O meu filho mudou de infantário em Março — a burocracia assim o exigiu. Podia ter continuado no anterior, mas uma pequena falha na nossa interpretação dos lineares trâmites da monolítica burocracia teutónica levou à mudança. Está agora, o meu filho, com crianças mais velhas (dos 4, a fazer 5, aos 6). Ele acabou de fazer 3. A verdade é que, até agora, esta mudança não parece ter traumatizado o petiz por aí além, ao contrário do que a potencial úlcera do pai teimou em antever. Tem mais espaço exterior para se espalhar, correr, escangalhar, esticar, esbardalhar e andar nuns triciclos fantásticos (confesso ter alguma inveja). Também aprende mais alemão, e isto das línguas está a dificultar o desenvolvimento verbal do rapaz. Entende perfeitamente ambas as línguas, mas ainda só usa raras frases curtas, palavras soltas (mas bem aplicadas) e dedos apontados e cheios de birra.
Outra consequência desta mudança, para mais longe (passei de gastar 5 minutos a ir buscá-lo a pé, para 20 minutos), é que começamos a usar a bicicleta para o levar mais rápido para a escolinha (adora empatar...). É uma bicicleta sem pedais, útil para lhe treinar o equilíbrio, com aspecto racer, amarelo torrado brilhante e apliques em preto. Está nas nuvens, o pequeno. E eu encontrei uma forma de fazer algum exercício aeróbio — o burocrata alemão proibiu-me de ir ao ginásio — sem ter que me andar a forçar a andar por aí a correr sem rumo. Corro atrás do meu filho quando ele acelera para o meio de pessoas e estradas, e já fico bastante suado. Uma vez até fiz um pouco de exercício de força quando tive que transportar filho e bicicleta, porque sua excelência decidiu que já não queria andar — nem bicicleta, nem bota — e eu estava com pressa. Tive sorte que foi sol de pouca dura.
Hoje (já o vou buscar daqui a pouco) vou alombar a bicicleta até ele. De manhã, ao sair de casa com a mãe, decidiu que não queria ir de bicicleta ou carrinho, que ia a pé como a mãe. Como imaginamos que seja difícil forçar uma criança a sentar-se num carrinho, ou a andar de bicicleta, eu e a mãe (principalmente a mãe, que é quem tem a responsabilidade de o levar) acedemos. Escusado será dizer que, quando se apercebeu que a sua jogada de poder tinha resultado na ausência de brincadeira na bicicleta até à escolinha, mudou de ideias. Segundo a minha mulher, já estavam a uma distância de casa que implicaria perder mais uns 5 minutos e passar pelos semáforos da rua principal aqui perto. Foi a pé, que ainda por cima a mãe tem hora para chegar ao local de trabalho.
A verdade é que, com esta mudança, o equilíbrio e a destreza do meu filho sobre duas rodas estão a melhorar a olhos vivos. Está de tal forma que começo a sentir a falta de um travão naquela traquitana amarela. Eu e a minha mulher, sócios nesta coisa de acompanhar o crescimento do petiz, já nos vemos forçados a considerar uma bicicleta a sério, com travão e — imagine-se(!) — pedais. Sem rodinhas; se se equilibra nesta, equilibra-se noutra. Mas aí vem outra questão: se a nova bicla vem com o descanso do travão, também vem com a velocidade do pedal...
Terei de ir de bicicleta, também... e uma guia a unir as duas? (Antevejo joelhos e mãos esfoladas: meus e da minha mulher.)
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