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segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Monstros

Hoje acordei com o meu filho a entrar-me pelo quarto a dentro, subir à cama e enroscar-se a mim. Estiquei o braço para ver as horas e, estando a apenas cinco minutos da hora de acordar, deixei-o estar.

Mal toca o despertador, a minha mulher, depois da troca de mimos com os seus dois rapazes, foi tomar banho. Sugeri ao meu petiz que nos levantássemos, mas ele respondeu-me com uma pergunta sussurrada, ainda de chucha na boca: "os monstus tem med' d'Papá?". Não entendi à primeira, mas ele continuou a sussurrar a mesma pergunta. Resolvi, ainda sonolento e sem pensar, responder que sim, apertando-lhe o abraço. Ele perguntou de novo, a confirmar.

Entretanto já tinha tido tempo de pensar. Não quis manter a ideia de monstros na cabeça dele: "Teriam, se existissem monstros. O Papá protege-te sempre." Menti.

Há tantos monstros por aí... mas nenhum debaixo da cama dele.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

A cama dos pais é melhor que a minha

Nos últimos meses o meu petiz não falha uma noite (vá; é capaz de ter falhado uma) a saltar, a meio da noite, para a cama dos pais. Como se isso não bastasse, o anjinho raramente fica quieto na cama para além das seis da matina. Portanto, acorda-nos quando chega à cama e acorda-nos (ao pontapé...), uma segunda vez, cedo demais. E isto é o mínimo. Já tentei levá-lo de volta para a sua cama mal chega — estridente escândalo. Já tentei levá-lo de volta depois de o ouvir ressonar — escândalo estridente. E volta para a cama dos pais, muitas vezes antes mesmo de eu lá chegar, tal é a pressa. A meio da noite, estremunhado, a paciência para insistir é escassa.

Andamos, os progenitores, cansados por falta de sono completo. Julguei que, mais de três anos depois do nascimento, os dias de zombie-de-sono fossem passado distante. O positivo é o carinho extra que ele nos dedica quando chega à cama.

Há pouco mais de duas semanas passei um fim-de-semana fora. Cheguei no Domingo, já ele estava na cama, mas ainda na dele. A meio da noite, para não variar, veio para a cama dos pais, onde ele não esperava encontrar o Pai. Adivinhando o caminho no escuro, chocou contra a minha coxa. "Pai?..." perguntou ao atirar-se para cima da cama, constituída pelo meu tronco. Apalpou-me a barba, para ter certeza, e logo me agarrou no pescoço; "Pai!". "Sim, é o Pai." Dessa vez senti a visita pela positiva; sou um coração-mole.

Outro problema acessório é o acordar agitado dele, ainda por cima quase sempre em antecipação ao dos pais. Pontapeia muito, testando a paciência dos pais, e a resistência à dor do Pai — por azar (espero eu!), acerta-me dois terços dos pontapés nas minhas partes baixas...

Tenho-o questionado pela razão de não querer acordar na sua cama. Enrosca-se todo, bem consolado, na sua cama, ao deitar. Adormece, regra geral, rápido e bem, sem queixas do leito. No entanto, responde-me sempre que não gosta da sua cama.

Hoje foi a vez da Mãe lhe perguntar porque raio — sem o "raio" — não fica ele na sua cama. Repetiu que não gosta da cama. "Porquê?", perguntou-lhe a Mãe. "Mui'a pequena", disse ele. Olha o gasguito... Tem uma cama maior que muitas crianças da idade dele, supostamente para o aconchegar até aos seis anos, e diz que é pequena. Não é pequena para adormecer, todo consolado.

De qualquer das formas, não pode acontecer. Não me parece ser saudável nem para o desenvolvimento dele, nem para a saúde dos pais — de certeza absoluta. Mas não posso trancar-lhe a porta do quarto, nem tenho vontade de acordar a vizinhança com a birra que ele faz se o devolvo à cama. Não; amarrá-lo à cama também não é opção.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Abriu-se a Caixa da Lambeca

O meu filho não come chocolate. Já provou, não gostou (se bem que, uma vez, comeu metade daqueles ovos surpresa sem reclamar muito...), e hoje diz mesmo que não gosta, pontuando a afirmação com um "blhé!". Em relação aos gelados, a mesma coisa; "blhé!". Pelo menos até este verão.

Fomos de férias para a minha terra, onde também ele nasceu, a minha Ilha da Madeira. Fizemos um intervalo de Madeira num salto em família à bela Ilha do Porto Santo, ali mesmo ao lado. Lá há um negócio familiar de gelados de máquina, famoso e favorito entre quase (esquisitos há-os em todo o lado) todos os que provam o produto que vendem. Regionalismo para gelados em geral, lambeca é o que hoje todos chamam àquele gelado em específico, e que o senhor que gere o negócio adoptou como nome para o produto (Lambecas); a lambeca do Porto Santo é hoje um ex-libris daquela ilha, quer se queira, quer não.

Tanto eu como a minha mulher, cujas papilas gustativas já foram fisgadas pela lambeca, não dispensamos a lambeca diária quando estamos no Porto Santo. O nosso filho... "blhé!" Acontece que, pela persuasão da Mãe, o meu petiz deu uma pequena lambidela, com uma tímida ponta da língua, numa lambeca. As pupilas dilataram-se-lhe de imediato, e a língua foi mais intrépida numa segunda lambidela. Abriu-se a caixa. Criamos um monstro.

Enquanto estivemos no Porto Santo, depois de cada almoço, a primeira palavra do meu filho era "lambeca!" (muitas vezes antes sequer de começar a almoçar, para ser honesto...). E lá íamos os três — que sacrifício!... — ao centro da Vila Baleira comer uma lambeca. Nas primeiras vezes ainda pedíamos só duas, para o Pai e para a Mãe (é assim que nos trata), deixando-o comer das nossas. Cedo me apercebi que não era boa ideia: sentado entre os pais, ele engolia uma colherada da lambeca da Mãe e virava-se de imediato para a do Pai, cujo pulso estava bem preso no seu punho fechado (eu tinha de me dobrar todo para comer alguma da minha lambeca, ou lutar com ele para me libertar — escolhi a primeira hipótese). Não largava. Depois ficava-me com o cone de bolacha quase todo... (a Mãe pedia no copinho; sem bolacha). Pai sofre!

Aprendemos rapidamente. Três lambecas (duas de copo) e um cone extra, a ver se ele não devorava o meu. Dava-nos mais tempo para comer mais das nossas, mas não as comíamos todas. Não dava. O punho dele não me soltava o braço e a Mãe estava de serviço com dois copos de gelado; e ele comia dos dois.

Agora já gosta de gelado. Erro dos pais... ponto para o filho. (Mas não come gelado de chocolate!)

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Dores de crescimento

Há pesadelos recorrentes nesta coisa de cuidar de uma criança pequena. Vemos aquela amostra de gente, pequena e de aspecto frágil, ainda por cima ainda com dificuldade em modelar as suas reacções, e todos os perigos do mundo nos parecem conspirar, de repente e em simultâneo, para que lhe fazer mal. E tanto Pai como Mãe só querem defendê-lo. No nosso caso (não quero ser vilipendiado por generalizar), o Pai — presente! — já começou a relaxar, a lembrar-se da sua meninice, da quantidade de cicatrizes que esta lhe distribuiu pelo corpo e do gozo que sente quando olha para elas; mesmo que nem se lembre da origem da maioria.

Aprendi a andar num apartamento. Aí, durante cerca de 3 anos, lembro-me de começar um pequeno incêndio, de soltar o casal de hamsteres pelo apartamento (várias vezes) e, por causa de um apetite súbito por escalada, ter causado a queda de uma pesada estante de parede inteira sobre mim, a minha irmã caçula e uma vizinha que de vez em quando ia lá brincar. Ninguém se magoou, mas a tendência para a tropelia era evidente. Depois, um ano antes de entrar para a escola primária, mudei-me para a "casa da avó", que era uma fazenda cheia de cães — e outros animais —, árvores a rodos e muitas silvas. Ainda por cima tinha companheiros de brincadeira da mesma idade. Poder-se-á imaginar a sucessão diária de bolas de algodão embebidas em álcool, de tintura de iodo, ou puxões de orelhas.

A Mãe, parece-me (pelo que me vai dizendo — e vejo), foi mais bem-comportada, segundo a própria.
O nosso filho, até agora, tem uma colecção ainda baixa de acidentes que deixam mazelas, o que me faz pensar que é uma criança pouco activa (apesar das evidências em contrário), e à Mãe de que está a fazer um óptimo trabalho como protectora. Perspectivas.

No outro dia, mal me abriu a porta da sala, a educadora do meu filho avisou-me logo que ele tinha tido um encontro pouco simpático com o chão e estava um pouco combalido. Esbardalhou-se, portanto, a brincar com miúdos mais velhos (podem ter até 6 anos). Apareceu-me à frente, pesaroso, com dois pensos enormes nos joelhos, a andar sem os dobrar. Apeteceu-me rir. Também tinha um arranhão na bochecha e o cotovelo bastante esfolado. Nada que exigisse uma ida ao hospital. Por sorte, naquele dia ele foi para a escola no carrinho — tinha cadeira de rodas, por assim dizer, para o caminho de volta a casa.

Quando a Mãe chegou a casa avisei-a logo, antes que o visse, do que tinha acontecido. Apressou-se sala a dentro e, ao vê-lo prostrado no sofá com um penso-rápido enorme em cada joelho, foi visível o esforço para não chorar. Eu? Eu estava divertido com a situação (sim, eu sei que sou má pessoa). À hora do banho tive de lho dar com esponja, já que tinha medo de perder os milagrosos pensos.

No dia seguinte, um dos pensos já pendia. Deu para ver que a ferida que tapava era quase nada; o cotovelo estava em muito pior estado... e sem penso. Sugeri tirar o penso antes de ir para a escola: drama pesado. À noite o penso já tinha caído — confirmei a minha suspeita de que o hediondo ferimento dispensaria tanto pontos como o penso. O esparadrapo auto-colante do outro lado saiu no banho, revelando ferimento de igual gravidade.

Tenho um dramático em casa — para competir comigo.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

"Não, 'bigád'"

O meu filho está muito educadinho:

— Queres uma bolacha?

— Não, 'bigád'.

Há mais de um ano que aprendeu a dizer obrigado e a usá-lo no sentido correcto. Ultimamente dizia-o pouco, mais a pedido dos pais que outra coisa. A nega saía-lhe isolada de correcção social, mais vezes em alemão bruto ("nein!") que em português.

— Queres um sumo?

— Não, 'bigád'.

Também já dizia o germânico bitte no final dos pedidos, com os olhos muito brilhantes e fofinhos. Agora raramente o faz; apenas tenta imitar o por favor que os chatos dos pais insistem em exigir-lhe (a lata!!). "Po'f" é a versão que lhe sai. Mas o obrigado depois da nega, esse sai que é uma maravilha:

— Vai lavar os dentes.

— Não, 'bigád'.

O que é que um pai há-de fazer?...

terça-feira, 15 de junho de 2021

Tabletes de desrespeito

Tenho aqui, mesmo ao meu lado e com o tablet da mãe, o filho a rir-se às gargalhadas enquanto os amarelos Minions se manifestam ruidosamente de forma muito pouco verbal. Vê o filme pela — calculo de cabeça — 56ª vez desde que foi por mim apresentado aos comprimidos com pernas e jardineiras, há pouco mais de uma semana. Não deve entender metade do que se passa, mas lá se pendura na sua cadeira, meio deitado sobre a mesa, e ri-se muito.

Não sei se fiz bem em apresentar-lhe estes engraçados e estranhos seres, em eterno estado de icterícia, que misturam línguas e baboseiras várias em vez de coerência. Este meu filho, que ainda não tem, ele próprio coerência linguística — mistura português e alemão (o pouco inglês que dizia, para já, caiu) — pode estar a aprender mais uma salganhada... Mas sabe bem ouvi-lo dar tanta gargalhada.

Outro problema é o seu desrespeito pela física e pelo design da cadeira: ainda há pouco, estava ele a jogar um qualquer jogo próprio para a idade, quando se pôs a choramingar e a chamar pelo pai. No meio da ginástica toda com que ele testa a cadeira — com degraus para subir por si, mas sem cinto ou qualquer outra barreira que o impeça de cair —, enfiou as pernas pelo espaço entre o assento e as costas. Ficou preso e pedia ajuda. Acudi, como um pai faz, mas achei uma falta de respeito que, no meio da lamúria de alarme, o petiz não tenha parado de jogar...

Já não há respeito pelo salvamento.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Tentativa de patricídio

Já aqui me queixei da tendência que o meu filho tem, quase sempre por azar (meu), em acertar-me uma pancada ou outra nas partes baixas. Até cabeçadas já levei, correndo ele na minha direcção para me abraçar, com demasiada vontade, quando tinha a testa na altura certa para me acertar em cheio. Esta semana, num só momento entre pai e filho, a coisa tomou características preocupantes.

Quem me conhece sabe que não sou um homem alto, mas também não sou pequeno. Tive uma infância muito fisicamente activa, pratiquei karaté na pré-adolescência e passei a adolescência a dar à pagaia em cima de um caiaque (e correspondente treino de ginásio). Talvez por isso, tolero um pouco além do normal as brincadeiras mais truculentas do meu filho.

Num desses momentos, fui apanhado de surpresa por uma carga bem disposta do meu filho. Se lhe vissem o sorriso querido e fofo que lhe brilhava na cara quando, ao ver-me entrar pela sala dentro, correu na minha direcção de mãos fechadas na ponta dos braços, esticados para a frente — qual Super-homem. Não tive tempo de me proteger. Acertou-me bem perto da zona proibida, ainda causando alguma dor (mesmo que psicológica). Fiz uso, de imediato, do jogo psicológico que tem dado resultado, que foi fazer-me de magoado para lhe puxar pela empatia, para saber que aquela brincadeira magoa. Deixei-me cair no chão, de barriga para baixo, dizendo que estava magoado. Esperava que ele reagisse como é normal e costume dele: que me viesse dar um abraço e um beijinho. Desiludi-me.

Vendo-me deitado abaixo, à sua mercê, o meu amoroso filho saltou-me para cima das costas e saltou três vezes, enquanto se ria às gargalhadas. Estaria o meu filho a querer matar-me? Suei em frio, cheio de medo. Medo de reagir, já que estávamos bastante perto de cadeiras, a minha poltrona e uma pequena cómoda, e eu não queria que, ao virar-me ou mexer-me, ele fosse cair contra uma destas esquinas.

"Fingi" chorar (chorava por dentro — o meu filho herdou a sua tendência dramática de algum lado...) e, mal senti que estava de quatro em cima de mim, virei-o para o lado mais seguro e fui amuar (mais uma vez, dramático) para o sofá, à espera do beijinho de desculpas. Obtive-o.

O terror ficou (mais drama...!).

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Ciclos atrás de ciclos

O meu filho mudou de infantário em Março — a burocracia assim o exigiu. Podia ter continuado no anterior, mas uma pequena falha na nossa interpretação dos lineares trâmites da monolítica burocracia teutónica levou à mudança. Está agora, o meu filho, com crianças mais velhas (dos 4, a fazer 5, aos 6). Ele acabou de fazer 3. A verdade é que, até agora, esta mudança não parece ter traumatizado o petiz por aí além, ao contrário do que a potencial úlcera do pai teimou em antever. Tem mais espaço exterior para se espalhar, correr, escangalhar, esticar, esbardalhar e andar nuns triciclos fantásticos (confesso ter alguma inveja). Também aprende mais alemão, e isto das línguas está a dificultar o desenvolvimento verbal do rapaz. Entende perfeitamente ambas as línguas, mas ainda só usa raras frases curtas, palavras soltas (mas bem aplicadas) e dedos apontados e cheios de birra.

Outra consequência desta mudança, para mais longe (passei de gastar 5 minutos a ir buscá-lo a pé, para 20 minutos), é que começamos a usar a bicicleta para o levar mais rápido para a escolinha (adora empatar...). É uma bicicleta sem pedais, útil para lhe treinar o equilíbrio, com aspecto racer, amarelo torrado brilhante e apliques em preto. Está nas nuvens, o pequeno. E eu encontrei uma forma de fazer algum exercício aeróbio — o burocrata alemão proibiu-me de ir ao ginásio — sem ter que me andar a forçar a andar por aí a correr sem rumo. Corro atrás do meu filho quando ele acelera para o meio de pessoas e estradas, e já fico bastante suado. Uma vez até fiz um pouco de exercício de força quando tive que transportar filho e bicicleta, porque sua excelência decidiu que já não queria andar — nem bicicleta, nem bota — e eu estava com pressa. Tive sorte que foi sol de pouca dura.

Hoje (já o vou buscar daqui a pouco) vou alombar a bicicleta até ele. De manhã, ao sair de casa com a mãe, decidiu que não queria ir de bicicleta ou carrinho, que ia a pé como a mãe. Como imaginamos que seja difícil forçar uma criança a sentar-se num carrinho, ou a andar de bicicleta, eu e a mãe (principalmente a mãe, que é quem tem a responsabilidade de o levar) acedemos. Escusado será dizer que, quando se apercebeu que a sua jogada de poder tinha resultado na ausência de brincadeira na bicicleta até à escolinha, mudou de ideias. Segundo a minha mulher, já estavam a uma distância de casa que implicaria perder mais uns 5 minutos e passar pelos semáforos da rua principal aqui perto. Foi a pé, que ainda por cima a mãe tem hora para chegar ao local de trabalho.

A verdade é que, com esta mudança, o equilíbrio e a destreza do meu filho sobre duas rodas estão a melhorar a olhos vivos. Está de tal forma que começo a sentir a falta de um travão naquela traquitana amarela. Eu e a minha mulher, sócios nesta coisa de acompanhar o crescimento do petiz, já nos vemos forçados a considerar uma bicicleta a sério, com travão e — imagine-se(!) — pedais. Sem rodinhas; se se equilibra nesta, equilibra-se noutra. Mas aí vem outra questão: se a nova bicla vem com o descanso do travão, também vem com a velocidade do pedal...

Terei de ir de bicicleta, também... e uma guia a unir as duas? (Antevejo joelhos e mãos esfoladas: meus e da minha mulher.)

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

To fralda, or not to fralda?

Tivemos, antes do fim-do-mundo de 2020, uma reunião com a educadora responsável (uma russa que não se deixa levar pelo charmezinho das crianças) pela sala do nosso menino. Entre outras coisas, ficou combinado que íamos tentar convencer o petiz a largar as fraldas este verão. Tendo ele outras três ou quatro crianças de idade muito próxima, talvez o grupo o fizesse em conjunto, seguindo os exemplos uns dos outros.
Acontece que, aquando do regresso da criança ao infantário após meses sem socialização nenhuma, além da que sofre por ter de aturar os pais — o pai, então...! —, a russa, nossa aliada, não voltou ao trabalho. A sala dele estava entregue às duas jovens que se amolecem todas com o sorrizinho dele, deixando-o fazer o que quer delas. Não nos pareceu que viria grande ajuda dali.
Fomos observando o nosso filho, à procura de sinais que nos fizessem acreditar que estava pronto, mas ele não tem demonstrado qualquer interesse em avisar que vai fazer um qualquer despejo fisiológico, nem sequer se incomoda em ter o rabo borrado. De qualquer das formas, e depois de a minha mulher ter visto um dos tais coleguinhas do nosso filho a avançar, lampeiro, casa-de-banho adentro, baixar as calças e sentar-se na retrete do infantário (com o tamanho certo para os petizes), sem ajuda ou incentivo presencial, assomada que se sentiu de pressão social, decidimos experimentar avançar com o desfralde.
No fim-de-semana passado, por ocasião do que seria uma muda de fralda, a minha mulher tirou-lhe a fralda suja, mas substituiu-a por umas cuecas, em nada absorventes. Trouxe, também, o penico em forma de baleia para a sala, onde o sentou, explicando-lhe que teria de baixar as cuecas, sentar-se, e fazer o que viesse. Ficou ali, o miúdo, sentado na baleia, de tablet na mão e cuecas nos joelhos, sem ares de preocupação nenhuns. A sua primeira reacção veio quando sentiu os pés molhados.
Fez, efectivamente, o seu primeiro chichi no pote — e eu celebrei muito, a ver se ele curte a coisa — mas, uma vez que a mãe dele é desprovida de extensão exterior da uretra (vulgarmente apelidada de pila), não se lembrou que devia apontar a do petiz para baixo. Alguma urina acabou, efectivamente, dentro do pote, mas eu diria que a maior parte ficou fora. Correria para limpar, entre vivas e palmilhas ao petiz, que me parecia confuso entre as felicitações e a azáfama urgente com que limpávamos o chão, acabamos por o deixar mais livre ainda, sem a cueca.
A micção seguinte foi, sem qualquer pejo e na maior das descontrações, confortavelmente sentado na sua poltrona de esponja. De esponja, sim. Outra houve em cima do tapete da sala. Não podia ser no chão; tinha de ser no tapete. E na esponja. E claro que a conversa não podia parar na micção.
Continuou, o meu rico filho, nas suas brincadeiras, de tudo pilinha e traseiro ao léu. Ainda havia esperança de que usasse o penico por vontade própria, já que ele é dos que se incomoda se se sujar — à excepção do rabo, quando de fralda. Apoiado na mesa onde normalmente desenha (na mesa, não em cima da mesa), no meio do tapete da sala (onde também já desenhou qualquer coisita), de repente e sem qualquer tipo de aviso não-verbal (nem um esgar de esforço, nem um desvio na atenção que prestava aos bonecos com que brincava, nada), sai-lhe um escatológico bolo por entre as nádegas, de saudáveis dureza e tamanho. Disparei na direcção do meu petiz ainda antes do cocó cair no tapete, mas ele reagiu antes de eu chegar e virou-se, a ver onde tinha tombado a obra. Pisou-a, descalço, no momento em que o levantei. Incomodado com meio-bolo pendurado no pé, o rapaz esperneou, espalhando bocados de cocó em volta, incluindo no exacto ponto onde, fracções de segundo depois, eu pousei o meu pé — também descalço — e nem reparei.
Nos minutos subsequentes, enquanto a minha mulher me avisava que eu tinha pisado a prova do crime e limpava o tapete e restante chão da sala, eu limpava o filho e o meu pé — confirmada a pisadela — daquele desastre. Depois limpei o chão do corredor, onde as minhas pegadas denunciavam o sucedido.
Cerca de dez minutos depois, estava o meu filho já de fralda (foi demais para hora e meia sem fralda) e a brincar no chão limpo de fresco, e eu, que me deitara de lado no chão a brincar com ele, queixei-me de ainda sentir o cheiro do bolo do meu menino. "É impressão tua", disse-me a minha mulher.
Pouco depois, incomodou-me uma comichão na perna, na zona da canela. Fui coçar... Depois fui a correr à casa-de-banho lavar a perna: restava um pequeno pedaço da prova do crime, provavelmente aspergido contra a minha perna pelo espernear do rapaz.
Não sei... não sei se o meu filho está pronto. Também não sei se eu estou pronto. Sei é que o trauma deixou-nos avessos à experiência. Vai ser preciso encontrar nova coragem.

PS: A educadora russa não voltou, para já, porque está de licença de maternidade, descobrimos entretanto.

PPS: As jovens educadoras que restam estão doentes, pelo que o meu filho tem estado com outra educadora. Ela conseguiu pô-lo a ir ao pote, fazer um cocó, uma vez. Na verdade ela pô-lo no pote e ele largou a bomba. Será que conta?...