A minha mulher gosta de planear tudo ao pormenor. Eu, de índole um pouco mais laxa, deixo-me ir na onda, já que viajar com um bebé é um delicado equilíbrio entre negociações e confrontos permanentes.
Nesta viagem, o programa, cumprido quase à risca (quando a natureza chama…), para saída de casa correu sobre rodas. Sobre rodas, no sentido de que saímos à hora planeada sem deixar a criança para trás, porque há sempre uma ou outra engrenagem na máquina que precisa de um abanão. Chegamos à estação de comboio com tempo para um café e um bretzel, fizemos a apertada mudança de comboio sem problemas e, preparados para uma viagem descansada, assentamos as nádegas com convicção e alívio. Ora, num total desrespeito pelo programa, o nosso anjo preferiu não assentar no colo de um de nós. Foi a viagem toda a saltar de colo em colo, a reclamar por não o deixarmos andar pelo chão a incomodar os outros passageiros, por não o deixarmos atirar-se ao livro do jovem do lado e por lhe oferecer-mos uma refeição que não estaria ao seu gosto do momento.
Chegados ao aeroporto com tempo de sobra, pensando na hipótese de almoçar com as pernas debaixo de uma mesa, começamos a epopeia de arrastar um carrinho de bebé por um aeroporto vasto e cheio de andares. Elevador aqui, elevador ali, dois deles avariados, procura por alternativas, lá fizemos o check-in cerca de 50 minutos depois da chegada ao aeroporto. A partir deste momento, a criança saltou do carrinho — despachado para o porão do avião — para os braços do progenitor que estivesse mais apto a cada momento. Passamos pela segurança, os três revistados, e só aí paramos para comer. Paramos, verdade seja dita, para comprar duas sandes e bebidas, que tínhamos que ir para a porta de embarque e dar de comer ao petiz, e o tempo já não estava do nosso lado.
No avião, ainda sem dormir a sesta da manhã e sendo já hora da sesta da tarde, eu e a minha mulher esperávamos ter um voo relativamente calmo. O meu filho tinha outra ideia. Porque raio havia ele de ficar quieto no colo quando tem aqui tanta coisa nova (ainda não fez um ano e já viajou de avião mais vezes que muita gente numa vida)? Aquela espécie de persiana, a que é suposto estar aberta durante a descolagem e a aterragem, foi um regabofe de abre-e-fecha. Quando a minha mulher resolve parar a brincadeira e tentamos distraí-lo, fez um curto solilóquio tão convincente — e estridente — que o passageiro da frente lhe deitou um olhar grave. Sem dúvida, um apreciador das artes cénicas, mas pouco dado a comédias.
Entre gargalhadas e birrinhas, mudando de colo de cada vez que os esforços para o adormecer começavam a surtir efeito, lá foi, acordado e mexido, a trazer sorrisos embevecidos à alemã que estava ao meu lado.
Entre gargalhadas e birrinhas, mudando de colo de cada vez que os esforços para o adormecer começavam a surtir efeito, lá foi, acordado e mexido, a trazer sorrisos embevecidos à alemã que estava ao meu lado.
Indeciso entre colos, adormeceu — finalmente! — esticado sobre os dois. Faltava uma hora para o fim de um voo de três, e tanto eu como a minha mulher começamos a sentir a pressão na bexiga que ninguém quer sentir quando tem uma criança, que demorou a adormecer, no colo. Secretamente — não digam à minha mulher! — desejei que acordasse. Não tive tal sorte, e a esperança pelo conforto e boa saúde do meu tracto urinário esfumou-se quando o sinal de apertar o cinto se acendeu sobre a cabeça do passageiro da frente.
Bem… o menino dormia profundamente, de faces rosadas, e era preciso pôr-lhe o cinto. A minha mulher, num feito de grande habilidade que eu quase estraguei uma ou duas vezes, conseguiu apertar aquela coisa à volta dele, quase sem tocar nele. A minha vizinha alemã quase aplaudia, impressionada. Cinco minutos depois, a hospedeira, solícita e ciente do seu dever, vem insistir connosco, cheia de “I’m sorry”, que a criança tem de ir sentada. Sorrimos, assentindo, e procrastinamos a manobra, ganhando mais alguns minutos. Acordou, claro, e pediu o livro de reclamações. O dos pais, claro.
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