quarta-feira, 19 de maio de 2021

Tentativa de patricídio

Já aqui me queixei da tendência que o meu filho tem, quase sempre por azar (meu), em acertar-me uma pancada ou outra nas partes baixas. Até cabeçadas já levei, correndo ele na minha direcção para me abraçar, com demasiada vontade, quando tinha a testa na altura certa para me acertar em cheio. Esta semana, num só momento entre pai e filho, a coisa tomou características preocupantes.

Quem me conhece sabe que não sou um homem alto, mas também não sou pequeno. Tive uma infância muito fisicamente activa, pratiquei karaté na pré-adolescência e passei a adolescência a dar à pagaia em cima de um caiaque (e correspondente treino de ginásio). Talvez por isso, tolero um pouco além do normal as brincadeiras mais truculentas do meu filho.

Num desses momentos, fui apanhado de surpresa por uma carga bem disposta do meu filho. Se lhe vissem o sorriso querido e fofo que lhe brilhava na cara quando, ao ver-me entrar pela sala dentro, correu na minha direcção de mãos fechadas na ponta dos braços, esticados para a frente — qual Super-homem. Não tive tempo de me proteger. Acertou-me bem perto da zona proibida, ainda causando alguma dor (mesmo que psicológica). Fiz uso, de imediato, do jogo psicológico que tem dado resultado, que foi fazer-me de magoado para lhe puxar pela empatia, para saber que aquela brincadeira magoa. Deixei-me cair no chão, de barriga para baixo, dizendo que estava magoado. Esperava que ele reagisse como é normal e costume dele: que me viesse dar um abraço e um beijinho. Desiludi-me.

Vendo-me deitado abaixo, à sua mercê, o meu amoroso filho saltou-me para cima das costas e saltou três vezes, enquanto se ria às gargalhadas. Estaria o meu filho a querer matar-me? Suei em frio, cheio de medo. Medo de reagir, já que estávamos bastante perto de cadeiras, a minha poltrona e uma pequena cómoda, e eu não queria que, ao virar-me ou mexer-me, ele fosse cair contra uma destas esquinas.

"Fingi" chorar (chorava por dentro — o meu filho herdou a sua tendência dramática de algum lado...) e, mal senti que estava de quatro em cima de mim, virei-o para o lado mais seguro e fui amuar (mais uma vez, dramático) para o sofá, à espera do beijinho de desculpas. Obtive-o.

O terror ficou (mais drama...!).

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