quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Sem fralda, o mundo é uma aventura!

O desfralde do meu petiz vai, para já, de vento em popa. Começou devagar, com acidentes a rodos, mas à segunda semana a frequência das desventuras baixou consideravelmente. De trazer, do infantário, mais de uma saco de roupa molhada por dia, já é raro trazer qualquer saco.

Na noite passada, por exemplo, mais um salto na direcção certa: acordou a berrar pelo pai para que o ajudasse na ida ao penico (ao pico, diz ele). Uma senhora micção, diga-se, feita com ele a adormecer a meio. Mas fê-la, e a fralda (ainda a usa durante a noite, claro) estava seca. Sofreu o meu sono, mas ganhou o meu orgulho de pai. (Isto de ter orgulho na micção alheia é coisa de paternidade...)

Já confio nele. Se me diz que não precisa de ir, não insisto (muito). E hoje provou-me que estou certo em confiar. Depois de começar a semana com umas manchinhas avermelhadas, sempre sem febre, que me fizeram ficar com ele em casa durante dois dias, foi para o infantário a meio da semana. Acordou, hoje, após apenas um dia na escolinha, com um olho inchado. Conjuntivite. Forçou-me a uma manhã multilingue: em alemão arranhado (muito) para avisar que não ia, de novo, para o infantário, e em inglês a tentar que a pediatra o visse. Fui encaminhado para outra pediatra, pronto, que me viu o filho só mesmo para justificar a receita do creme antibiótico.

Antes do passeio (esta outra pediatra é a 5 minutos a pé daqui de casa), pedi-lhe que fosse ao penico. Acedeu e foi produtivo. Esperamos, entre passeios e brincadeiras, quase 50 minutos pelo atendimento, apesar de hora marcada. Prometi-lhe que, se se portasse bem, íamos comer batata frita (um grande sacrifício para mim — quem me conhece sabe-o bem). Portou-se bem e levou-me de volta a casa pela mão, para ir buscar a chave do automóvel e fazer a visita ao restaurante rápido em questão. Lá fomos; mas esqueci-me de sugerir nova ida ao penico ao rapaz.

Sentamo-nos, bem alapados, na mesa da esplanada, com o tabuleiro carregado com as batatas fritas (dose para ele — pequena —, dose para mim — menos pequena), os medalhões de frango do meu filho, o meu modesto hambúrguer e as nossas bebidas (sumo de laranja para ele, refrigerante para mim). Ainda lhe disponha as batatas à frente do nariz, e o rapaz dispara "tenh' chichi". Senti-me culpado e aterrado ao mesmo tempo. Que fazer? Que fazer, com a comida toda à nossa frente, num estabelecimento de restauração em que uma mesa vazia de comensais corre sérios riscos de ser limpa de imediato, mesmo com a comida intocada. Comecei a tentar guardar a comida na embalagem do menu de criança, enquanto dizia ao meu filho que íamos comer para casa, depois dele fazer chichi. Mal se apercebeu que ia ficar sem as pa'tas prites, disse, com a autoridade que o alemão lhe dá, "warte!" (espera!). Agarrou-se às batatas com a mão direita, à virilha com a mão esquerda. Deixei, a ver se se aguentava.

Comi o meu hambúrguer, depeniquei as minhas batatas (todas — para evitar o desperdício), bebi metade do meu refrigerante, enquanto o meu filho comia a sua dose de batatas toda, a mão esquerda sempre na virilha. Acabada a dose, permitiu-me que guardasse o frango e o sumo, para o levar à casa-de-banho.

Aguentou-se aquele tempo todo. Nem uma gota fora de sítio. Fiquei impressionado.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Abriu-se a Caixa da Lambeca

O meu filho não come chocolate. Já provou, não gostou (se bem que, uma vez, comeu metade daqueles ovos surpresa sem reclamar muito...), e hoje diz mesmo que não gosta, pontuando a afirmação com um "blhé!". Em relação aos gelados, a mesma coisa; "blhé!". Pelo menos até este verão.

Fomos de férias para a minha terra, onde também ele nasceu, a minha Ilha da Madeira. Fizemos um intervalo de Madeira num salto em família à bela Ilha do Porto Santo, ali mesmo ao lado. Lá há um negócio familiar de gelados de máquina, famoso e favorito entre quase (esquisitos há-os em todo o lado) todos os que provam o produto que vendem. Regionalismo para gelados em geral, lambeca é o que hoje todos chamam àquele gelado em específico, e que o senhor que gere o negócio adoptou como nome para o produto (Lambecas); a lambeca do Porto Santo é hoje um ex-libris daquela ilha, quer se queira, quer não.

Tanto eu como a minha mulher, cujas papilas gustativas já foram fisgadas pela lambeca, não dispensamos a lambeca diária quando estamos no Porto Santo. O nosso filho... "blhé!" Acontece que, pela persuasão da Mãe, o meu petiz deu uma pequena lambidela, com uma tímida ponta da língua, numa lambeca. As pupilas dilataram-se-lhe de imediato, e a língua foi mais intrépida numa segunda lambidela. Abriu-se a caixa. Criamos um monstro.

Enquanto estivemos no Porto Santo, depois de cada almoço, a primeira palavra do meu filho era "lambeca!" (muitas vezes antes sequer de começar a almoçar, para ser honesto...). E lá íamos os três — que sacrifício!... — ao centro da Vila Baleira comer uma lambeca. Nas primeiras vezes ainda pedíamos só duas, para o Pai e para a Mãe (é assim que nos trata), deixando-o comer das nossas. Cedo me apercebi que não era boa ideia: sentado entre os pais, ele engolia uma colherada da lambeca da Mãe e virava-se de imediato para a do Pai, cujo pulso estava bem preso no seu punho fechado (eu tinha de me dobrar todo para comer alguma da minha lambeca, ou lutar com ele para me libertar — escolhi a primeira hipótese). Não largava. Depois ficava-me com o cone de bolacha quase todo... (a Mãe pedia no copinho; sem bolacha). Pai sofre!

Aprendemos rapidamente. Três lambecas (duas de copo) e um cone extra, a ver se ele não devorava o meu. Dava-nos mais tempo para comer mais das nossas, mas não as comíamos todas. Não dava. O punho dele não me soltava o braço e a Mãe estava de serviço com dois copos de gelado; e ele comia dos dois.

Agora já gosta de gelado. Erro dos pais... ponto para o filho. (Mas não come gelado de chocolate!)