinquedo, com um design bonito que o faz parecer uma baleia — a cauda serve de encosto), tenho anunciado ao meu filho todas as minhas idas à retrete, convidando-o a, pelo menos, sentar-se no seu penico ao meu lado. Não sei se terá resultados, se é uma má ideia, se isto faz de mim bom ou mau pai, mas a minha ideia é ele habituar-se ao penico e ao acto de... seja qual for o acto que se efectua sentado numa retrete — ou penico.
Acontece que, por vezes, eu sento-me na cadeira de louça, o assento do filósofo, de telemóvel na mão para passar o tempo com o único jogo que tenho no aparelho. O meu filho, que me ignora quase todos os avisos de que vou à casa-de-banho, quando decide deitar o olho ao pai — quer ver onde estou, não vá precisar do comando pessoal para mudar de canal — e me vê sentado com o telemóvel à frente, corre para o penico, arrasta-o para o meu lado e aponta para o telemóvel com os cinco dedos abertos, como quem pede que lho ponha na mão. Demorei, mas entendi que o exemplo que lhe estava a dar não era "podes fazer as necessidades no penico, em vez da fralda", mas antes "vais ao penico para brincar com o telemóvel"... Resolvi deixar o telemóvel fora da casa-de-banho.
O outro exemplo que temos tentado (porque o petiz tem andado a recusar provar, sequer, a sopa — costumava devorá-la) é o de comer a sopa sem tocar no pãozinho, que é o que ele mais gosta no jantar. "Pão é só depois da sopa", insistimos. "Basta uma colher e damos-te o pão", negociamos. Enquanto isso comemos nós a sopa, entre a birra e a tempestade de lágrimas, cortando-nos o coração às fatias — apesar das caras de ferro. De vez em quando pede a sopa (afastamos o prato mal o festival começa, para não haver acidentes), mete a colher lá dentro e aponta para o pão. Nós insistimos. Ele insiste. Nós continuamos a comer a sopa e ele não come o pão.
Hoje ele insistiu, com a colher na sopa e prometendo, com acenos positivos, à mãe que ia comer a sopa. A minha mulher confiou que, desta vez (já esta semana tinha feito a mesma promessa, comeu o pão, e mandou-nos comer a sopa), ele ia cumprir. Eu, como São Tomé, só vendo. Comeu o seu pão de olho no meu pão (quando gosta da comida é um glutão). Logo de seguida a mãe confrontou-o com a sua promessa. Ele cedeu! Pôs uma colher à boca. Pôs uma segunda e continuou até pedir à mãe que o ajudasse a rapar o prato. Parece que, afinal, gostou.
A ver se amanhã volta à teimosia, se ao gosto pela sopa.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Um degrau para a independência

O meu filho, desde que a sua individualidade se evidenciou, pareceu-me sempre ser bastante independente. Brinca com o pai quando quer, manda o pai dar uma volta para brincar sozinho quando lhe apetece, quer sempre ver se consegue fazer tudo por si e, quando vê que está perto de o conseguir, insiste para que o deixemos experimentar em paz. Hoje, por exemplo, já come a sopa (quando come...!) de prato normal, com colher de adulto, e não quer saber de voltar atrás.
Na semana que passou pusemo-lo a tomar duche, em vez do banho na banheira de bebé. Não toma o duche sozinho, mas bem tenta. Quer segurar a cabeça do duche por si, mas depois tem dificuldade em usá-la. Das vezes em que tomei o duche com ele, bem me apontou o duche à cara, a rir-se à gargalhada com a minha reacção (também sei brincar).
Entretanto, aproveitando a abertura das lojas, a família foi comprar umas coisinhas. Um dos objectos comprados foi um banquinho, que também serve de degrau, em plástico suave e assente em silicone anti-derrapante. Aquilo foi feito para crianças pequenas, como o meu filho ainda é. Este banco foi uma descoberta para o petiz.
Onde eu o pousava na coxa e lhe lavava as mãos e a cara, de repente ele já só quer usar o degrau para se empoleirar, esticar-se todo para abrir torneira e lavar mãos e cara por si. Só não usa a toalha para secar tudo; tem de ser um dos progenitores a fazê-lo. Onde lhe dava a escova de dentes e ele passeava-se com ela a chuchar a pasta de dentes, agora empoleira-se com o banquinho e escova (mais ou menos) os dentes, sem vaguear pela pequena casa-de-banho. Adivinho uma pequena economia em papel higiénico, um dos brinquedos favoritos dele e fonte de ansiedade para quem de nós o acompanha na escovagem das presas. Na hora do duche senta-se no banco enquanto lhe passamos a água pelo pêlo.
Já o apanhei a trazer o banquinho para a sala, pousá-lo junto à porta da varanda, encostada pela mãe que foi lá fora esconder do filho o facto de estar a jogar um joguinho qualquer no tablete, e chegar a mão à tranca da porta. Ia trancar a mãe lá fora. Fui buscar o filho e levei o banco para a casa-de-banho. Um heróico acto que salvou a minha mui apreciada esposa de ficar presa na varanda (espero que ela leia isto).
Um pequeno degrau mim, um grande passo para o meu filho e as suas tropelias.

domingo, 17 de maio de 2020

Duche

Neste apartamento alugado não temos banheira. A casa-de-banho, decorada a azulejos e louças de cor laranja, assim para o pastel (mais um pouco, era castanho), está equipada com simples um duche poliban relativamente espaçoso, mas com um espaço para saída e entrada um bocado estreito. Além da cor pouco aprazível, esta casa-de-banho cria-nos um problema na hora de lavar o miúdo. Até agora temos usado uma banheira própria, que pousamos no chão, entre o poliban e a retrete, e enchemos com a mangueira do duche.
Há já algum tempo que temos discutido a hipótese de lhe dar banho no poliban de canto, mas o pouco espaço de manobra que teríamos foi desencorajando a aventura. Há dois dias atrás a minha mulher teve uma ideia. A ideia, que até já nos tinha surgido noutras ocasiões, de passagem, consistia em colocar-me dentro do poliban com o petiz, para eu ter espaço para lhe dar o banho. Desta vez, a minha adorada esposa, queixando-se do meu viril cheiro a suor (vá-se lá entender!), mandou-me tomar banho. Eu fi-la ver que era praticamente hora de dar banho ao filho, mas isso não a demoveu. De nariz torcido, disse que podíamos tomar banho juntos. Temendo pela saúde do meu casamento, acedi.
Enquanto a minha mulher despia o menino, aqui o rapaz despia-se na casa-de-banho. O meu filho entrou na casa de banho, cheio de boa vontade e desprovido de roupa, e dá de caras com o pai, igualmente desprovido de roupa. Não o traumatizei — antes pelo contrário: corri eu risco de trauma permanente quando o meu filho se desatou a rir.
Meti-me no poliban e liguei a água, chamando-o. Ele interessou-se pelo duche, pôs um pé na base cor-de-laranja, mas acabou por não entrar. A minha mulher encheu a banheira e tomamos banho ao mesmo tempo, o meu filho e eu, mas separados.
Ontem experimentamos a mesma coisa — desta vez o meu cheiro não foi posto em causa, vá. Desta vez o petiz colaborou. Dei-lhe um duche rápido, com alguma resistência à água pela cabeça abaixo. Hoje repetimos a brincadeira.
A princípio parecia que ia ser igual, mas o meu filho resolveu que não queria mesmo que lhe passasse o duche pela cabeça; e só se lembrou disso depois de ter a cabeça ensaboada. Resolvi dar o exemplo, e passei-lhe a cabeça de duche para a mão, ajudei-o a apontá-la à minha cabeça. Mesmo de cócoras fico com a cabeça mais alto que a dele, pelo que o duche estava apontado à minha cara, e não ao cocuruto. Soprei através da água que me escorria pela boca e ele riu-se à gargalhada. Lá tive de aguentar mais umas repetições a brincadeira até conseguir que ele aceitasse tirar o sabão da cabeça... mas deu!
A ver se, durante a próxima semana, conseguimos dar-lhe o banho sem que eu esteja lá dentro com ele. Ele tem de estar à vontade porque, pelo menos no meu caso, não consigo enfiar os dois ombros ao mesmo tempo pela abertura do poliban. É no que dá ter os ombros do Dwayne "The Rock" Johnson. (Ok, exagerei... um bocadinho!)

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Resultados — bons e maus

Eu e a minha mulher temos insistido em agradecer tudo em frente ao nosso filho, e a ele, a ver se ele se habitua pelo exemplo. Resultou, uma vez que há já algum tempo que ele agradece por tudo e mais alguma coisa. Passo-lhe um brinquedo para a mão, bigad. Dou-lhe o copo de água que me pediu, bigad. Tudo nos trinques.
O problema é a evolução degenerativa a que a palavra tem sido submetida. Depois de um curtíssimo período de testes falhados para dizer "o-bri-ga-do", fiquei contente quando ele me disse, lesto, "bigado". Faltava a primeira sílaba, mas as outras três estavam lá, claras e bem pronunciadas. Depois foi-se apagando a última — "bigad" — até chegar a "bigat". Hoje, quando quer despachar a coisa, já só sai "bigá". Sempre é melhor que não agradecer, suponho. Parece que a preguiça madeirense em pronunciar as sílabas todas apegou-se-lhe ao nascer na melhor ilha do mundo...
Entretanto, continuei a agradecer-lhe sempre (confesso que, como madeirense eu próprio, também agradeço com sílabas a menos, se não tomo cuidado), para não se perder um bom hábito. Isso, e responder-lhe com o devido "de nada" de cada vez que ele me agradece. Que eu reparasse, nunca me imitou nesse hábito.
Hoje, durante o ritual de lavagem de dentes antes de ir para a cama (ele chucha a escova, sorve a pasta de dentes, mas raramente escova efectivamente as dentuças de leite), eu pousei a tampa do tubo de pasta de dentes na beira do lavatório. Ele pega nela, observa-a atentamente e depois entrega-ma quando lhe passo a escova carregada para a mão. Eu, obviamente, agradeço pela entrega da tampa. Ele responde-me "nada". Mais de duas horas depois, ainda estou com dificuldade em reter a baba.
É tão fácil satisfazer um pai...!

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Jet, a jacto!

Já não vou contar mais dias. É uma lembrança quase diária de que prescindo. É pressão extra no meu juízo.
Por falar em juízo sob pressão, hoje prestei atenção aos bonecos do meu filho. Pronto... confesso que até costumo prestar atenção, mas hoje pus-lhe os Super Wings a correr na plataforma de streaming para que desembolso uma mensalidade. Ele adora a música do genérico e vai vendo os entretantos enquanto se distrai com outras coisas. Quando está a acabar, levanta-e e prepara-se para dançar como um verdadeiro air-guitarrista e desata a abanar o esqueleto mal ouve os primeiros acordes. A maioria das vezes tento ler, sentado atrás dele, mas não são raras as vezes em que eu me sento ao lado dele a comentar os bonecos com ele; ou para ele, não sei porque não percebo dois terços do que diz o meu filho — ou tenta dizer.
Nestes bonecos em particular o personagem principal é o Jet, um avião/robô que diz ser o pequeno avião mais rápido do mundo. O Jet faz entregas de maravilhas da engenharia — ou magia... — a pedido, sempre para crianças de uma parte do mundo diferente conforme o episódio. A criança descreve lá o que for que deseja, por vezes com pormenores estapafúrdios, e um auto-denominado engenheiro com aspecto de pré-adolescente hiperactivo, que por alguma razão flutua pela sala, carrega nuns botões, sempre da mesma forma e na mesma sequência. Por estas artes mágicas uns braços mecânicos numa sala ali ao lado fabricam, quase como se fizessem parte de uma super-sónica impressora 3D  de todos os materiais existentes se tratasse, seja o que for que pediu a criança do dia. Em segundos. Depois, independentemente da dimensão da encomenda, como por magia, a dita é empacotada numa pequena mala que se acopla aos costados do pequeno avião vermelho. Desconfio que até uma tuneladora de 10 metros (no mínimo!) enfiavam ali dentro. Assim carregado, o Jet aprende uma expressão do país para onde vai e segue viagem — "Jet, a jacto!"
Tenho que dizer que o Jet tem uma visão extraordinária. Ele ainda vai a altitude de cruzeiro, acima das nuvens, e já diz (quase sempre...!) que está ali a casa de fulano. Ele vê a casa-alvo, e reconhece-a (não sei de onde), por entre as nuvens e a roçar o limite superior da atmosfera.
Uma vez chegado à porta em questão, o Jet entrega a encomenda e entra casa a dentro, seguindo o cliente sem pedir licença. Devo confessar que vi, uma vez, o diacho do robô ser convidado a entrar — foi a excepção. Entra e mete o bedelho na encomenda, pergunta para que é, e até se propõe a acompanhar a criança enquanto esta põe a coisa em uso, em vez do progenitor. Não sei quem são estes progenitores, mas eu atirava água salgada ao robô vermelho, que não conheço de lado nenhum, que se propusesse a levar o meu filho por aí.
Depois corre sempre algo mal. Geralmente a culpa é do Jet. É nesta altura que o robô/avião que fez asneira chama a ajuda de outro robô/avião para o ajudar a corrigir o seu disparate. A ajuda chega sempre em minutos (uma vez o problema era uma bola de neve gigante que já rebolava de encontro a uma aldeia — aí a ajuda veio em segundos enquanto o Jet esperava, limitando-se a observar a ameaçadora bola), estejam eles onde estiverem. Pelas partidas do Jet (nessa altura vê-se o globo, como um mapa), desconfio que a base dos Super Wings fica algures no meio do Pacífico, mas os aviões, mais lentos que o Jet (se ele é o mais rápido...), chegam a Itália, por exemplo, nos mesmos minutos em que chegam ao Japão.
Tenho muita coisa a apontar aos Super Wings — a quantidade de leis da física que são flagrantemente quebradas... —, mas ontem vi algo que me incomodou. Os dois aviões/robô que resolveram o problema causado pelo Jet foram recompensados com um convite para almoçar... sushi. Ainda se fosse um bife Kobe... sempre dava para queimar nos jactos.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Dia 53 — Danças com patos

Hoje levei o petiz à recentemente reaberta margem relvada do Neckar, um parque muito usado para passeios, piqueniques e outras tropelias (há uma zona onde se pode jogar à bola à vontade, por exemplo).
Por lá passam patos e gansos aos bandos, e o meu filho adorou um casal de patos que estavam em pleno namoro, com vocalizações mais atraentes para o meu pequeno. Ele perseguiu-os, ralhou-lhes por fugirem, perseguiu-os outra vez. Foi de tal forma que a pata, a certa altura, levantou voo e pousou, com as asas a baterem contra os galhos, numa árvore próxima, lá bem no alto.
Eu persegui o meu filho, tentei convencê-lo a não chatear os bichos, sem sucesso. Ele gostou muito deles. Eles, pareceu-me, não retribuíram o sentimento.
Não os culpo. Já não se pode namorar em paz?!

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Dias 51 e 52 — Apalpar terreno

Ontem fui dar um passeio com o meu filho. Não levantou problemas a calçar-se, a pôr o casaco, ou a pôr um boné. Bem... não foi bem assim: dei-lhe um boné, exigiu o outro. Cedi — queria sair rápido.
Ao primeiro semáforo, numa rua larga com separador central, onde passam os meios de transporte colectivos, levou tempo a fazer a primeira parte da travessia. Ficamos presos, pelo sina vermelho, na placa central. Nada que o preocupasse, muito bem comportado ao meu lado, à espera de sinal para passar. Ao verde, dei-lhe sinal para avançar; deu dois passos, para o meio da estrada, e parou. Na urgência, agarrei nele e atravessei com o petiz no braço, sob o olhar divertido dos transeuntes que já paravam do outro lado.
Pousei-o pouco depois da travessia, já no campus universitário, virado para um passeio onde três ou quatro infantes arbóreos de troncos escanzelados foram enfiados em canteiros rasos e cheiros de gravilha. Ora... gravilha é a nova mania do meu filho. Aquilo aguça-lhe a curiosidade e espicaça-lhe a vontade de experimentar. Demorei uma eternidade a fazer cerca de 30 metros, porque o mexilhão tinha que mexer, agarrar, escoar pelos dedos e tapar pequenos buracos de escoamento com a gravilha.
Ultrapassado o obstáculo da gravilha, fizemos caminho até um dos lagos artificiais daquele campus. Ouviam-se rãs e eu queria ver se mostrava uma ou outra ao meu filho. Todas bem escondidas. Mas vi, julgando-se escondida entre os juncos, o que me pareceu ser uma galinha-d'água. Tentei apontar, mostrá-la ao meu filho, mas ele estava mais interessado no coaxar que numa silhueta escura que mal se mexia na sombra.
Dando a volta ao edifício onde a mãe trabalha, o meu filho começou a abrandar o passo. Sentou-se num muro de canteiro. Mandou-me sentar com uma palmadinha no espaço vazio ao lado dele. Sentei-me. Falei com ele — não esperando resposta inteligível —, contei-lhe que o plano agora era voltar para casa e levantei-me pedindo que me acompanhasse. Ficou sentado. Deu nova palmadinha no cimento de onde me tinha acabado de levantar. Começava a batalha das vontades.
Depois de o convencer a levantar-se e seguir-me (peguei nele e pousei-o dois metros mais à frente...), começou a apalpar o terreno, a ver até onde podia teimar com o pai. Fui andando, sem parar, obrigando-o a seguir-me. Ele seguia-me cada vez mais devagar, apontando para cada folha de relva como se fosse a descoberta do século. Chegou a apontar para rachas no chão, com vocalizações de surpresa, a ver se eu parava. Até que ele parou. E eu parei, e chamei-o.
Por esta altura ele fingia que não me ouvia, que nem me via. Olhava para o vazio, parado, a ver qual seria a minha reacção. Senti-me cada vez mais testado —e frustrado. Resolvi continuar a andar, uma vez que não havia ninguém à volta, nenhum perigo, e ver se o forçava a seguir-me. A certa altura ouvi um "papá!" e voltei-me para trás. Estava no mesmíssimo local, já a uns 50 metros de distância (ok... posso estar a exagerar). Fiz-lhe sinal para que viesse. Arrancou, devagar.
Chegou ao pé de mim com um sorriso atrevido. Eu recomecei a andar, ele ao meu lado, em passinhos pequeninos. A pequeninos começou a adicionar lentinhos.
Com pressa de chegar a casa, uma vez que estávamos a meia-hora da hora do jantar, perdi a paciência e peguei nele ao colo. Pediu-me duas vezes para ir para o chão, duas vezes o recusei. Fiz cerca de um quilómetro com 14 quilos alternando entre um braço e outro.
Cheguei a casa a horas e com dores nas costas. Adormeci com dores entre as omoplatas.
Ainda estou a tentar perceber se me impus, ou fiz exactamente o que ele queria...

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dias 49 e 50 — Porque sim

Há dias o meu filho perguntou-me "poquê?" Na altura respondi-lhe "porque eu quero"; referia-me a mudar a fralda. Senti-me um pouco culpado, mas era o que era preciso naquela situação, já ao fim de uma negociação aturada. Não estava a conseguir convencer o adorável malandro a ceder, até porque, nas palavras dele, "cocó na tem!" E não tinha — mas estava a abarrotar de xixi.
O meu petiz tem demasiada estima por tabletes e/ou telemóveis espertos. Digamos que essa estima exacerbada é, de momento, a maior fonte de birras. O ecrã de televisão também lhe testa a concentração. São raras as vezes em que lhe quebro a concentração nos bonecos à primeira. Regra geral, só pondo-me entre ele e o ecrã é que consigo quebrar o feitiço, e mesmo assim há sempre um atraso na resposta — demora a desligar...
Ontem ele viu o meu telemóvel e decidiu que queria fazer uso do aparelho. Eu neguei, dentro daquele meu esforço para o separar da mania, mas ele insistia, a fugir para a birra. Disse-lhe logo que com birra não tinha nada de certeza. Desta vez resultou — não escalou mais. Mas continuava a estender a mão na direcção do malfadado objecto, com insistentes "mein" pelo meio. Fui ignorando, até que lhe deitei um olhar inquisitivo. Foi aí que me pareceu ouvir um claro "eu qué". Resolvi responder com uma pergunta: "porquê?"
"Poque sim". Foi o que me pareceu que ele respondeu, apanhando-me de surpresa. Fiquei calado um bocado, sem saber se desatava a rir, se o abraçava, mas não cedi. Há que manter a decisão de não lhe dar o aparelho para a mão só porque sim.
O karma tem esta mania estúpida de nos morder o assento...

domingo, 3 de maio de 2020

Dias 47 e 48 — A torre

Fui dar um passeio com o meu filho à Montanha dos Santos (Heiligenberg), como já fiz várias vezes.
Perto do topo, e até ao topo, existem vários pontos de interesse histórico de cariz arquitectónico. Há por ali vestígios de uma fortificação celta, uma dupla muralha, em volta do topo (desconfio de onde estão as paredes, feitas socalcos, mas nunca confirmei). Há um poço que ninguém sabe bem quem lá deixou nem para que serviu — a teoria mais forte, no momento, é de que seria uma cisterna deixada pelos romanos — e que é mesmo um buraco no chão rodeado de informações turísticas, em alemão. Do pouco que percebi, tiraram de lá alguns artefactos, incluindo uma seax viking.
Também lá há, perdido entre as árvores mas enorme, um dramático anfiteatro ao ar livre construído pelos Nazis antes da guerra; Thingstãtte.
Depois há os dois mosteiros, ambos em ruínas. O maior, de São Miguel, o Arcanjo, aparentemente acompanhado de uns vestígios de um templo romano dedicado a Mercúrio (nunca vi estes vestígios — tenho de procurar melhor), construído no pico do Miguel, ou Michaelsberg. O outro mosteiro, mais pequeno e de paredes ainda mais rasas, o de São Estêvão, viu algumas das suas pedras serem usadas, nos finais do século XIX, para construir uma torre de observação. É uma torre estreita, mas alta.
Em passeios anteriores tenho preferido sempre levar os meu filho ao mosteiro mais pequeno, onde há bancos de jardim que dão para uma abertura da cobertura arbórea, mostrando o castelo de Heidelberg lá em baixo, na outra margem do Neckar, como quem sobe para a outra cadeia de elevações geográficas não superiores a 600 metros (440 e 568) de Heidelberg. Ele gosta de se sentar naqueles bancos, regra geral com a promessa de um sumo e duas ou três bolachas. Eu gosto da paisagem e há para lá uma rapina de grande porte que ainda não consegui identificar. Das vezes que lá andei com o meu filho, ele todo satisfeito a correr, a passar pela única porta de pé do mosteiro e a experimentar folhas mortas, pedras e paus variados, eu a correr atrás dele, nunca me passou pela cabeça subir à torre. Há uma primeira vez para tudo.
Depois de lhe dar o sumo, desta vez sem bolacha (o almoço estava próximo), pensei em mostrar-lhe uma vista ligeiramente mais desimpedida, da plataforma mais baixa da torre — um primeiro andar relativamente baixo e com escadas de acesso normais. Ele subiu comigo, pelo seu pé, e nem olhou para as vistas; meteu logo o nariz no pequeno pórtico escuro que dá para a estreita escada em caracol que leva ao topo. Não o parei.
Subiu todos os degraus sozinho, agarrado à minha mão, ele divertido e eu preocupado. Parou umas duas vezes, para espreitar pelas pequenas janelas — ao estilo de seteiras, mas não exactamente —, a ver o que havia lá fora, mas foi sempre por ali acima, lesto e voluntarioso.
Chegados ao topo, descobrimos que as amuradas são altas demais para o rapaz ver seja o que for, mas ele não se importou: tinha um círculo à volta do fosso das escadas para correr e o pai só lhe tapava o acesso às escadas propriamente ditas. Ainda por cima tinha chovido. Havia poças de água e vontade de experimentar...
Estava o meu filho a molhar as calças com os seus saltos para água, a pés juntos, quando eu vi, no canto do olho, alguma coisa grande a passar ali perto. Era a águia. Tive uns três segundos para a ver em condições antes de se meter entre as copas das árvores. Não deu para ver muito.
Em contrapartida, o meu filho estava todo molhado do meio das coxas para baixo, sorridente e cheio de energia. Desceu pelo próprio pé, novamente, o que me obrigou a descer de costas, para estar no caminho caso ele caísse, e ao mesmo tempo para lhe dar a segurança da minha mão. Ele divertiu-se. Eu ganhei uma úlcera.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Dias 45 e 46 — Sai mesmo aos seus...

Eu tenho uma compulsão que combato. Eu não posso ver uma moldura ligeiramente desviada. Sinto uma compulsão para corrigir a sua posição relativa às arestas da parede de que se suspende. Muitas vezes dou por mim a proibir-me de o fazer, por não ser a minha moldura nem a minha casa. Hoje resisto melhor, mas ainda exige alguma força de vontade.
A minha mulher sofre de uma condição social a que vulgarmente se chama de vergonha alheia. Não sei se há alguma designação técnica, mas penso não ser necessário investigar. A verdade é que, de cada vez que, por exemplo, me dá para animar uma pista de dança com passos tirados do início dos anos 90 do século passado, a minha mulher ruboriza-se um pouco (eufemismo para muito) e fica com um sorriso em que os dentes se colam numa aparente dentada, enquanto os revela em toda a sua alvura. Também me quer parecer que fica com os olhos ligeiramente mais humedecidos que o normal. Eventualmente vira-se, em vez de apreciar a destreza e sensualidade com que penso mover-me (pelos vistos, erradamente), apesar de já não ser um adolescente há cerca de 25 anos.

No outro dia, ao correr para ver a mãe pela janela da cozinha, o meu filho deparou-se com o escadote de dois degraus, aquele que normalmente usa para se empoleirar à janela, desviado do centro da parede por meio decímetro. Já com o pé no primeiro degrau, detém-se, desconfiado, e observa os dois lados do escadote, medindo tudo. Desmonta a estrutura e arrasta-a o tal meio decímetro de volta ao seu lugar. Só depois trepou e se colou ao vidro, mandando beijos à mãe lá em baixo.

Hoje, estava a mãe a mudar a fralda ao filho, ele relaxado e a mãe contente por ele não estar a reclamar, de tal forma que resolveu cantar-lhe. Como comentário à capacidade instrumental da voz da minha esposa, é óbvio que só posso dizer que é como ouvir mel entrar-me pelos ouvidos dentro. A minha reacção é sempre ficar embevecido a ouvi-la, juro. A reacção do nosso filho foi... mandar calar a mãe e tapar a cara. Diz a minha mulher, o rouxinol, que parecia estar com vergonha. Era a tal vergonha alheia, assegurou-me.

Sai aos seus...! É o que se diz, não é?