terça-feira, 28 de maio de 2019

À primeira vista...?

Sempre ouvi — e li — dizer que quando nos nasce um filho há como que uma onda de amor de nos enche de imediato, como um amor à primeira vista, mas mais potente e imediato. Para ser honesto, não senti nada disso.
Quando nasceu o meu filho, estava na sala de partos para acompanhar a minha mulher. Ele saiu cá para fora, e eu mantive o contacto visual com a minha mulher — confesso uma pequena lágrima, num momento de partilha emocional com a minha mulher. Só o fui ver quando a enfermeira, com um tom de voz meio mandão, me chamou para tirar as fotos da praxe. Lá as tirei, com medo de represálias...
Nos três dias que se seguiram, até ser dada alta à minha puérpera e ao meu filho, estive praticamente o tempo todo disponível às visitas paternas com eles. Não o fiz por ele, mas por ela. A minha mulher estava, compreensivamente, física e emocionalmente frágil, numa situação tão nova como estressante. Constantemente observada, debaixo de escrutínio, e algo esgotada, eu não a queria deixar sozinha. Nesse período, claro, tomei conta do meu pequeníssimo filho para que ela pudesse fazer uma ou outra pausa naquela missão constante.
Com o meu filho, no princípio, o que eu sentia, em vez do tal assoberbado amor, era um sentido de responsabilidade. Aquele ser pequenino, bem pequenino e indefeso, estava ali também por minha vontade, logo, cabia-me oferecer-lhe protecção e conforto. Confesso, até, que nos primeiros dois meses cumpri a minha obrigação muitas vezes a contra-gosto, até porque sentia dores de cabeça constantes por não conseguir uma noite de sono completa. De duas em duas horas, pelo menos, tinha aquele estranho e enervante choro a acordar-me, completamente estremunhado, a exigir de mim atenção. Nada agradável e, convenhamos, nada simpático ao desenvolvimento de sentimentos positivos em relação ao petiz. Nessa altura tive a sorte de estar em casa dos meus pais, que nos aliviaram, a mim e à minha mulher, muita da pressão — roupa lavada, refeições, pausas (nunca de mais de uma ou duas horas, por causa da alimentação do bebé, que exigia a presença física da mãe).
O tal amor, que é, realmente, algo difícil de explicar, veio com o tempo. A convivência, o acompanhamento do desenvolvimento físico dele, da personalidade, da abertura dele à relação comigo (dá-me qualquer coisa em troca), tornaram a presença do meu filho em algo de essencial na minha vida. Passei, recentemente, uma semana inteira longe dele e confirmei isso mesmo: o meu dia a dia já não é completo sem ele. Dormi mais, pude deitar-me a diferentes horas (acordei sempre mais ou menos às mesmas...) e pude sair à rua quando quis e como quis; mas já não o queria por mais do que aquela semana.
Pode não ter sido à primeira vista, mas está lá, forte e cheio e com um sorriso de orelha a orelha.

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