segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Dentadinhas de amor!

Desde o início, tanto eu como a minha mulher achamos piada às dentadinhas simuladas com que mimamos o nosso descendente. É meio parvo, mas acontece. Acontece que, dado o exemplo vindo de cima, o nosso petiz lá começou a fazer o mesmo. A princípio, antes do surgimento da dentição, só chateava porque era baba a rodos. Entretanto surgiram os dentes.
Os primeiros dentes, aqueles incisivos que parecem agulhas, marcava-nos a pele sem piedade. Ele mordia principalmente mãos e dedos — inclusivamente dos pés, quando nos apanhava descalços. À medida que a força da dentada crescia, como crescia o número de dentes, a nossa demonstração de desagrado, sempre o mais carinhosa mas veemente possível, foi contribuindo para que aquela mania das dentadas fosse passando. Tenho até ideia de que não houve reclamações na creche por causa do uso indevido da dentição. (Imagino que todas as crianças mordam, a certa altura do desenvolvimento, mas não me parece que ele tenha por lá mordido o suficiente para gerar queixa.)
Foi passando, e a frequência das dentadas diminuiu. Mesmo assim, muito de vez em quando, ainda lhe dá na cabeça morder, no meio de gargalhadas que nada têm de maléficas mas me aterrorizam quando associo às dentadas, repetidas vezes em pouco minutos e apesar das nossas micro-fugas e suaves prisões. A mania de morder evoluiu e os alvos mudaram. Mantendo, ainda, o dedo grande como alvo muito ocasional, o meu filho agora faz, também muito de vez em quando, um ataque-surpresa. Corre na nossa direcção, sentados no sofá, e irrompe por entre os joelhos enquanto atira uma dentada, já com força, à coxa. O alvo favorito destes ataques é a mãe que, por sentar de perna mais fechada, acaba por levar os beliscões dentários logo acima do joelho. Eu tenho sofrido pouco com estes ataques. Mas não há bem que dure sempre.
Um dia, há cerca de um mês e penso que a última vez que o vi (senti) fazer um destes ataques, cheio de gargalhadas e sorrisos lindos (o malandreco), estou distraído com a televisão quando o meu filho desata a correr, ainda atabalhoadamente, na minha direcção. Não reagi, porque não vi. Quando me apercebi já ele se agarrava às minhas coxas e avançava sem oposição. Maldita posição masculina, de pernas abertas. Fincou-me os dentes o mais longe que conseguiu ir, que foi até ao fim. O beliscão aferroou-se-me em cheio no escroto — e eu não estava de calças de ganga... Ensinei, inadvertidamente, um palavrão ao meu filho.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Certinho e… cruzes!

Eu e a minha sócia na paternidade (e em muitas outras coisas, mas aqui fala-se de ser mãe e pai) escolhemos presentear o nosso petiz com uma programação diária de disciplina relativamente apertada. A agenda para a sesta, para o banho, para as refeições ou para deitar é cumprida com pouca folga, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta.
Por um lado, dá-nos, aos três, uma saudável regularidade. O miúdo sabe que as coisas acontecem quando acontecem, e até é o próprio a começar, muitas vezes, o ritual. Puxa a cadeira para comer, arruma os brinquedos por iniciativa própria e desata a correr para o quarto, entre outras coisas no género. A tensão, tanto para nós — orgulhosos progenitores — como para o nosso filho é, desta forma, mínima. Ele sabe que é assim que corre, nós sabemos que a probabilidade de correr mal é baixa.
Por outro lado, cria outras fontes de tensão. Basta que algo nos force a mudar o horário, e é um drama de rabugice, vasos sanguíneos a latejar na testa e enxaquecas a espreitar a cada passo. Ainda este verão, idos de férias até à Ilha onde os avós se escondem, tivemos dois voos completamente diferentes. Na ida conseguimos que o voo, de quatro horas, coincidisse com a hora da sesta. Foi um voo calmo e ressonado, com o único senão para a mãe, que serviu de cama e por isso não pôde ir à casa de banho durante cerca de duas horas e meia. No regresso o voo foi um bocadinho de nada mais tarde, coincidindo a hora da sesta com o período de trânsito dentro do aeroporto. Resultado? O miúdo entrou no avião já com quase duas horas de atraso na sesta, recusou-se a dormir, subiu o nível de rabugice e não se coibiu a assinalá-lo a pleno pulmão  — o voo todo.
Posto isto, concluímos que a disciplina nos dá, aos três, dias relativamente calmos, apenas ocasionalmente quebrados por um ou outro sobressalto, muitas vezes calculado — há que fazer coisas diferentes de vez em quando, senão o juízo evapora-se. A disciplina torna-nos o dia-a-dia mais fácil, apesar da pouca variabilidade. Para aliviar a rotina, não tendo muita escolha em termos de arranjar quem nos substitua por umas horas, temos que ir festas de aniversário de amigos à vez, ficando um dos progenitores em casa a garantir que o horário é cumprido, enquanto o outro tem uma folga da disciplina. As folgas à disciplina do petiz é que me parecem, para já, menos saudáveis. É nos espaços entre sestas, refeições e banhos que lhas damos, com o passeio aqui, ali, ou acolá. Sempre curto, para alterar o mínimo ao horário.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Varões e dominâncias

Sou pai de um varão. Desde cedo, nas ecografias a que se foi sujeitando a mãe, exibia a pila com alguma arrogância, pelo que não surpreendeu ninguém. É um varão tóxico, daqueles que se agarram com gula aos bustos das educadoras mais roliças, que parecem adorá-lo e se riem da sua postura de mandão, de dedo despoticamente apontado ao ar enquanto balbucia ordens que ninguém compreende. Usa "sim", "ja", "não" e "nein" com autoridade, já diz "mi'a" e "mein" com autoridade, mas já se esqueceu do "dá-gn" — que eu interpretava como "dá-me". Mais tóxico ainda, condescende frequentemente com um "'bigád'" que deixa os pais derretidos.
No passado fim-de-semana, num teste ligeiro à minha resistência mental, a minha esposa levou os seus homens às compras. Para minha sorte, não é coisa de que ela goste de fazer por fazer, e fá-lo frequentemente pelas lojas virtuais, pelo que só faz compras presencialmente quando a especificidade o exige. Ainda por cima, queria peças de biquini e uma ou outra peça de roupa interior. Vi-me, por apenas — a minha tolerância é baixa, e tenho uma mulher que me habitua mal — duas ou três dezenas de minutos, a cuidar do meu varão entre filas de expositores carregados de sutiãs e cuecas, dos mais variados tamanhos, feitios e materiais nas cores da moda.
Se, há pouco tempo atrás — ainda não tinha eu gerado prole —, estas aventuras me eram penosas, imagine-se sendo responsável por entreter o meu varão, que adquiriu, recentemente, a habilidade de andar erecto e bípede. Que fique quieto é vã esperança.
Tentou conversar com quase todas as senhoras que por ele passaram. Entre sorrisos despachados e carrancas rosnadas ninguém o entendia. Perseguiu a mãe, perdida entre os expositores, para a ajudar a aliviar os cabides e espalhar as cuecas pelo chão — para uma inspecção mais eficaz e aturada. Resmungou, umas vezes mais estridente que outras, por ver os seus movimentos tolhidos pelo colo do pai. Quando percebia que ficando calmo seria devolvido à liberdade — vigiada! —, lá regressava à sua exploração dos expositores. A certa altura, por mero acaso, pôs o olho e a vontade exploratória numa escada rolante. Tentou correr, o pai correu mais, colhemos ambos os olhares de reprovação e/ou gozo e lá fomos de volta aos sutiãs; eu adernado pelo peso dele na minha anca, ele a reclamar na sua língua privada. Depois fomos almoçar em família, onde ele comeu de tudo um pouco, excepto as batatas fritas da mãe; aí comeu o que deixamos. Dominância certificada.
Em casa, nessa mesma tarde, o meu varão resolveu testar a minha própria condição de varão e, quem sabe, privar-me dessa condição. No meio de uma discordância de opinião acerca do que ele pode, ou não, fazer com as gavetas da cômoda da sala, esperneou. Um dos seus calcanhares, mais veemente na reclamação, acertou-me em cheio no escroto — e tudo o que isso implica. Só mantive a minha posição de varão dominante porque o mantive dentro dos meus braços, enquanto me deitei, aos bocados, no chão. Larguei-o, mais uma vez, depois de se acalmar. Eu ainda fiquei quieto — tinha que meditar um bocado acerca dessa coisa tóxica que é a masculinidade. Por momentos, duvidei que mantivesse a minha.
Eventualmente recuperei da dor... e o juízo.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

"Ai, que giro! Já anda"

Eu comecei a andar com 16 meses. Coincidiu com a altura em que a minha irmã nasceu, vá-se lá saber porquê — coincidências.
A caminho do seu 16º mês, o meu filho punha-se em pé, numa postura muito direita, equilibrada e segura, dava um hesitante passo ou dois, e deixava-se cair no chão. Do meu ponto de vista, não andava. E não andava porque não queria. A chegar aos tais 16 meses, resolveu começar a arriscar mais passos. Ao terceiro dia correu na minha direcção — só não foi de cara ao chão porque eu o apanhei. Vai já na terceira semana a andar.
Em contra-senso com título deste texto, não acho nada giro. Sou eu quem fica sozinho em casa com o petiz, agora capaz de chegar onde não chegava, trepar o que não trepava, além de não parar quieto numa divisão da casa, quanto mais num lugar. E muito mais rápido, com coisas nas mãos, cheio de vontade de fazer tudo o que vê fazer. Na creche acham-lhe piada muita piada — equipas de educadores. Em casa, depois de chegar a minha cara-metade (mas só depois de), somos dois a correr atrás. Não imaginam a diversão... Veias a saltar na testa e sentir o coração bater no pescoço é sinal de diversão, não é?
(Vá, estou a exagerar, mas apenas na descrição das veias ondulantes e as carótidas pulsantes.)
Entre o regresso da creche e a chegada da mãe, estou sozinho. É outro nível. É divertido e dá dores de cabeça. É enternecedor e exaspera. Eu explico: brinca mais e melhor, mostra mais habilidades (exibe-se e ri-se muito) e traz abraços a rodos; ao mesmo tempo trepa, estica-se, mexe em tudo, atira-se e aumenta a pressão na minha caixa craniana.
É giro, é... Se ao menos ele mudasse a própria fralda...!

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Um ano e quatro meses depois...

Um ano e quatro meses depois do nascimento do meu primeiro e único descendente, eis que me vejo, com alguma frequência, a fazer as contas às mudanças que o buzico (procurem — é coisa de madeirense) me trouxe.
Começando pela minha juventude aos 40, que me levava a sair à noite ou a ir escrever para os cafés e pubs das redondezas, acabando na possibilidade — frequentemente efectiva — de ficar acordado até altas horas da noite a ver filmes e séries, ou a dar retoques consideráveis naquilo que escrevi durante o dia. Tanto eu como a minha parceira tínhamos por hábito de, pelo menos uma vez por semana, ir namorar ou encontrar amigos pela vida nocturna da cidade onde nos encontrássemos, ou namorarmos por casa à vontade. Destes namoros surgiu a grande mudança.
Hoje, passados 16 meses do nascimento do meu herdeiro, há noitada todas as noites. Todas as noites, pelo menos uma vez por noite, temos que nos levantar (fazemo-lo em equipa), estremunhados e meio-sonâmbulos, para consolar e dar um biberão à sirene que passa por nosso filho. Onde antes tomávamos um ou dois refrescos nocturnos uma a duas noites por semana, agora servimos uma bebida por noite.
Como vivemos longe de família que nos possa ajudar, e quase toda a gente que aqui conhecemos está na fase equivalente à nossa fase pré-parentalidade, torna-se difícil fazermos seja o que for como casal. Esporadicamente, quando algum membro de uma qualquer realeza faz anos, um de nós sai com amigos. O outro tem de ficar em casa, a cuidar do petiz. Ir ao cinema só acontece quando visitamos os avós, à distância de 4 horas de avião.
Os namoricos caseiros são mais limitados no tempo, com hora mais ou menos certa, sempre vigiados de perto pelo monitor que nos informa do sono do petiz (famigerado aparelho!). Isto quando o cansaço permite mais que um beijo e metade de um episódio numa plataforma de streaming.
Ontem (há uns anos atrás), eu recebia uns cobres por cheirar dejectos de raposa e outros animais. Hoje cheiro o rabo ao meu filho de graça — e ainda lhe mudo a fralda, quando a coisa fede.
Não se interprete este meu desabafo como uma queixa — não o é. Apenas aqui registo factos; cada um os julgará como entender. Eu, tendo já entrado nos enta há algum tempo, confesso que ouço  juntas e alguns órgãos internos agradecer-me a desaceleração da tal jovialidade em que me imergia. Sou hoje um homem com um propósito mais fixo, mais enraizado, mais decidido. Tenho um novo amigo com quem tenho longas conversas — umas vezes mudas, outras vezes com tagarelice sem nexo — que me despertam curiosidade e me educam enquanto tento educar. Vê-lo levantar-se pelas primeiras vezes, começar a dar um, dois, três passos de uma vez, vê-lo querer qualquer coisa e esforçar-se, cada vez mais, para se fazer entender com gestos e na, ja e dá, entretém-me (e satisfaz-me) mais que uma saída nocturna por semana.

terça-feira, 28 de maio de 2019

À primeira vista...?

Sempre ouvi — e li — dizer que quando nos nasce um filho há como que uma onda de amor de nos enche de imediato, como um amor à primeira vista, mas mais potente e imediato. Para ser honesto, não senti nada disso.
Quando nasceu o meu filho, estava na sala de partos para acompanhar a minha mulher. Ele saiu cá para fora, e eu mantive o contacto visual com a minha mulher — confesso uma pequena lágrima, num momento de partilha emocional com a minha mulher. Só o fui ver quando a enfermeira, com um tom de voz meio mandão, me chamou para tirar as fotos da praxe. Lá as tirei, com medo de represálias...
Nos três dias que se seguiram, até ser dada alta à minha puérpera e ao meu filho, estive praticamente o tempo todo disponível às visitas paternas com eles. Não o fiz por ele, mas por ela. A minha mulher estava, compreensivamente, física e emocionalmente frágil, numa situação tão nova como estressante. Constantemente observada, debaixo de escrutínio, e algo esgotada, eu não a queria deixar sozinha. Nesse período, claro, tomei conta do meu pequeníssimo filho para que ela pudesse fazer uma ou outra pausa naquela missão constante.
Com o meu filho, no princípio, o que eu sentia, em vez do tal assoberbado amor, era um sentido de responsabilidade. Aquele ser pequenino, bem pequenino e indefeso, estava ali também por minha vontade, logo, cabia-me oferecer-lhe protecção e conforto. Confesso, até, que nos primeiros dois meses cumpri a minha obrigação muitas vezes a contra-gosto, até porque sentia dores de cabeça constantes por não conseguir uma noite de sono completa. De duas em duas horas, pelo menos, tinha aquele estranho e enervante choro a acordar-me, completamente estremunhado, a exigir de mim atenção. Nada agradável e, convenhamos, nada simpático ao desenvolvimento de sentimentos positivos em relação ao petiz. Nessa altura tive a sorte de estar em casa dos meus pais, que nos aliviaram, a mim e à minha mulher, muita da pressão — roupa lavada, refeições, pausas (nunca de mais de uma ou duas horas, por causa da alimentação do bebé, que exigia a presença física da mãe).
O tal amor, que é, realmente, algo difícil de explicar, veio com o tempo. A convivência, o acompanhamento do desenvolvimento físico dele, da personalidade, da abertura dele à relação comigo (dá-me qualquer coisa em troca), tornaram a presença do meu filho em algo de essencial na minha vida. Passei, recentemente, uma semana inteira longe dele e confirmei isso mesmo: o meu dia a dia já não é completo sem ele. Dormi mais, pude deitar-me a diferentes horas (acordei sempre mais ou menos às mesmas...) e pude sair à rua quando quis e como quis; mas já não o queria por mais do que aquela semana.
Pode não ter sido à primeira vista, mas está lá, forte e cheio e com um sorriso de orelha a orelha.

domingo, 5 de maio de 2019

A lágrima paterna

O meu filho adora livros. Não sabe ler — nem falar, apesar de já entender e dar-se a entender mais ou menos bem — mas adora abrir as páginas grossas, de papelão duro, dos livros para crianças pequenas. Folheia-os com diligência, mas impaciente. Quando não consegue virar a página que quer, zanga-se com o livro, castiga-o com um guincho e uma palmada; quando não o atira.
O problema maior, aqui para o pai, é que também acha piada testar-lhes a resistência. Abre-os até a lombada estar totalmente do avesso, puxa uma "folha" a ver o que acontece e, mal apanha uma ponta de página a descolar, tem que descobrir o que está por trás. Um dos seus primeiros livros, sobre animais, está em quatro bocados, com uma ou duas páginas cor de cartão — aí sobram apenas resquícios das educativas ilustrações. Outro livro com animais, que ele adora, com botões com os quais se fazem soar os sons dos animais representados, ainda toca. No entanto, já não tem capa da frente, e a primeira página tem a ilustração presa por quase nada. A electrónica que faz cantar o sapo que pende daquela página está totalmente exposta, e ainda funciona, mas o livro já está condenado enquanto livro inteiro.
Ora, como amante de livros — daqueles que se enfia numa livraria ou biblioteca só para tocar nas páginas e sentir o cheiro de muitos livros juntos —, o pai (aqui presente) sente o coração apertar de cada vez que descobre mais um dano nos livros do petiz. Quando presencia o acto de inocente vandalismo, então, sai-lhe uma lágrima. Tímida, reprimida, lá está ela à janela de cada vez que ouve a lombada ranger às mãos do herdeiro.
Por isso tenho outros livros, dele, guardados para mais tarde. Quando quiser ouvir o pai lê-los, lê-los-ei com vozes de desenho animado e tudo. Até lá... evitemos mais lágrimas.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Febre nervosa...

Há já algum tempo que não escrevia cá nada. Este intervalo deveu-se a obrigações para com o petiz, que andou com febres altas durante demasiado tempo — para o meu gosto.
Num dia foi para a cama com uma febre ligeira, no dia seguinte não foi para a creche porque a febre não tinha baixado. Como não tenho que sair de casa para trabalhar, fiquei com ele. Nada de médicos — estamos num país em que ir ao Hospital, ou mesmo ao consultório do pediatra, antes do terceiro dia de febre, prostração e dificuldades em fazer comer a criança, é coisa de pessoas mal-formadas. É de evitar.
Nesse mesmo dia, mais à tarde, confirmei que o meu filho não sai ao pai no que à febre diz respeito. Eu, passando dos 37,5ºC de febre, estou às portas da morte. Fico de cama — ou sofá — a pensar em epitáfios, indeciso entre pedir doses cavalares de mimo ou eutanásia. Raramente passei dos 38, e nunca passei dos 39 (deduzo que me teria finado, por via de combustão espontânea). O meu filho estava na casa do 39, a roçar os 40, a brincar na mesma. Pronto... estaria um pouco mais rabugento mas, definitivamente, não prostrado. Andou como gosta — com pouca roupa.
Ao quarto dia de febres que chegaram perto dos 41ºC, a não ser que o apanhássemos com vontade de colaborar com a toma de paracetamol. Era domingo, pelo que não dava para ir à pediatra. Ao princípio da tarde, mais um pico de febre com momentos de prostração (só acima dos 40), e eu e a mãe lá nos pusemos a caminho do Hospital pediátrico, empurrando o enfermo no carrinho. 20 minutos a pé, mais ou menos, que dispuseram melhor o meu filho, pelo que fui olhado de lado pela médica quando ele vê um bebé com ar pouco doente à sua frente. Verificados os parâmetros suspeitos, lá nos deu razão: a criança estava de ouvidos e garganta inflamados, apesar de nada ter nos pulmões (ufa!). Com uma receita para xarope para a tosse outra para ibuprofeno, lá voltamos a casa.
Mais dois dias de febres mantidas baixas a medicação, nudez e/ou panos ensopados em água tépida, e não nos foi condenada a ida à pediatra. Estava tudo bem com os pulmões, mas as inflamações resistiam estoicamente, e fomos recambiados para casa com uma receita para um antibiótico.
Na segunda-feira seguinte, semana e meia depois do alarme, voltou à creche. Uma alegria só — das educadoras e de uma menina espanhola de 3 anos, que por alguma razão adora o meu filho. Para ele, foi um alívio face à seca que é estar em casa com o pai. Os fins-de-tarde com a mãe são diários e costumeiros — e menos chatos.
No dia seguinte, de novo no consultório da pediatra. Tinha uma vacina marcada há já um mês. Segundo a senhora, não fazia mal que ele tivesse acabado o antibiótico apenas no dia anterior. Lá fez a vacina e foi para a creche, apenas uma hora depois da hora marcada (tudo devidamente avisado, senão ainda podia ter a polícia à minha procura, para saber se estava tudo bem). Nessa noite, já em casa... 39ºC de febre.
Só foi para a creche hoje.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Caos organizado — dizem

É um rapaz. Ainda não fala mas dá ordens. Não anda mas gatinha rápido demais. É um chato mas encanta com o seu sorriso de malandro. Brinca com tudo e deixa tudo desarrumado, mas... mas nada. Não arruma nada, como seria de esperar pela frescura da sua idade.
Tenho a sala quase sempre pontilhada de brinquedos, peças de brinquedos, livros e peluches. De vez em quando, quando o cansaço e a paciência permitem, eu ou a mãe arrumamos os brinquedos todos, à pazada, para dentro do cesto/mesa-de-centro-com-arrumação. É quase sempre sol de pouca dura, já que, mal o petiz descobre que pouco tem à disposição — o pai não deixa mexer no telemóvel, no tablet ou no computador (que chato!!), e a mãe já se fartou de o deixar mexer no telefone-esperto ou de lhe tirar a mão do candeeiro de sala, cuja estabilidade ele adora testar —, agarra-se à tal mesa-que-tudo-guarda e chora e sacode e levanta até não poder mais. Qualquer dia consegue virá-la... Vai ser bonito.
Lá saem três ou quatro brinquedos, numa tentativa de limitar a desarrumação e manter o herdeiro feliz. Mas o que ele queria é precisamente um dos brinquedos que ficou dentro do cesto. Então o pai faz uma troca: aquele brinquedo sai, aquele a que ele menos atenção prestou volta lá para dentro. Mas depois, afinal, ele queria aquele que eu arrumei. Abro o tampo da mesa e ele agarra-se à borda, e aponta para todos os brinquedos que eu não tenho na mão para lhe dar. Já cheguei a pô-lo dentro do cesto com os brinquedos que restam lá dentro — a maioria das vezes fica-se, acha piada, e dá-me cinco minutos de descanso (está confinado, e não se chateia com isso).
É caótico? Às vezes. Quase sempre, vá. Mas eu lembro-me de a minha mãe me dizer que eu, apesar de desarrumado (eufemismo que até me favorece, no fundo), era organizado. Sabia onde estavam as coisas que mais me interessavam, mesmo que parecesse estar tudo num caos. Se me arrumassem o quarto sem eu lá estar (acontecia de vez em quando, quando a minha mãe já não aguentava ver a confusão em que o meu quarto se tornava), entrava em pânico. Não sabia onde estavam as coisas, ficava chateado porque os legos estavam misturados com os playmobil  nos baldes que a minha mãe me arranjou para eu arrumar essas coisas. Havia lógica na forma como eu (des)arrumava — talvez a roçar o obsessivo-compulsivo; mas só a roçar. Era um caos ordenado, vá.
Não sei se o meu filho é, ou vai ser, assim (se depender da mãe, quando começar a entender o que se lhe diz vai arrumar tudo até à mais pequena agulha), mas sei que ainda não vejo ordem neste caos.
A ver no que dá...

domingo, 31 de março de 2019

O Relatório

A educadora responsável pelo grupo do meu filho lá na creche pediu que fôssemos falar com ela sobre o desenvolvimento do menino, o que fez disparar os alarmes à minha mais-que-tudo. Que há de errado com o nosso filho? Em que é que o desenvolvimento dele corre mal? Da minha parte, não vendo nada de errado com o meu filho, ainda cogitei a hipótese de que alguma das educadoras (ou o educador) o tivessem apanhado a recitar passagens d'A Odisseia de Homero, ou algo assim. Nada disso. Era apenas uma espécie de relatório informativo conversado.
Abalámos logo a seguir ao almoço. Uma épica caminhada de cinco minutos deixou-nos à porta do infantário-barra-creche, que eu abri com o meu cartão electrónico. Aquela porta, a da frente, só abre assim; ou por dentro, depois de devidamente identificado o candidato à entrada. Fomos de imediato recebidos pela nossa interlocutora. Queria evitar que subíssemos e o nosso petiz nos visse antes de ser hora de o ir buscar, daí ter antecipado a nossa chegada — pontualíssima!
Esta mulher, cuja melhor descrição física é a semelhança que lhe vejo à personagem Nanny, do Count Duckula (para a geração imediatamente a seguir, é a Ama, do Conde Patrácula), tanto na postura, no tamanho (ligeiramente mais estreita, vá) e no formato da cara. Levou-nos até à biblioteca (leram bem) e sentou-nos à pequena mesa.
Ficamos a saber uma data de coisas que já sabíamos — o nosso rebento é coerente entre casa e infantário. Sabíamos que já se agacha e levanta de novo com destreza. Que dá passos seguros, seguro a qualquer coisa, também já tínhamos reparado. Estamos fartos de saber que já dá entoação às suas palavras, ou lá o que aquilo é, e que isso é um bom avanço no sentido de falar — em que língua,  é o que ainda se está para ver.
O meu filho ouve uma língua em casa, outra na escolinha. Já parece dizer "dá" quando quer alguma coisa que temos na mão, mas o "não" ainda anda perdido, suspeito que no meio de uma data de sons que volta e meia se assemelham a "nein".
Vai ser difícil, o começo. E percebê-lo quando falar alemão, mais divertido ainda.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Dia do pai, +1

Ontem foi dia do pai, dizem. Foi o meu segundo, sendo que no ano passado eu ainda andava de cabeça à roda com a falta de sono própria do primeiro mês de paternidade, a cabecear a cada dois passos arrastados, sem saber se a boca se abria para falar ou babar. A minha, claro. Este ano o dia foi menos ensonado, mas mais stressante. O meu filho acordou com manchas vermelhas, tridimensionais, principalmente na cara. Pensei em tanta coisa má que o meu subconsciente deve achar, hoje, que é médico. Sem febre, bem-disposto o dia todo, e sem queixas ao toque, o meu filho foi-me deixando mais relaxado.
Já o senhor Google contribuiu, e muito, para que a mãe ficasse mais nervosa — mas sempre composta, que a minha mulher não entra em pânico e só usa o Google para se inteirar de possibilidades, não para procurar diagnóstico médico. Eu, que prefiro o telefone ao senhor Google, fui lembrado pelo meu progenitor (e, ele sim, médico) de que eu, infante quase perfeito que fui, era dado a ocasionais manchas vermelhas tridimensionais. Fungo, esclareceu ele. É deixar passar. Como hoje as manchas eram só uma memória quase imperceptível e o menino nunca se mostrou minimamente preocupado, apostamos numa levíssima reacção alérgica.
Leve, mas pesou-nos sempre no sistema nervoso. O que me ajudou foi que o meu filho me deu uma prenda que me ajudou a relaxar depois de ele adormecer. O meu pequerrucho deu-me, sem saber (a mãe mima o pai), um recipiente que facilita o consumo de bebidas à base de cereais fermentados.

PS: Enquanto escrevia este pequeno texto, o petiz resolveu que seria divertido enfiar-se no meio das almofadas que enfeitam o sofá, e rebolar em direcção ao precipício. Tive que o pôr no chão à segunda vez que o agarrei mesmo antes de cair. Em vez de apanhar um susto, achou piada...

quinta-feira, 14 de março de 2019

A fisiologia em segundo plano

Quando temos um filho, um ser humano pequenino ao nosso cuidado, por quem tudo e todos nos responsabilizam — incluíndo nós mesmos —, as prioridades mudam. Não dormimos mais que duas horas seguidas durante os primeiros dois a três meses de vida do bebé, tornando-nos cacos humanos que sorriem só para não serem acusados de egoísmo — "achavas que ia ser fácil?". Resistimos a procurar o botão de desligar do petiz, como se pode fazer com o alarme de fumo aqui de casa, e aguentamos — que remédio — a dor de cabeça que o ocasional berreiro de origem incógnita nos impõe; o orgulho do papá já começa a ter vontades vincadas. Comemos comida insossa porque ele já está a comer da nossa comida, e há que ter cuidado com o sal — coitada da mãe, que gosta de tudo bem apuradinho. Enfim. É quase o mesmo que um parque de diversões, menos divertido mas mais recompensador (espero!).
Pessoalmente, tenho os meus próprios sacrifícios. Quase não consigo tempo para pegar num livro por mais de 10 minutos. Tenho que encetar duras negociações com a minha doce mais-que-tudo (espero ganhar uns pontos, hein?) para conseguir mais do que uma ou duas horas seguidas de paz e sossego para escrever — ou então roubo tempo ao sono para o conseguir. Se quero ir ao ginásio, raramente tenho outra alternativa senão acordar antes do galo e percorrer a madrugada escura sabendo que, depois do percurso gelado, não posso gozar mais do que uma hora e (muito) pouco de exercício físico e suada introspecção. Mas é de outro sacrifício, menos épico mas igualmente doloroso à sua maneira, que vos queria falar.
Ir à casa de banho. Estou a falar a sério. Estou certo que quem já ficou sozinho a cuidar de uma criança de um ano de idade, por exemplo, me compreende. Para tomar banho, por exemplo, ou levamos a criatura connosco para o duche (não me parece), ou temos que o fazer quando está mais alguém em casa a supervisionar a criança.
Com a experiência, como em tudo, desenvolvemos truques que minimizam a exposição à aflição. Eu, por exemplo, uso dois procedimentos diferentes no que toca a aflição da micção. O mais usado (ufa!) é o de aproveitar quando o menino está a brincar com um brinquedo que exige a sua atenção, mas pouco movimento. Posiciono-o de forma a ficar na minha linha de visão desde a casa de banho, e vou a correr, executo a micção à pressão, e volto para trás, sempre a falar com ele, se for preciso. O outro método é para uso apenas quando a criança apresenta menor vontade para a diversão estacionária, e me obriga a levá-lo comigo. Lá tenho que realizar as manobras necessárias com uma só mão, enquanto a outra segura o irrequieto que, nestas ocasiões, se aquieta e inclina para ver o que se passa lá em baixo. Quer aprender como é, imagino.
Já quando a emergência fisiológica não é uma micção, está o caldo entornado — ou quase. Claro que existe, também aí, a hipótese de o levar comigo, mas só uso essa prerrogativa na eventualidade de a emergência ser inadiável e verdadeiramente... emergente. É certo que lhe mudo muita fralda mal-cheirosa, mas não sou assim tão vingativo nem lhe desejo tal mal. Havendo hipótese de adiamento (felizmente é quase sempre), entro na fase do martírio; a fase em que rezo ao deus menino — o meu menino. "Não estás com sono? Uma soneca agora não te fazia mal nenhum...! Dorme, pá!"
Até agora, como maior ou menor tempo de espera, com maior ou menor luta na hora certa, ele tem atendido às minhas preces. Até o dia, cuja temerosa iminência cresce a passos largos, em que deixa de fazer aquela sesta.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Preocupações explosivas

Uma das maiores preocupações que se instala, de forma permanente, como um inquilino de contrato vitalício, na cabeça de um pai, é a doença do filho. A criança nasce saudável (até prova em contrário), mas o alarme da febre está sempre lá, qual alterações climáticas, para ensombrar qualquer futuro. O vómito e a diarreia, tantas vezes de mão dada como aqueles namoradinhos adolescentes que vazam gosma partilhada num banco da escola, também espreitam, mais violentos para com a ténue e hesitante calma de um pai encarregue da cria.
Já tive alguns sustos, como é de crer que aconteça com todos os pais. Há uns três meses atrás a minha mulher foi chamada (não percebo porque não fui eu, já que já explicamos vezes sem conta que sou eu o primeiro a ser chamado), a ir buscar o petiz à creche, que estava doente. Era um vírus gástrico, aparentemente, e estavam as crianças todas a vomitar e a encher fraldas em cadeia.
Ficamos os dois em casa com ele, nesse dia. No dia seguinte ficamos os dois em casa com ele, outra vez, desta vez porque também eu estava a perder líquidos por ambos os lados, e a minha mulher não me quis deixar sozinho a ter de tratar das fraldas do menino e a tentar não sujar as minhas ao mesmo tempo. Ao terceiro dia, éramos três.
Estava eu a melhorar e o meu filho, com um pico de febre, recostava-se contra o meu peito, apoiado no meu braço esquerdo, só de fralda. Estava mimalho e o pai dava mimo. Confesso que tinha algum receio que me vomitasse em ciam, mas faz parte. Não há fraldas para a boca. Mas há a Lei de Murphy. Sem aviso, senti uma explosão na mão que aninhava o traseiro fraldado do meu filho. A explosão transvasou, e muito, a fralda. Mão, roupa, um bocadinho do sofá, tudo sujo de... Talvez não deva dizer. Digo? Não digo.
Na altura não foi nada divertido. Hoje rio-me; e sinto-me preparado para a próxima.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Há um ano atrás

Foi há um ano atrás, algures entre a uma e as duas da madrugada, que a minha mulher grávida se vira para mim e me anuncia, com uma calma assombrosa, que está na hora. "É agora".
Saltei da cama, corri a vestir-me e levei bolsa e mochila para o carro, a minha mulher a acompanhar-me como quem não tivesse dores nenhumas.
Chegados ao hospital anunciei que a entregaria na porta das urgências, para depois ir estacionar o carro e correr a ter com ela. Recusou, que ainda não estava à rasca. Estava perfeitamente em condições de me acompanhar, a pé, do estacionamento àquela entrada do hospital.
Paramos várias vezes pelo caminho porque, afinal, as contrações já aí estavam. O percurso pedestre demorou mais do que devia, mas aqui o pai serviu bem de bengala e a grávida chegou a bom porto.
Eram 4 e 35 da manhã quando o meu filho saiu cá para fora. "Parecia um bezerro a cair cá para fora", diz, ainda hoje, a mãe. E foi. Estava com pressa de nascer.
Hoje faz um ano e nem dá por isso.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

O paradoxo do calçado

Os pés do meu filho são um frequente motivo de amena discussão. Há, aqui em casa, dois pontos de vista diferentes (pormenores) quanto ao calçado, ou falta dele.
Eu sou da opinião, muito utilitarista e natural, de que o petiz não precisa de andar calçado, já que nem anda. Mesmo depois de começar a andar, mantenho que os pés devem desenvolver-se da forma mais natural possível; logo, descalços sempre que possível. Por isto tudo defendo que não se comprem, sequer, sapatos para um bebé que nem os usa da forma que o sapato deve ser usado. Não é a gatinhar, de certeza, nem a andar (quando andar) de pé como um chimpanzé
A mãe, por sua vez, apesar de concordar que não lhe devemos moldar os pés à laia do calçado, não consegue passar por uns sapatos de bebé sem soltar uma daquelas vocalizações — estranhas para mim — que denunciam que, em vez de trabalhar, estamos a ver um vídeo de um bicho que adoptou um animal bebé de espécie diferente. Diz que, por mais desnecessários que realmente sejam, ficam muito giros. Também mais argumenta, a mãe, que convém que ele tenha algum tipo de sola que não escorregue para esta fase em que se agarra às cadeiras e as leva a dar um passeio, qual andarilho improvisado.
Foi assim que concordamos em usar meias com borracha na sola — pintinhas, ou pastilhas, de borracha. Uso-as eu, e usa-as o meu filho. Não as mesmas, claro. O problema, aqui, é a vontade da vítima das decisões parentais. A vontade dele é andar descalço, de pé pelado — ele quer é andar todo nu, para dizer a verdade. Calço-lhe as meias, solto-o no chão da sala, cinco minutos depois tenho de andar à procura de pelo menos uma meia. No mínimo, puxo-lhe as meias para cima de 10 em 10 minutos. Por vezes até encontro a meia em falta na mão dele, toda babada — ainda não produz chulé, o sortudo.
Claro que ele tem sapatos. Se tem avós, tias, primas, etc, tem sapatos; apesar de eu ter conseguido que tenha poucos. Muito poucos.
Recentemente, os poderes de persuasão da minha mulher (será mais honesto dizer que foi ela quem resistiu ao meu olhar reprovador — ignorou-o) resultaram na compra de um par de sapatos. Como o tamanho está certo, no ponto, os sapatos ficaram bem presos, apesar do saco de enguias em que se transformou o meu filho no momento em que se apercebeu que ia ser calçado. Não saíram de imediato, como todos os outros. Não saíram de todo, apesar dos esforços permanentes do teimoso petiz, frustrado e zangado com a partida pregada.
Até que saíram, as lindas sapatilhas brancas, com ajuda não sei de quem — nego tudo!
Há tempo para calçado. Há tempo para crescer. Há tempo, até, para que ele um dia decida que não quer mesmo usar sapatos. Entretanto, no que depende de mim, calçar-se-á quando for necessário ter o pé protegido das demoníacas pedrinhas da rua, das desarrumadas peças de legos ou das pisadelas dos coleguinhas do infantário. Até lá, por mim, fica-se pelas meias — mesmo que as tenha de andar sempre a devolver aos pés dele.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

“Planos” de viagem

A minha mulher gosta de planear tudo ao pormenor. Eu, de índole um pouco mais laxa, deixo-me ir na onda, já que viajar com um bebé é um delicado equilíbrio entre negociações e confrontos permanentes.
Nesta viagem, o programa, cumprido quase à risca (quando a natureza chama…), para saída de casa correu sobre rodas. Sobre rodas, no sentido de que saímos à hora planeada sem deixar a criança para trás, porque há sempre uma ou outra engrenagem na máquina que precisa de um abanão. Chegamos à estação de comboio com tempo para um café e um bretzel, fizemos a apertada mudança de comboio sem problemas e, preparados para uma viagem descansada, assentamos as nádegas com convicção e alívio. Ora, num total desrespeito pelo programa, o nosso anjo preferiu não assentar no colo de um de nós. Foi a viagem toda a saltar de colo em colo, a reclamar por não o deixarmos andar pelo chão a incomodar os outros passageiros, por não o deixarmos atirar-se ao livro do jovem do lado e por lhe oferecer-mos uma refeição que não estaria ao seu gosto do momento.
Chegados ao aeroporto com tempo de sobra, pensando na hipótese de almoçar com as pernas debaixo de uma mesa, começamos a epopeia de arrastar um carrinho de bebé por um aeroporto vasto e cheio de andares. Elevador aqui, elevador ali, dois deles avariados, procura por alternativas, lá fizemos o check-in cerca de 50 minutos depois da chegada ao aeroporto. A partir deste momento, a criança saltou do carrinho — despachado para o porão do avião — para os braços do progenitor que estivesse mais apto a cada momento. Passamos pela segurança, os três revistados, e só aí paramos para comer. Paramos, verdade seja dita, para comprar duas sandes e bebidas, que tínhamos que ir para a porta de embarque e dar de comer ao petiz, e o tempo já não estava do nosso lado.
No avião, ainda sem dormir a sesta da manhã e sendo já hora da sesta da tarde, eu e a minha mulher esperávamos ter um voo relativamente calmo. O meu filho tinha outra ideia. Porque raio havia ele de ficar quieto no colo quando tem aqui tanta coisa nova (ainda não fez um ano e já viajou de avião mais vezes que muita gente numa vida)? Aquela espécie de persiana, a que é suposto estar aberta durante a descolagem e a aterragem, foi um regabofe de abre-e-fecha. Quando a minha mulher resolve parar a brincadeira e tentamos distraí-lo, fez um curto solilóquio tão convincente — e estridente — que o passageiro da frente lhe deitou um olhar grave. Sem dúvida, um apreciador das artes cénicas, mas pouco dado a comédias.
Entre gargalhadas e birrinhas, mudando de colo de cada vez que os esforços para o adormecer começavam a surtir efeito, lá foi, acordado e mexido, a trazer sorrisos embevecidos à alemã que estava ao meu lado.
Indeciso entre colos, adormeceu — finalmente! — esticado sobre os dois. Faltava uma hora para o fim de um voo de três, e tanto eu como a minha mulher começamos a sentir a pressão na bexiga que ninguém quer sentir quando tem uma criança, que demorou a adormecer, no colo. Secretamente — não digam à minha mulher! — desejei que acordasse. Não tive tal sorte, e a esperança pelo conforto e boa saúde do meu tracto urinário esfumou-se quando o sinal de apertar o cinto se acendeu sobre a cabeça do passageiro da frente.
Bem… o menino dormia profundamente, de faces rosadas, e era preciso pôr-lhe o cinto. A minha mulher, num feito de grande habilidade que eu quase estraguei uma ou duas vezes, conseguiu apertar aquela coisa à volta dele, quase sem tocar nele. A minha vizinha alemã quase aplaudia, impressionada. Cinco minutos depois, a hospedeira, solícita e ciente do seu dever, vem insistir connosco, cheia de “I’m sorry”, que a criança tem de ir sentada. Sorrimos, assentindo, e procrastinamos a manobra, ganhando mais alguns minutos. Acordou, claro, e pediu o livro de reclamações. O dos pais, claro.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Um feliz medalhado — e muito

Há coisas que só um progenitor, e cuidador, merece. Merece o olhar calmo e confiante que o seu petiz descansa nele, fazendo-o sentir que é porto seguro. Merece a felicidade de ver as pequenas evoluções diárias, esses pequenos degraus de orgulho parental. Merece a gargalhada virgem, cor-de-rosa, de dentes raros, que soa a felicidade despreocupada. Acima de tudo, merece as medalhas.
A minha primeira medalha foi-me entregue ainda estavam mãe e filho no hospital. Peguei no pequerrucho — cabia-me entre os dedos e a parte de dentro do cotovelo — e levei-o ao ombro, ainda a medo, sem saber bem como fazê-lo arrotar. Fui medalhado do ombro à parte de baixo da omoplata. Aquela camisola exibiu a medalha, retocada a toalhitas para bebé, até eu me decidir a ir para casa. Já sabia fazê-lo arrotar, já sabia que era melhor fazê-lo com uma fralda por cima do ombro, e tinha a medalha para o provar.
Entretanto, passados onze meses, fui medalhado de muitas formas diferentes, muitas peças de roupa diferentes, muitos locais diferentes, muitas medalhas diferentes.
A medalha mais rara — recebi duas, evitei uma terceira por pouco — recebi pela primeira vez ao mudar a fralda ao meu anjinho. Estava a preparar a fralda a colocar, segurando os pés do menino com uma mão, toalhita no aspersor masculino para evitar medalhas líquidas, e tal. Tudo como mandam os regulamentos de segurança e eficácia na troca de fralda. Levantei o traseiro ao menino, deslizei a fralda para baixo do dito cujo, mão dentro da fralda (erro de principiante), quando o anjo resolveu que ainda não tinha feito tudo. Fiquei com a mão medalhada, a roupa ligeiramente aspergida a medalha, e a colcha da cama medalhada. Foi uma medalha daquelas…!
Hoje a qualidade das medalhas é outra, apesar de, ainda esta semana, o meu petiz me tenha tentado recordar do tempo em que evitava medalhas com a toalhita em cima do instrumento de masculinidade. Há muito que não acontecia, mas lá saiu esguicho; que evitei com uma agilidade acima da média, provando a utilidade de todas as medalhas anteriores. Só medalhou o protector descartável — que serve para isso mesmo.
Dizia eu que as medalhas são diferentes. Hoje são mais frequentes, porque o nariz dele não pára de as produzir em série, e ele não pára de esfregar a narina na minha roupa. Já uso roupa própria para estar em casa com ele, onde pode medalhar à vontade. Tenho medalhas impressionantes nas calças de treino que visto neste momento. A camisola, que só uso mesmo em casa, tem faixas em vez de medalhas. São pares de linhas paralelas com um brilhozinho vítreo, muito decorativo, algumas de quase dois palmos de comprimento. Ficam-me a matar. Eu mereço-as todas; tanto medalhas como faixas.
Não pensem que estou a ser sarcástico — vá, estou; só um bocadinho. Para mim, estas medalhas, sejam fruto de devolução gástrica, de micção não controlada, de evacuação de tripa ou limpeza do sótão (e não me posso esquecer das medalhas de desperdício alimentar), são motivo de orgulho. Quer dizer que sou pai de uma criança saudável, e que eu estou lá para as receber. São medalhas de presença, por assim dizer. Para mim, muito valiosas.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O que vale é que ele dorme certinho

O meu filho, agora, dorme certinho. Foi preciso algum trabalho, alguma paciência, mas o rapaz já dorme certinho.
Lembro-me de ter dificuldades em adormecer tal eram os nervos por não saber a que horas soaria o alarme de pulmão do meu filho. Era dentes, coitado. Era fome, coitado. Era fralda cheia, coitado. Era sabe-se lá o quê, coitado. Só não eram coitados os pais, com sonos de menos de 4 horas de cada vez. As rotinas diárias eram dolorosas, muitas vezes incompreensíveis, tal era o estado de liquefacção do nosso cérebro. Houve alturas em que não sabia falar; limitava-me a empurrar um longo e contínuo grunho entre os lábios pendentes.
Era particularmente difícil para mim, que sempre fui uma ave nocturna. Para dormir horas decentes, tive de começar a deitar-me cedo para cedo erguer. Ah!, e habituar-me a dormir aos bochechos. Fácil. Mesmo fácil. Como um tratamento de canal.
Hoje, o que vale é que ele dorme certinho. Sim; já não acorda a horas aleatórias da madrugada. Agora acorda sempre entre as 4h30 e as 6h30. Apenas uma vez. Apenas. Dorme certinho.
Como sou eu o progenitor que cuida dele em casa, tento seguir os conselhos de quem sabe. Dormir quando ele dorme, dizem. Muito útil. O problema é que, algumas vezes, o petiz adormece só depois de uma birra que me põe de nervos bem despertos, o que não facilita no propósito de adormecer logo a seguir e acompanhá-lo no sono. Um tipo deita-se na cama — ou no sofá — e fica a pensar em adormecer. Quando finalmente adormece, ainda tem uns 15 longos minutos para dormir antes de acordar, em pleno acto de adormecer, com a criança a declarar-se descansada a pleno e estridente pulmão. Faz bem à pele, dormir aos sprints.
Além disso, há afazeres a fazer. Há escritos a escrever. Para alguém que nunca foi lá muito organizado de tempo, não é fácil ter de encaixar a manhã (à tarde ele vai para a creche) toda em duas horas que raramente passam de uma. O resto da manhã é passada a brincar com ele, e a fazer coisas que não me distraiam muito do já bastante activo filho, que muita felicidade me dá — apesar deste meu queixume. O que vale é que ele dorme certinho.
Hoje, por exemplo, escrevo-lhes estas palavras antes de ele acordar para o dia, depois da sessão de ronha e mudança de fralda das 6 da matina. Não voltei para a cama, pronto.
E ele? Ele dorme certinho.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Vamos lá com calma, que dá tempo

Decidi-me a inaugurar esta minha pretensiosa crónica da paternidade, que já está a cozer há quase tanto tempo quanto tempo eu sou pai (10 meses e meio), com uma preocupação que me atingiu como uma pedrada recentemente.
O meu descendente rasteja. Fá-lo desde os 6 meses, altura em que também começou a querer pôr-se em pé, bem agarrado às coisas. Atira-se ao seu percurso com a graciosidade de uma foca em terra, e desloca-se em arrancadas em que o diafragma serve de ski de trenó. Ou rastejava.
Não é que lhe fosse impossível pôr-se de gatas, mas a vertigem (imagino) da velocidade imediata, apesar de soluçada, faziam-no escolher a barriga puxada a braçadas como meio de locomoção. Confesso que sentia um misto de preocupação e de gozo, já que usava os braços de forma diferente — potencial desequilíbrio no desenvolvimento do sistema músculo-esquelético — mas era muito eficiente neste meio de locomoção. E cómico. Muito cómico.
Há cerca de um mês, além de mais eficiente a levantar-se — sempre agarrado a pernas, sejam de cadeiras, mesas ou as dos progenitores —, o meu filho começou a gatinhar. A gatinhar mesmo, de fralda a a abanar com o movimento dos joelhos por baixo da anca, diafragma dispensado da sua função de ski, e igual diversão da criança. Que felicidade! Ou não...?
Onde antes ele apenas se locomovia quando tinha um objectivo que nós identificávamos, agora move-se constantemente, por vezes sem rumo. A sequência de arrancadas que o levavam ao fio eléctrico mais próximo, por mais escondido ou protegido estivesse, tornou-se, de repente, numa teia de possibilidades em velocidade e preocupação constante. Eu não descanso, a não ser que o ponha dentro da cerca — que deixo quase sempre aberta, uma vez que todos os brinquedos estão lá dentro (funciona. Às vezes).
O que é que vem a seguir? Só imagino.
No outro dia, vínhamos do infantário, ele bem quentinho no carrinho, pus-me a pensar na evolução dele, na forma como se levanta muito bem, como se senta melhor ainda e como já se segura apenas com uma mão e passa para a perna seguinte. "Talvez ande dentro de pouco tempo", pensei, cheio de orgulho.
Ia assim o meu pensamento, enquanto dizia baboseiras ao meu filho — para o distrair —, quando, a uns 15 metros da última passadeira no caminho para casa, vejo uma senhora encasacada a largar um carrinho semelhante ao do meu filho e desatar a correr. Parecia um pinguim, sejamos honestos, na sua passada graciosa. Numa das passadas, em que a corredora adorna um pouco mais, vislumbrei um bracinho pequenino a sacudir à frente da senhora. Percebi, então, que a mulher tinha posto a sua criança no chão, e esta tinha desatado a correr em direcção à passadeira. A menina (sim, era uma menina, pelo menos a julgar pelo penteado e vestimentas definidoras de género com que os pais oprimem a sua prole) estava divertidíssima a ver a mãe correr atrás dela, ambas com a destreza de um pato.
Filho, não tenhas pressa. Podes andar à vontade, digamos, quando estiveres pronto a assumir tu a responsabilidade pela tua segurança, ok? Até lá, reitero, não tenhas pressa.