segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Há um ano atrás

Foi há um ano atrás, algures entre a uma e as duas da madrugada, que a minha mulher grávida se vira para mim e me anuncia, com uma calma assombrosa, que está na hora. "É agora".
Saltei da cama, corri a vestir-me e levei bolsa e mochila para o carro, a minha mulher a acompanhar-me como quem não tivesse dores nenhumas.
Chegados ao hospital anunciei que a entregaria na porta das urgências, para depois ir estacionar o carro e correr a ter com ela. Recusou, que ainda não estava à rasca. Estava perfeitamente em condições de me acompanhar, a pé, do estacionamento àquela entrada do hospital.
Paramos várias vezes pelo caminho porque, afinal, as contrações já aí estavam. O percurso pedestre demorou mais do que devia, mas aqui o pai serviu bem de bengala e a grávida chegou a bom porto.
Eram 4 e 35 da manhã quando o meu filho saiu cá para fora. "Parecia um bezerro a cair cá para fora", diz, ainda hoje, a mãe. E foi. Estava com pressa de nascer.
Hoje faz um ano e nem dá por isso.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

O paradoxo do calçado

Os pés do meu filho são um frequente motivo de amena discussão. Há, aqui em casa, dois pontos de vista diferentes (pormenores) quanto ao calçado, ou falta dele.
Eu sou da opinião, muito utilitarista e natural, de que o petiz não precisa de andar calçado, já que nem anda. Mesmo depois de começar a andar, mantenho que os pés devem desenvolver-se da forma mais natural possível; logo, descalços sempre que possível. Por isto tudo defendo que não se comprem, sequer, sapatos para um bebé que nem os usa da forma que o sapato deve ser usado. Não é a gatinhar, de certeza, nem a andar (quando andar) de pé como um chimpanzé
A mãe, por sua vez, apesar de concordar que não lhe devemos moldar os pés à laia do calçado, não consegue passar por uns sapatos de bebé sem soltar uma daquelas vocalizações — estranhas para mim — que denunciam que, em vez de trabalhar, estamos a ver um vídeo de um bicho que adoptou um animal bebé de espécie diferente. Diz que, por mais desnecessários que realmente sejam, ficam muito giros. Também mais argumenta, a mãe, que convém que ele tenha algum tipo de sola que não escorregue para esta fase em que se agarra às cadeiras e as leva a dar um passeio, qual andarilho improvisado.
Foi assim que concordamos em usar meias com borracha na sola — pintinhas, ou pastilhas, de borracha. Uso-as eu, e usa-as o meu filho. Não as mesmas, claro. O problema, aqui, é a vontade da vítima das decisões parentais. A vontade dele é andar descalço, de pé pelado — ele quer é andar todo nu, para dizer a verdade. Calço-lhe as meias, solto-o no chão da sala, cinco minutos depois tenho de andar à procura de pelo menos uma meia. No mínimo, puxo-lhe as meias para cima de 10 em 10 minutos. Por vezes até encontro a meia em falta na mão dele, toda babada — ainda não produz chulé, o sortudo.
Claro que ele tem sapatos. Se tem avós, tias, primas, etc, tem sapatos; apesar de eu ter conseguido que tenha poucos. Muito poucos.
Recentemente, os poderes de persuasão da minha mulher (será mais honesto dizer que foi ela quem resistiu ao meu olhar reprovador — ignorou-o) resultaram na compra de um par de sapatos. Como o tamanho está certo, no ponto, os sapatos ficaram bem presos, apesar do saco de enguias em que se transformou o meu filho no momento em que se apercebeu que ia ser calçado. Não saíram de imediato, como todos os outros. Não saíram de todo, apesar dos esforços permanentes do teimoso petiz, frustrado e zangado com a partida pregada.
Até que saíram, as lindas sapatilhas brancas, com ajuda não sei de quem — nego tudo!
Há tempo para calçado. Há tempo para crescer. Há tempo, até, para que ele um dia decida que não quer mesmo usar sapatos. Entretanto, no que depende de mim, calçar-se-á quando for necessário ter o pé protegido das demoníacas pedrinhas da rua, das desarrumadas peças de legos ou das pisadelas dos coleguinhas do infantário. Até lá, por mim, fica-se pelas meias — mesmo que as tenha de andar sempre a devolver aos pés dele.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

“Planos” de viagem

A minha mulher gosta de planear tudo ao pormenor. Eu, de índole um pouco mais laxa, deixo-me ir na onda, já que viajar com um bebé é um delicado equilíbrio entre negociações e confrontos permanentes.
Nesta viagem, o programa, cumprido quase à risca (quando a natureza chama…), para saída de casa correu sobre rodas. Sobre rodas, no sentido de que saímos à hora planeada sem deixar a criança para trás, porque há sempre uma ou outra engrenagem na máquina que precisa de um abanão. Chegamos à estação de comboio com tempo para um café e um bretzel, fizemos a apertada mudança de comboio sem problemas e, preparados para uma viagem descansada, assentamos as nádegas com convicção e alívio. Ora, num total desrespeito pelo programa, o nosso anjo preferiu não assentar no colo de um de nós. Foi a viagem toda a saltar de colo em colo, a reclamar por não o deixarmos andar pelo chão a incomodar os outros passageiros, por não o deixarmos atirar-se ao livro do jovem do lado e por lhe oferecer-mos uma refeição que não estaria ao seu gosto do momento.
Chegados ao aeroporto com tempo de sobra, pensando na hipótese de almoçar com as pernas debaixo de uma mesa, começamos a epopeia de arrastar um carrinho de bebé por um aeroporto vasto e cheio de andares. Elevador aqui, elevador ali, dois deles avariados, procura por alternativas, lá fizemos o check-in cerca de 50 minutos depois da chegada ao aeroporto. A partir deste momento, a criança saltou do carrinho — despachado para o porão do avião — para os braços do progenitor que estivesse mais apto a cada momento. Passamos pela segurança, os três revistados, e só aí paramos para comer. Paramos, verdade seja dita, para comprar duas sandes e bebidas, que tínhamos que ir para a porta de embarque e dar de comer ao petiz, e o tempo já não estava do nosso lado.
No avião, ainda sem dormir a sesta da manhã e sendo já hora da sesta da tarde, eu e a minha mulher esperávamos ter um voo relativamente calmo. O meu filho tinha outra ideia. Porque raio havia ele de ficar quieto no colo quando tem aqui tanta coisa nova (ainda não fez um ano e já viajou de avião mais vezes que muita gente numa vida)? Aquela espécie de persiana, a que é suposto estar aberta durante a descolagem e a aterragem, foi um regabofe de abre-e-fecha. Quando a minha mulher resolve parar a brincadeira e tentamos distraí-lo, fez um curto solilóquio tão convincente — e estridente — que o passageiro da frente lhe deitou um olhar grave. Sem dúvida, um apreciador das artes cénicas, mas pouco dado a comédias.
Entre gargalhadas e birrinhas, mudando de colo de cada vez que os esforços para o adormecer começavam a surtir efeito, lá foi, acordado e mexido, a trazer sorrisos embevecidos à alemã que estava ao meu lado.
Indeciso entre colos, adormeceu — finalmente! — esticado sobre os dois. Faltava uma hora para o fim de um voo de três, e tanto eu como a minha mulher começamos a sentir a pressão na bexiga que ninguém quer sentir quando tem uma criança, que demorou a adormecer, no colo. Secretamente — não digam à minha mulher! — desejei que acordasse. Não tive tal sorte, e a esperança pelo conforto e boa saúde do meu tracto urinário esfumou-se quando o sinal de apertar o cinto se acendeu sobre a cabeça do passageiro da frente.
Bem… o menino dormia profundamente, de faces rosadas, e era preciso pôr-lhe o cinto. A minha mulher, num feito de grande habilidade que eu quase estraguei uma ou duas vezes, conseguiu apertar aquela coisa à volta dele, quase sem tocar nele. A minha vizinha alemã quase aplaudia, impressionada. Cinco minutos depois, a hospedeira, solícita e ciente do seu dever, vem insistir connosco, cheia de “I’m sorry”, que a criança tem de ir sentada. Sorrimos, assentindo, e procrastinamos a manobra, ganhando mais alguns minutos. Acordou, claro, e pediu o livro de reclamações. O dos pais, claro.