quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Varões e dominâncias

Sou pai de um varão. Desde cedo, nas ecografias a que se foi sujeitando a mãe, exibia a pila com alguma arrogância, pelo que não surpreendeu ninguém. É um varão tóxico, daqueles que se agarram com gula aos bustos das educadoras mais roliças, que parecem adorá-lo e se riem da sua postura de mandão, de dedo despoticamente apontado ao ar enquanto balbucia ordens que ninguém compreende. Usa "sim", "ja", "não" e "nein" com autoridade, já diz "mi'a" e "mein" com autoridade, mas já se esqueceu do "dá-gn" — que eu interpretava como "dá-me". Mais tóxico ainda, condescende frequentemente com um "'bigád'" que deixa os pais derretidos.
No passado fim-de-semana, num teste ligeiro à minha resistência mental, a minha esposa levou os seus homens às compras. Para minha sorte, não é coisa de que ela goste de fazer por fazer, e fá-lo frequentemente pelas lojas virtuais, pelo que só faz compras presencialmente quando a especificidade o exige. Ainda por cima, queria peças de biquini e uma ou outra peça de roupa interior. Vi-me, por apenas — a minha tolerância é baixa, e tenho uma mulher que me habitua mal — duas ou três dezenas de minutos, a cuidar do meu varão entre filas de expositores carregados de sutiãs e cuecas, dos mais variados tamanhos, feitios e materiais nas cores da moda.
Se, há pouco tempo atrás — ainda não tinha eu gerado prole —, estas aventuras me eram penosas, imagine-se sendo responsável por entreter o meu varão, que adquiriu, recentemente, a habilidade de andar erecto e bípede. Que fique quieto é vã esperança.
Tentou conversar com quase todas as senhoras que por ele passaram. Entre sorrisos despachados e carrancas rosnadas ninguém o entendia. Perseguiu a mãe, perdida entre os expositores, para a ajudar a aliviar os cabides e espalhar as cuecas pelo chão — para uma inspecção mais eficaz e aturada. Resmungou, umas vezes mais estridente que outras, por ver os seus movimentos tolhidos pelo colo do pai. Quando percebia que ficando calmo seria devolvido à liberdade — vigiada! —, lá regressava à sua exploração dos expositores. A certa altura, por mero acaso, pôs o olho e a vontade exploratória numa escada rolante. Tentou correr, o pai correu mais, colhemos ambos os olhares de reprovação e/ou gozo e lá fomos de volta aos sutiãs; eu adernado pelo peso dele na minha anca, ele a reclamar na sua língua privada. Depois fomos almoçar em família, onde ele comeu de tudo um pouco, excepto as batatas fritas da mãe; aí comeu o que deixamos. Dominância certificada.
Em casa, nessa mesma tarde, o meu varão resolveu testar a minha própria condição de varão e, quem sabe, privar-me dessa condição. No meio de uma discordância de opinião acerca do que ele pode, ou não, fazer com as gavetas da cômoda da sala, esperneou. Um dos seus calcanhares, mais veemente na reclamação, acertou-me em cheio no escroto — e tudo o que isso implica. Só mantive a minha posição de varão dominante porque o mantive dentro dos meus braços, enquanto me deitei, aos bocados, no chão. Larguei-o, mais uma vez, depois de se acalmar. Eu ainda fiquei quieto — tinha que meditar um bocado acerca dessa coisa tóxica que é a masculinidade. Por momentos, duvidei que mantivesse a minha.
Eventualmente recuperei da dor... e o juízo.

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