sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Oportunidades educativas

Fui buscar o meu filho ao infantário, como faço todos os dias. Pronto. Não bem como faço todos os dias, porque costumo fazê-lo a pé, mas desta vez levei o carro (está muito calor e o carro tem ar condicionado — estava a pensar no conforto do petiz!). Mas dizia que o fui buscar ao infantário.

Ao chegar à porta da "escola-kita", como diz o miúdo, a educadora avisa-me que ele não vem já, que tem que arrumar a sala dos brinquedos. Assenti e esperei. Esperei mais uns minutos e depois continuei a esperar. Comecei a ficar preocupado, já que só tenho meia-hora de estacionamento gratuito. Mas esperei até ele acabar, que aqui não se brinca com a disciplina. Tinham desarrumado tudo, pelos vistos, ele e os dois amigalhaços.

Quando me apareceu, estava imundo. Até me ri: cara suja de terra, t-shirt já não estava lá muito branca e os calções amarelos imundos. Deve ter-se divertido. "Porreiro", pensei, contente por ele se divertir. "Porreiro", pensei, mais lúgubre, ao pensar na lavagem que aí vinha.

A meio caminho para o carro, ele viu uma mãe a correr atrás do seu fujão. "Estão a jogar à apanhada", expliquei-lhe quando me perguntou. Tive que continuar a explicar que é um jogo em que alguém corre atrás de outro, ou outros. Dei o exemplo de que podia desatar a correr e ele tinha de me apanhar. A conversa entrou na discussão de que ele é muito rápido, por isso me apanhava logo. Eu disse que podia ser, se eu não corresse, porque eu sou mais rápido. Ele insistiu, eu cansei-me de ter o pirralho a dizer-me que era muito mais rápido do que eu. Corri os últimos 10 metros até o carro. Como é óbvio, ficou longe de me apanhar. Ele tem pernas de 4 anos...

Ora... como o meu filho continuava a acreditar que era mais rápido que o mundo inteiro — identifica-se com uma chita, por exemplo — chegou ao lado do carro e começou a chorar. Que era mais rápido, mas eu não podia era correr. Pois... ele identifica-se como mais rápido que eu, e eu tenho que suportar essa sua identificação. Nada de novo. Não cedi. "Não podes dizer que és mais rápido se fores o único que pode correr. Isso é batota."

Ajudei-o a sentar-se na cadeira, ainda chorava baba e ranho (literalmente), e desandei dali para fora. Saí mesmo antes de passar a meia-hora gratuita, já o meu velocíssimo filho desistira de chorar. Viu o urso do Jardim Zoológico pelo caminho e ficou contente.


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Monstros

Hoje acordei com o meu filho a entrar-me pelo quarto a dentro, subir à cama e enroscar-se a mim. Estiquei o braço para ver as horas e, estando a apenas cinco minutos da hora de acordar, deixei-o estar.

Mal toca o despertador, a minha mulher, depois da troca de mimos com os seus dois rapazes, foi tomar banho. Sugeri ao meu petiz que nos levantássemos, mas ele respondeu-me com uma pergunta sussurrada, ainda de chucha na boca: "os monstus tem med' d'Papá?". Não entendi à primeira, mas ele continuou a sussurrar a mesma pergunta. Resolvi, ainda sonolento e sem pensar, responder que sim, apertando-lhe o abraço. Ele perguntou de novo, a confirmar.

Entretanto já tinha tido tempo de pensar. Não quis manter a ideia de monstros na cabeça dele: "Teriam, se existissem monstros. O Papá protege-te sempre." Menti.

Há tantos monstros por aí... mas nenhum debaixo da cama dele.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A lata!...

Eu e a minha mulher temos andado preocupados, e ensonados, com a mania do nosso rapaz em mudar de cama a meio da noite, ocupando a nossa e os nossos sonos de beleza. Depois do texto anterior, há dois dias, eu tive a ideia de preparar o sofá-cama que está no quarto do petiz para que, mal ele chegasse à nossa cama, nós nos mudássemos para aquela, no quarto dele. A ideia seria que ele visse que mudar de cama, para dormir com os pais, não serviria de nada. A minha mulher concordou, e assim fizemos.

Logo naquela noite, por volta das 5 da manhã, lá veio ele para cima de mim. Estremunhado, foi preciso a Mãe recordar-me do plano. Lá cambaleei, atrás da minha mulher, até a cama feita ao lado da do meu filho. Ele ficou na nossa cama, sozinho. Cerca de 15 minutos depois, muito assertivo, o nosso filho entra pelo seu quarto a dentro, tenta enfiar-se debaixo das suas cobertas, e levanta a voz de comando: "é meu q'arto!" O malandro expulsava-nos do seu quarto. Eu obedeci, passando pela cama dele para o assistir na difícil manobra de se cobrir.

Pelos vistos, o meu filho é como "O Leão da Estrela". O que é meu, é nosso, o que é dele, é... dele. Que lata...!

(Esta noite, a segunda da experiência e depois de reclamar por ter uma segunda cama feita no seu quarto — tentou desfazê-la —, ficou na sua cama até nos chamar, eram já 7 e um quarto da manhã. Vitória!... para já.)

terça-feira, 19 de outubro de 2021

A cama dos pais é melhor que a minha

Nos últimos meses o meu petiz não falha uma noite (vá; é capaz de ter falhado uma) a saltar, a meio da noite, para a cama dos pais. Como se isso não bastasse, o anjinho raramente fica quieto na cama para além das seis da matina. Portanto, acorda-nos quando chega à cama e acorda-nos (ao pontapé...), uma segunda vez, cedo demais. E isto é o mínimo. Já tentei levá-lo de volta para a sua cama mal chega — estridente escândalo. Já tentei levá-lo de volta depois de o ouvir ressonar — escândalo estridente. E volta para a cama dos pais, muitas vezes antes mesmo de eu lá chegar, tal é a pressa. A meio da noite, estremunhado, a paciência para insistir é escassa.

Andamos, os progenitores, cansados por falta de sono completo. Julguei que, mais de três anos depois do nascimento, os dias de zombie-de-sono fossem passado distante. O positivo é o carinho extra que ele nos dedica quando chega à cama.

Há pouco mais de duas semanas passei um fim-de-semana fora. Cheguei no Domingo, já ele estava na cama, mas ainda na dele. A meio da noite, para não variar, veio para a cama dos pais, onde ele não esperava encontrar o Pai. Adivinhando o caminho no escuro, chocou contra a minha coxa. "Pai?..." perguntou ao atirar-se para cima da cama, constituída pelo meu tronco. Apalpou-me a barba, para ter certeza, e logo me agarrou no pescoço; "Pai!". "Sim, é o Pai." Dessa vez senti a visita pela positiva; sou um coração-mole.

Outro problema acessório é o acordar agitado dele, ainda por cima quase sempre em antecipação ao dos pais. Pontapeia muito, testando a paciência dos pais, e a resistência à dor do Pai — por azar (espero eu!), acerta-me dois terços dos pontapés nas minhas partes baixas...

Tenho-o questionado pela razão de não querer acordar na sua cama. Enrosca-se todo, bem consolado, na sua cama, ao deitar. Adormece, regra geral, rápido e bem, sem queixas do leito. No entanto, responde-me sempre que não gosta da sua cama.

Hoje foi a vez da Mãe lhe perguntar porque raio — sem o "raio" — não fica ele na sua cama. Repetiu que não gosta da cama. "Porquê?", perguntou-lhe a Mãe. "Mui'a pequena", disse ele. Olha o gasguito... Tem uma cama maior que muitas crianças da idade dele, supostamente para o aconchegar até aos seis anos, e diz que é pequena. Não é pequena para adormecer, todo consolado.

De qualquer das formas, não pode acontecer. Não me parece ser saudável nem para o desenvolvimento dele, nem para a saúde dos pais — de certeza absoluta. Mas não posso trancar-lhe a porta do quarto, nem tenho vontade de acordar a vizinhança com a birra que ele faz se o devolvo à cama. Não; amarrá-lo à cama também não é opção.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Sem fralda, o mundo é uma aventura!

O desfralde do meu petiz vai, para já, de vento em popa. Começou devagar, com acidentes a rodos, mas à segunda semana a frequência das desventuras baixou consideravelmente. De trazer, do infantário, mais de uma saco de roupa molhada por dia, já é raro trazer qualquer saco.

Na noite passada, por exemplo, mais um salto na direcção certa: acordou a berrar pelo pai para que o ajudasse na ida ao penico (ao pico, diz ele). Uma senhora micção, diga-se, feita com ele a adormecer a meio. Mas fê-la, e a fralda (ainda a usa durante a noite, claro) estava seca. Sofreu o meu sono, mas ganhou o meu orgulho de pai. (Isto de ter orgulho na micção alheia é coisa de paternidade...)

Já confio nele. Se me diz que não precisa de ir, não insisto (muito). E hoje provou-me que estou certo em confiar. Depois de começar a semana com umas manchinhas avermelhadas, sempre sem febre, que me fizeram ficar com ele em casa durante dois dias, foi para o infantário a meio da semana. Acordou, hoje, após apenas um dia na escolinha, com um olho inchado. Conjuntivite. Forçou-me a uma manhã multilingue: em alemão arranhado (muito) para avisar que não ia, de novo, para o infantário, e em inglês a tentar que a pediatra o visse. Fui encaminhado para outra pediatra, pronto, que me viu o filho só mesmo para justificar a receita do creme antibiótico.

Antes do passeio (esta outra pediatra é a 5 minutos a pé daqui de casa), pedi-lhe que fosse ao penico. Acedeu e foi produtivo. Esperamos, entre passeios e brincadeiras, quase 50 minutos pelo atendimento, apesar de hora marcada. Prometi-lhe que, se se portasse bem, íamos comer batata frita (um grande sacrifício para mim — quem me conhece sabe-o bem). Portou-se bem e levou-me de volta a casa pela mão, para ir buscar a chave do automóvel e fazer a visita ao restaurante rápido em questão. Lá fomos; mas esqueci-me de sugerir nova ida ao penico ao rapaz.

Sentamo-nos, bem alapados, na mesa da esplanada, com o tabuleiro carregado com as batatas fritas (dose para ele — pequena —, dose para mim — menos pequena), os medalhões de frango do meu filho, o meu modesto hambúrguer e as nossas bebidas (sumo de laranja para ele, refrigerante para mim). Ainda lhe disponha as batatas à frente do nariz, e o rapaz dispara "tenh' chichi". Senti-me culpado e aterrado ao mesmo tempo. Que fazer? Que fazer, com a comida toda à nossa frente, num estabelecimento de restauração em que uma mesa vazia de comensais corre sérios riscos de ser limpa de imediato, mesmo com a comida intocada. Comecei a tentar guardar a comida na embalagem do menu de criança, enquanto dizia ao meu filho que íamos comer para casa, depois dele fazer chichi. Mal se apercebeu que ia ficar sem as pa'tas prites, disse, com a autoridade que o alemão lhe dá, "warte!" (espera!). Agarrou-se às batatas com a mão direita, à virilha com a mão esquerda. Deixei, a ver se se aguentava.

Comi o meu hambúrguer, depeniquei as minhas batatas (todas — para evitar o desperdício), bebi metade do meu refrigerante, enquanto o meu filho comia a sua dose de batatas toda, a mão esquerda sempre na virilha. Acabada a dose, permitiu-me que guardasse o frango e o sumo, para o levar à casa-de-banho.

Aguentou-se aquele tempo todo. Nem uma gota fora de sítio. Fiquei impressionado.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Abriu-se a Caixa da Lambeca

O meu filho não come chocolate. Já provou, não gostou (se bem que, uma vez, comeu metade daqueles ovos surpresa sem reclamar muito...), e hoje diz mesmo que não gosta, pontuando a afirmação com um "blhé!". Em relação aos gelados, a mesma coisa; "blhé!". Pelo menos até este verão.

Fomos de férias para a minha terra, onde também ele nasceu, a minha Ilha da Madeira. Fizemos um intervalo de Madeira num salto em família à bela Ilha do Porto Santo, ali mesmo ao lado. Lá há um negócio familiar de gelados de máquina, famoso e favorito entre quase (esquisitos há-os em todo o lado) todos os que provam o produto que vendem. Regionalismo para gelados em geral, lambeca é o que hoje todos chamam àquele gelado em específico, e que o senhor que gere o negócio adoptou como nome para o produto (Lambecas); a lambeca do Porto Santo é hoje um ex-libris daquela ilha, quer se queira, quer não.

Tanto eu como a minha mulher, cujas papilas gustativas já foram fisgadas pela lambeca, não dispensamos a lambeca diária quando estamos no Porto Santo. O nosso filho... "blhé!" Acontece que, pela persuasão da Mãe, o meu petiz deu uma pequena lambidela, com uma tímida ponta da língua, numa lambeca. As pupilas dilataram-se-lhe de imediato, e a língua foi mais intrépida numa segunda lambidela. Abriu-se a caixa. Criamos um monstro.

Enquanto estivemos no Porto Santo, depois de cada almoço, a primeira palavra do meu filho era "lambeca!" (muitas vezes antes sequer de começar a almoçar, para ser honesto...). E lá íamos os três — que sacrifício!... — ao centro da Vila Baleira comer uma lambeca. Nas primeiras vezes ainda pedíamos só duas, para o Pai e para a Mãe (é assim que nos trata), deixando-o comer das nossas. Cedo me apercebi que não era boa ideia: sentado entre os pais, ele engolia uma colherada da lambeca da Mãe e virava-se de imediato para a do Pai, cujo pulso estava bem preso no seu punho fechado (eu tinha de me dobrar todo para comer alguma da minha lambeca, ou lutar com ele para me libertar — escolhi a primeira hipótese). Não largava. Depois ficava-me com o cone de bolacha quase todo... (a Mãe pedia no copinho; sem bolacha). Pai sofre!

Aprendemos rapidamente. Três lambecas (duas de copo) e um cone extra, a ver se ele não devorava o meu. Dava-nos mais tempo para comer mais das nossas, mas não as comíamos todas. Não dava. O punho dele não me soltava o braço e a Mãe estava de serviço com dois copos de gelado; e ele comia dos dois.

Agora já gosta de gelado. Erro dos pais... ponto para o filho. (Mas não come gelado de chocolate!)

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Dores de crescimento

Há pesadelos recorrentes nesta coisa de cuidar de uma criança pequena. Vemos aquela amostra de gente, pequena e de aspecto frágil, ainda por cima ainda com dificuldade em modelar as suas reacções, e todos os perigos do mundo nos parecem conspirar, de repente e em simultâneo, para que lhe fazer mal. E tanto Pai como Mãe só querem defendê-lo. No nosso caso (não quero ser vilipendiado por generalizar), o Pai — presente! — já começou a relaxar, a lembrar-se da sua meninice, da quantidade de cicatrizes que esta lhe distribuiu pelo corpo e do gozo que sente quando olha para elas; mesmo que nem se lembre da origem da maioria.

Aprendi a andar num apartamento. Aí, durante cerca de 3 anos, lembro-me de começar um pequeno incêndio, de soltar o casal de hamsteres pelo apartamento (várias vezes) e, por causa de um apetite súbito por escalada, ter causado a queda de uma pesada estante de parede inteira sobre mim, a minha irmã caçula e uma vizinha que de vez em quando ia lá brincar. Ninguém se magoou, mas a tendência para a tropelia era evidente. Depois, um ano antes de entrar para a escola primária, mudei-me para a "casa da avó", que era uma fazenda cheia de cães — e outros animais —, árvores a rodos e muitas silvas. Ainda por cima tinha companheiros de brincadeira da mesma idade. Poder-se-á imaginar a sucessão diária de bolas de algodão embebidas em álcool, de tintura de iodo, ou puxões de orelhas.

A Mãe, parece-me (pelo que me vai dizendo — e vejo), foi mais bem-comportada, segundo a própria.
O nosso filho, até agora, tem uma colecção ainda baixa de acidentes que deixam mazelas, o que me faz pensar que é uma criança pouco activa (apesar das evidências em contrário), e à Mãe de que está a fazer um óptimo trabalho como protectora. Perspectivas.

No outro dia, mal me abriu a porta da sala, a educadora do meu filho avisou-me logo que ele tinha tido um encontro pouco simpático com o chão e estava um pouco combalido. Esbardalhou-se, portanto, a brincar com miúdos mais velhos (podem ter até 6 anos). Apareceu-me à frente, pesaroso, com dois pensos enormes nos joelhos, a andar sem os dobrar. Apeteceu-me rir. Também tinha um arranhão na bochecha e o cotovelo bastante esfolado. Nada que exigisse uma ida ao hospital. Por sorte, naquele dia ele foi para a escola no carrinho — tinha cadeira de rodas, por assim dizer, para o caminho de volta a casa.

Quando a Mãe chegou a casa avisei-a logo, antes que o visse, do que tinha acontecido. Apressou-se sala a dentro e, ao vê-lo prostrado no sofá com um penso-rápido enorme em cada joelho, foi visível o esforço para não chorar. Eu? Eu estava divertido com a situação (sim, eu sei que sou má pessoa). À hora do banho tive de lho dar com esponja, já que tinha medo de perder os milagrosos pensos.

No dia seguinte, um dos pensos já pendia. Deu para ver que a ferida que tapava era quase nada; o cotovelo estava em muito pior estado... e sem penso. Sugeri tirar o penso antes de ir para a escola: drama pesado. À noite o penso já tinha caído — confirmei a minha suspeita de que o hediondo ferimento dispensaria tanto pontos como o penso. O esparadrapo auto-colante do outro lado saiu no banho, revelando ferimento de igual gravidade.

Tenho um dramático em casa — para competir comigo.