quinta-feira, 7 de maio de 2020

Dias 51 e 52 — Apalpar terreno

Ontem fui dar um passeio com o meu filho. Não levantou problemas a calçar-se, a pôr o casaco, ou a pôr um boné. Bem... não foi bem assim: dei-lhe um boné, exigiu o outro. Cedi — queria sair rápido.
Ao primeiro semáforo, numa rua larga com separador central, onde passam os meios de transporte colectivos, levou tempo a fazer a primeira parte da travessia. Ficamos presos, pelo sina vermelho, na placa central. Nada que o preocupasse, muito bem comportado ao meu lado, à espera de sinal para passar. Ao verde, dei-lhe sinal para avançar; deu dois passos, para o meio da estrada, e parou. Na urgência, agarrei nele e atravessei com o petiz no braço, sob o olhar divertido dos transeuntes que já paravam do outro lado.
Pousei-o pouco depois da travessia, já no campus universitário, virado para um passeio onde três ou quatro infantes arbóreos de troncos escanzelados foram enfiados em canteiros rasos e cheiros de gravilha. Ora... gravilha é a nova mania do meu filho. Aquilo aguça-lhe a curiosidade e espicaça-lhe a vontade de experimentar. Demorei uma eternidade a fazer cerca de 30 metros, porque o mexilhão tinha que mexer, agarrar, escoar pelos dedos e tapar pequenos buracos de escoamento com a gravilha.
Ultrapassado o obstáculo da gravilha, fizemos caminho até um dos lagos artificiais daquele campus. Ouviam-se rãs e eu queria ver se mostrava uma ou outra ao meu filho. Todas bem escondidas. Mas vi, julgando-se escondida entre os juncos, o que me pareceu ser uma galinha-d'água. Tentei apontar, mostrá-la ao meu filho, mas ele estava mais interessado no coaxar que numa silhueta escura que mal se mexia na sombra.
Dando a volta ao edifício onde a mãe trabalha, o meu filho começou a abrandar o passo. Sentou-se num muro de canteiro. Mandou-me sentar com uma palmadinha no espaço vazio ao lado dele. Sentei-me. Falei com ele — não esperando resposta inteligível —, contei-lhe que o plano agora era voltar para casa e levantei-me pedindo que me acompanhasse. Ficou sentado. Deu nova palmadinha no cimento de onde me tinha acabado de levantar. Começava a batalha das vontades.
Depois de o convencer a levantar-se e seguir-me (peguei nele e pousei-o dois metros mais à frente...), começou a apalpar o terreno, a ver até onde podia teimar com o pai. Fui andando, sem parar, obrigando-o a seguir-me. Ele seguia-me cada vez mais devagar, apontando para cada folha de relva como se fosse a descoberta do século. Chegou a apontar para rachas no chão, com vocalizações de surpresa, a ver se eu parava. Até que ele parou. E eu parei, e chamei-o.
Por esta altura ele fingia que não me ouvia, que nem me via. Olhava para o vazio, parado, a ver qual seria a minha reacção. Senti-me cada vez mais testado —e frustrado. Resolvi continuar a andar, uma vez que não havia ninguém à volta, nenhum perigo, e ver se o forçava a seguir-me. A certa altura ouvi um "papá!" e voltei-me para trás. Estava no mesmíssimo local, já a uns 50 metros de distância (ok... posso estar a exagerar). Fiz-lhe sinal para que viesse. Arrancou, devagar.
Chegou ao pé de mim com um sorriso atrevido. Eu recomecei a andar, ele ao meu lado, em passinhos pequeninos. A pequeninos começou a adicionar lentinhos.
Com pressa de chegar a casa, uma vez que estávamos a meia-hora da hora do jantar, perdi a paciência e peguei nele ao colo. Pediu-me duas vezes para ir para o chão, duas vezes o recusei. Fiz cerca de um quilómetro com 14 quilos alternando entre um braço e outro.
Cheguei a casa a horas e com dores nas costas. Adormeci com dores entre as omoplatas.
Ainda estou a tentar perceber se me impus, ou fiz exactamente o que ele queria...

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