Desde o início, tanto eu como a minha mulher achamos piada às dentadinhas simuladas com que mimamos o nosso descendente. É meio parvo, mas acontece. Acontece que, dado o exemplo vindo de cima, o nosso petiz lá começou a fazer o mesmo. A princípio, antes do surgimento da dentição, só chateava porque era baba a rodos. Entretanto surgiram os dentes.
Os primeiros dentes, aqueles incisivos que parecem agulhas, marcava-nos a pele sem piedade. Ele mordia principalmente mãos e dedos — inclusivamente dos pés, quando nos apanhava descalços. À medida que a força da dentada crescia, como crescia o número de dentes, a nossa demonstração de desagrado, sempre o mais carinhosa mas veemente possível, foi contribuindo para que aquela mania das dentadas fosse passando. Tenho até ideia de que não houve reclamações na creche por causa do uso indevido da dentição. (Imagino que todas as crianças mordam, a certa altura do desenvolvimento, mas não me parece que ele tenha por lá mordido o suficiente para gerar queixa.)
Foi passando, e a frequência das dentadas diminuiu. Mesmo assim, muito de vez em quando, ainda lhe dá na cabeça morder, no meio de gargalhadas que nada têm de maléficas mas me aterrorizam quando associo às dentadas, repetidas vezes em pouco minutos e apesar das nossas micro-fugas e suaves prisões. A mania de morder evoluiu e os alvos mudaram. Mantendo, ainda, o dedo grande como alvo muito ocasional, o meu filho agora faz, também muito de vez em quando, um ataque-surpresa. Corre na nossa direcção, sentados no sofá, e irrompe por entre os joelhos enquanto atira uma dentada, já com força, à coxa. O alvo favorito destes ataques é a mãe que, por sentar de perna mais fechada, acaba por levar os beliscões dentários logo acima do joelho. Eu tenho sofrido pouco com estes ataques. Mas não há bem que dure sempre.
Um dia, há cerca de um mês e penso que a última vez que o vi (senti) fazer um destes ataques, cheio de gargalhadas e sorrisos lindos (o malandreco), estou distraído com a televisão quando o meu filho desata a correr, ainda atabalhoadamente, na minha direcção. Não reagi, porque não vi. Quando me apercebi já ele se agarrava às minhas coxas e avançava sem oposição. Maldita posição masculina, de pernas abertas. Fincou-me os dentes o mais longe que conseguiu ir, que foi até ao fim. O beliscão aferroou-se-me em cheio no escroto — e eu não estava de calças de ganga... Ensinei, inadvertidamente, um palavrão ao meu filho.
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