Como seria de esperar, aqui em casa também há a necessidade de, de quando em vez, abastecer a figurada dispensa (não temos dispensa, mas temos armários que fazem a vez) e o literal frigorífico. Para isso temos a sorte de ter, a cinco minutos a pé de casa, dois supermercados e uma bem abastecida drogaria que partilham um rés-do-chão com uma papelaria, um banco e uma padaria. Tudo no mesmo lugar. Conveniente? Muito, não fosse, em contrapartida, não termos outra hipótese senão levar o petiz connosco, se queremos fazer as compras todas de uma vez.
É que a minha mulher prefere fazer ela as compras, mas precisa de mim para servir de burro de carga. Sim, voltamos a pé, geralmente carregados com uma mochila e dois grandes sacos (eu), mais um saquinho e a criança — que tem mesmo de vir connosco.
A princípio o rapaz ia no seu carrinho, sentadinho e quase sempre bem comportado. À medida que foi crescendo (tem quase dois!), levantou-se, imitando a evolução do Homem, e começou a querer fazer coisas.
Ainda foi possível, por uns tempos, levá-lo a pé (alternando a sola com o colo) e entretê-lo no carrinho das compras, sentando-o naquela prateleira que, ao que parece, está para isso. Mas foi sol de pouca dura. Hoje quer fazer o que quer. Leva um carrinho de compras em miniatura, que os estabelecimentos disponibilizam, empurrando o dito cujo de corredor em corredor, de começo muito bem comportado e certinho. Quando se farta de seguir os pais...
Quando a brincadeira — empurrar o carrinho dele atrás do dos pais — começa a ser longa e maçadora, o fofinho começa a ir de encontro às coisas com o transporte sob seu controlo. Primeiro, empurra o carrinho das compras. Não satisfeito, começa a ir de encontro às pernas dos pais, depois contra as prateleiras. Sempre sem muita força (que a tem, mas ali não usa toda), mas temo o dia...
Depois é imitar os pais. Tira pacote daqui, saquinho dali, finge ler rótulos e atira-se aos frascos de vidro. Eu digo atira-se porque, compreenderão, eu e a mãe do mui querido filho vivemos em terror pelo dia em que o busico (ide ver a um vocabulário madeirense) parta um desses lindos frascos, e por isso corremos a impedi-lo de lhes tocar.
Ora, como criança curiosa — e amorosa — que é, o mafarrico não se inibe de começar a explorar tudo, especialmente quando e o que os pais não deixam. Percorre corredores do supermercado inteiro sem dar cavaco a ninguém, sem ligar ao pai que chama por ele, ou a mãe que o encurrala. Engata as senhoras todas que vê pelo caminho, com acenos e sorrisos cheios de pequenos dentes — afiados!
Entre nós, os progenitores do diabrete, disfarçamos sorrisos de gozo, engolimos gargalhadas e trocamos olhares desesperados; tudo ao mesmo tempo.
Da última vez, já cansado de correr atrás dele com o carrinho miniatura que já não o entretinha, peguei nele ao colo, contra a sua vontade. Não acredito que um único tímpano saudável tenha ficado por martelar naquele supermercado. Uma sirene de ambulância deve ter corado ali perto.
Tudo pago e arrumado, aqui o animal de carga, agora surdo e com dores de cabeça, alomba o seu carregamento enquanto a minha parceira de aventura se encarrega do saco mais leve e do docinho. Perdi a inveja toda que pudesse sentir ao chegar ao semáforo, verde, e mesmo a meio da passadeira o filho pára e fica a olhar para nós, como quem experimenta a ver o que acontece. A minha mulher teve de o meter debaixo do braço à pressa, sempre de saco a tiracolo, e correr com tudo para não atravessar no vermelho — nestas terras multam-se mesmo os transgressores das passadeiras, esses perigosos meliantes do trânsito.
Como cresce, o meu menino! Cheio de curiosidade, energia e simpatia a rodos; mas os pais são cá uns chatos...!