Decidi-me a inaugurar esta minha pretensiosa crónica da paternidade, que já está a cozer há quase tanto tempo quanto tempo eu sou pai (10 meses e meio), com uma preocupação que me atingiu como uma pedrada recentemente.
O meu descendente rasteja. Fá-lo desde os 6 meses, altura em que também começou a querer pôr-se em pé, bem agarrado às coisas. Atira-se ao seu percurso com a graciosidade de uma foca em terra, e desloca-se em arrancadas em que o diafragma serve de ski de trenó. Ou rastejava.
Não é que lhe fosse impossível pôr-se de gatas, mas a vertigem (imagino) da velocidade imediata, apesar de soluçada, faziam-no escolher a barriga puxada a braçadas como meio de locomoção. Confesso que sentia um misto de preocupação e de gozo, já que usava os braços de forma diferente — potencial desequilíbrio no desenvolvimento do sistema músculo-esquelético — mas era muito eficiente neste meio de locomoção. E cómico. Muito cómico.
Há cerca de um mês, além de mais eficiente a levantar-se — sempre agarrado a pernas, sejam de cadeiras, mesas ou as dos progenitores —, o meu filho começou a gatinhar. A gatinhar mesmo, de fralda a a abanar com o movimento dos joelhos por baixo da anca, diafragma dispensado da sua função de ski, e igual diversão da criança. Que felicidade! Ou não...?
Onde antes ele apenas se locomovia quando tinha um objectivo que nós identificávamos, agora move-se constantemente, por vezes sem rumo. A sequência de arrancadas que o levavam ao fio eléctrico mais próximo, por mais escondido ou protegido estivesse, tornou-se, de repente, numa teia de possibilidades em velocidade e preocupação constante. Eu não descanso, a não ser que o ponha dentro da cerca — que deixo quase sempre aberta, uma vez que todos os brinquedos estão lá dentro (funciona. Às vezes).
O que é que vem a seguir? Só imagino.
No outro dia, vínhamos do infantário, ele bem quentinho no carrinho, pus-me a pensar na evolução dele, na forma como se levanta muito bem, como se senta melhor ainda e como já se segura apenas com uma mão e passa para a perna seguinte. "Talvez ande dentro de pouco tempo", pensei, cheio de orgulho.
Ia assim o meu pensamento, enquanto dizia baboseiras ao meu filho — para o distrair —, quando, a uns 15 metros da última passadeira no caminho para casa, vejo uma senhora encasacada a largar um carrinho semelhante ao do meu filho e desatar a correr. Parecia um pinguim, sejamos honestos, na sua passada graciosa. Numa das passadas, em que a corredora adorna um pouco mais, vislumbrei um bracinho pequenino a sacudir à frente da senhora. Percebi, então, que a mulher tinha posto a sua criança no chão, e esta tinha desatado a correr em direcção à passadeira. A menina (sim, era uma menina, pelo menos a julgar pelo penteado e vestimentas definidoras de género com que os pais oprimem a sua prole) estava divertidíssima a ver a mãe correr atrás dela, ambas com a destreza de um pato.
Filho, não tenhas pressa. Podes andar à vontade, digamos, quando estiveres pronto a assumir tu a responsabilidade pela tua segurança, ok? Até lá, reitero, não tenhas pressa.
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