Há pesadelos recorrentes nesta coisa de cuidar de uma criança pequena. Vemos aquela amostra de gente, pequena e de aspecto frágil, ainda por cima ainda com dificuldade em modelar as suas reacções, e todos os perigos do mundo nos parecem conspirar, de repente e em simultâneo, para que lhe fazer mal. E tanto Pai como Mãe só querem defendê-lo. No nosso caso (não quero ser vilipendiado por generalizar), o Pai — presente! — já começou a relaxar, a lembrar-se da sua meninice, da quantidade de cicatrizes que esta lhe distribuiu pelo corpo e do gozo que sente quando olha para elas; mesmo que nem se lembre da origem da maioria.
Aprendi a andar num apartamento. Aí, durante cerca de 3 anos, lembro-me de começar um pequeno incêndio, de soltar o casal de hamsteres pelo apartamento (várias vezes) e, por causa de um apetite súbito por escalada, ter causado a queda de uma pesada estante de parede inteira sobre mim, a minha irmã caçula e uma vizinha que de vez em quando ia lá brincar. Ninguém se magoou, mas a tendência para a tropelia era evidente. Depois, um ano antes de entrar para a escola primária, mudei-me para a "casa da avó", que era uma fazenda cheia de cães — e outros animais —, árvores a rodos e muitas silvas. Ainda por cima tinha companheiros de brincadeira da mesma idade. Poder-se-á imaginar a sucessão diária de bolas de algodão embebidas em álcool, de tintura de iodo, ou puxões de orelhas.
No outro dia, mal me abriu a porta da sala, a educadora do meu filho avisou-me logo que ele tinha tido um encontro pouco simpático com o chão e estava um pouco combalido. Esbardalhou-se, portanto, a brincar com miúdos mais velhos (podem ter até 6 anos). Apareceu-me à frente, pesaroso, com dois pensos enormes nos joelhos, a andar sem os dobrar. Apeteceu-me rir. Também tinha um arranhão na bochecha e o cotovelo bastante esfolado. Nada que exigisse uma ida ao hospital. Por sorte, naquele dia ele foi para a escola no carrinho — tinha cadeira de rodas, por assim dizer, para o caminho de volta a casa.
Quando a Mãe chegou a casa avisei-a logo, antes que o visse, do que tinha acontecido. Apressou-se sala a dentro e, ao vê-lo prostrado no sofá com um penso-rápido enorme em cada joelho, foi visível o esforço para não chorar. Eu? Eu estava divertido com a situação (sim, eu sei que sou má pessoa). À hora do banho tive de lho dar com esponja, já que tinha medo de perder os milagrosos pensos.
No dia seguinte, um dos pensos já pendia. Deu para ver que a ferida que tapava era quase nada; o cotovelo estava em muito pior estado... e sem penso. Sugeri tirar o penso antes de ir para a escola: drama pesado. À noite o penso já tinha caído — confirmei a minha suspeita de que o hediondo ferimento dispensaria tanto pontos como o penso. O esparadrapo auto-colante do outro lado saiu no banho, revelando ferimento de igual gravidade.
Tenho um dramático em casa — para competir comigo.