domingo, 5 de maio de 2019

A lágrima paterna

O meu filho adora livros. Não sabe ler — nem falar, apesar de já entender e dar-se a entender mais ou menos bem — mas adora abrir as páginas grossas, de papelão duro, dos livros para crianças pequenas. Folheia-os com diligência, mas impaciente. Quando não consegue virar a página que quer, zanga-se com o livro, castiga-o com um guincho e uma palmada; quando não o atira.
O problema maior, aqui para o pai, é que também acha piada testar-lhes a resistência. Abre-os até a lombada estar totalmente do avesso, puxa uma "folha" a ver o que acontece e, mal apanha uma ponta de página a descolar, tem que descobrir o que está por trás. Um dos seus primeiros livros, sobre animais, está em quatro bocados, com uma ou duas páginas cor de cartão — aí sobram apenas resquícios das educativas ilustrações. Outro livro com animais, que ele adora, com botões com os quais se fazem soar os sons dos animais representados, ainda toca. No entanto, já não tem capa da frente, e a primeira página tem a ilustração presa por quase nada. A electrónica que faz cantar o sapo que pende daquela página está totalmente exposta, e ainda funciona, mas o livro já está condenado enquanto livro inteiro.
Ora, como amante de livros — daqueles que se enfia numa livraria ou biblioteca só para tocar nas páginas e sentir o cheiro de muitos livros juntos —, o pai (aqui presente) sente o coração apertar de cada vez que descobre mais um dano nos livros do petiz. Quando presencia o acto de inocente vandalismo, então, sai-lhe uma lágrima. Tímida, reprimida, lá está ela à janela de cada vez que ouve a lombada ranger às mãos do herdeiro.
Por isso tenho outros livros, dele, guardados para mais tarde. Quando quiser ouvir o pai lê-los, lê-los-ei com vozes de desenho animado e tudo. Até lá... evitemos mais lágrimas.

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