domingo, 31 de maio de 2020

Exemplos, sempre os exemplos

Além dos obrigados — pronunciados biáp ou bigá —, temos tentado guiar mais comportamentos do nosso filho através do exemplo.
Tendo comprado o penico (com aspecto de brinquedo, com um design bonito que o faz parecer uma baleia — a cauda serve de encosto), tenho anunciado ao meu filho todas as minhas idas à retrete, convidando-o a, pelo menos, sentar-se no seu penico ao meu lado. Não sei se terá resultados, se é uma má ideia, se isto faz de mim bom ou mau pai, mas a minha ideia é ele habituar-se ao penico e ao acto de... seja qual for o acto que se efectua sentado numa retrete — ou penico.
Acontece que, por vezes, eu sento-me na cadeira de louça, o assento do filósofo, de telemóvel na mão para passar o tempo com o único jogo que tenho no aparelho. O meu filho, que me ignora quase todos os avisos de que vou à casa-de-banho, quando decide deitar o olho ao pai — quer ver onde estou, não vá precisar do comando pessoal para mudar de canal — e me vê sentado com o telemóvel à frente, corre para o penico, arrasta-o para o meu lado e aponta para o telemóvel com os cinco dedos abertos, como quem pede que lho ponha na mão. Demorei, mas entendi que o exemplo que lhe estava a dar não era "podes fazer as necessidades no penico, em vez da fralda", mas antes "vais ao penico para brincar com o telemóvel"... Resolvi deixar o telemóvel fora da casa-de-banho.
O outro exemplo que temos tentado (porque o petiz tem andado a recusar provar, sequer, a sopa — costumava devorá-la) é o de comer a sopa sem tocar no pãozinho, que é o que ele mais gosta no jantar. "Pão é só depois da sopa", insistimos. "Basta uma colher e damos-te o pão", negociamos. Enquanto isso comemos nós a sopa, entre a birra e a tempestade de lágrimas, cortando-nos o coração às fatias — apesar das caras de ferro. De vez em quando pede a sopa (afastamos o prato mal o festival começa, para não haver acidentes), mete a colher lá dentro e aponta para o pão. Nós insistimos. Ele insiste. Nós continuamos a comer a sopa e ele não come o pão.
Hoje ele insistiu, com a colher na sopa e prometendo, com acenos positivos, à mãe que ia comer a sopa. A minha mulher confiou que, desta vez (já esta semana tinha feito a mesma promessa, comeu o pão, e mandou-nos comer a sopa), ele ia cumprir. Eu, como São Tomé, só vendo. Comeu o seu pão de olho no meu pão (quando gosta da comida é um glutão). Logo de seguida a mãe confrontou-o com a sua promessa. Ele cedeu! Pôs uma colher à boca. Pôs uma segunda e continuou até pedir à mãe que o ajudasse a rapar o prato. Parece que, afinal, gostou.
A ver se amanhã volta à teimosia, se ao gosto pela sopa.

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