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terça-feira, 19 de outubro de 2021

A cama dos pais é melhor que a minha

Nos últimos meses o meu petiz não falha uma noite (vá; é capaz de ter falhado uma) a saltar, a meio da noite, para a cama dos pais. Como se isso não bastasse, o anjinho raramente fica quieto na cama para além das seis da matina. Portanto, acorda-nos quando chega à cama e acorda-nos (ao pontapé...), uma segunda vez, cedo demais. E isto é o mínimo. Já tentei levá-lo de volta para a sua cama mal chega — estridente escândalo. Já tentei levá-lo de volta depois de o ouvir ressonar — escândalo estridente. E volta para a cama dos pais, muitas vezes antes mesmo de eu lá chegar, tal é a pressa. A meio da noite, estremunhado, a paciência para insistir é escassa.

Andamos, os progenitores, cansados por falta de sono completo. Julguei que, mais de três anos depois do nascimento, os dias de zombie-de-sono fossem passado distante. O positivo é o carinho extra que ele nos dedica quando chega à cama.

Há pouco mais de duas semanas passei um fim-de-semana fora. Cheguei no Domingo, já ele estava na cama, mas ainda na dele. A meio da noite, para não variar, veio para a cama dos pais, onde ele não esperava encontrar o Pai. Adivinhando o caminho no escuro, chocou contra a minha coxa. "Pai?..." perguntou ao atirar-se para cima da cama, constituída pelo meu tronco. Apalpou-me a barba, para ter certeza, e logo me agarrou no pescoço; "Pai!". "Sim, é o Pai." Dessa vez senti a visita pela positiva; sou um coração-mole.

Outro problema acessório é o acordar agitado dele, ainda por cima quase sempre em antecipação ao dos pais. Pontapeia muito, testando a paciência dos pais, e a resistência à dor do Pai — por azar (espero eu!), acerta-me dois terços dos pontapés nas minhas partes baixas...

Tenho-o questionado pela razão de não querer acordar na sua cama. Enrosca-se todo, bem consolado, na sua cama, ao deitar. Adormece, regra geral, rápido e bem, sem queixas do leito. No entanto, responde-me sempre que não gosta da sua cama.

Hoje foi a vez da Mãe lhe perguntar porque raio — sem o "raio" — não fica ele na sua cama. Repetiu que não gosta da cama. "Porquê?", perguntou-lhe a Mãe. "Mui'a pequena", disse ele. Olha o gasguito... Tem uma cama maior que muitas crianças da idade dele, supostamente para o aconchegar até aos seis anos, e diz que é pequena. Não é pequena para adormecer, todo consolado.

De qualquer das formas, não pode acontecer. Não me parece ser saudável nem para o desenvolvimento dele, nem para a saúde dos pais — de certeza absoluta. Mas não posso trancar-lhe a porta do quarto, nem tenho vontade de acordar a vizinhança com a birra que ele faz se o devolvo à cama. Não; amarrá-lo à cama também não é opção.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Tabletes de desrespeito

Tenho aqui, mesmo ao meu lado e com o tablet da mãe, o filho a rir-se às gargalhadas enquanto os amarelos Minions se manifestam ruidosamente de forma muito pouco verbal. Vê o filme pela — calculo de cabeça — 56ª vez desde que foi por mim apresentado aos comprimidos com pernas e jardineiras, há pouco mais de uma semana. Não deve entender metade do que se passa, mas lá se pendura na sua cadeira, meio deitado sobre a mesa, e ri-se muito.

Não sei se fiz bem em apresentar-lhe estes engraçados e estranhos seres, em eterno estado de icterícia, que misturam línguas e baboseiras várias em vez de coerência. Este meu filho, que ainda não tem, ele próprio coerência linguística — mistura português e alemão (o pouco inglês que dizia, para já, caiu) — pode estar a aprender mais uma salganhada... Mas sabe bem ouvi-lo dar tanta gargalhada.

Outro problema é o seu desrespeito pela física e pelo design da cadeira: ainda há pouco, estava ele a jogar um qualquer jogo próprio para a idade, quando se pôs a choramingar e a chamar pelo pai. No meio da ginástica toda com que ele testa a cadeira — com degraus para subir por si, mas sem cinto ou qualquer outra barreira que o impeça de cair —, enfiou as pernas pelo espaço entre o assento e as costas. Ficou preso e pedia ajuda. Acudi, como um pai faz, mas achei uma falta de respeito que, no meio da lamúria de alarme, o petiz não tenha parado de jogar...

Já não há respeito pelo salvamento.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Ciclos atrás de ciclos

O meu filho mudou de infantário em Março — a burocracia assim o exigiu. Podia ter continuado no anterior, mas uma pequena falha na nossa interpretação dos lineares trâmites da monolítica burocracia teutónica levou à mudança. Está agora, o meu filho, com crianças mais velhas (dos 4, a fazer 5, aos 6). Ele acabou de fazer 3. A verdade é que, até agora, esta mudança não parece ter traumatizado o petiz por aí além, ao contrário do que a potencial úlcera do pai teimou em antever. Tem mais espaço exterior para se espalhar, correr, escangalhar, esticar, esbardalhar e andar nuns triciclos fantásticos (confesso ter alguma inveja). Também aprende mais alemão, e isto das línguas está a dificultar o desenvolvimento verbal do rapaz. Entende perfeitamente ambas as línguas, mas ainda só usa raras frases curtas, palavras soltas (mas bem aplicadas) e dedos apontados e cheios de birra.

Outra consequência desta mudança, para mais longe (passei de gastar 5 minutos a ir buscá-lo a pé, para 20 minutos), é que começamos a usar a bicicleta para o levar mais rápido para a escolinha (adora empatar...). É uma bicicleta sem pedais, útil para lhe treinar o equilíbrio, com aspecto racer, amarelo torrado brilhante e apliques em preto. Está nas nuvens, o pequeno. E eu encontrei uma forma de fazer algum exercício aeróbio — o burocrata alemão proibiu-me de ir ao ginásio — sem ter que me andar a forçar a andar por aí a correr sem rumo. Corro atrás do meu filho quando ele acelera para o meio de pessoas e estradas, e já fico bastante suado. Uma vez até fiz um pouco de exercício de força quando tive que transportar filho e bicicleta, porque sua excelência decidiu que já não queria andar — nem bicicleta, nem bota — e eu estava com pressa. Tive sorte que foi sol de pouca dura.

Hoje (já o vou buscar daqui a pouco) vou alombar a bicicleta até ele. De manhã, ao sair de casa com a mãe, decidiu que não queria ir de bicicleta ou carrinho, que ia a pé como a mãe. Como imaginamos que seja difícil forçar uma criança a sentar-se num carrinho, ou a andar de bicicleta, eu e a mãe (principalmente a mãe, que é quem tem a responsabilidade de o levar) acedemos. Escusado será dizer que, quando se apercebeu que a sua jogada de poder tinha resultado na ausência de brincadeira na bicicleta até à escolinha, mudou de ideias. Segundo a minha mulher, já estavam a uma distância de casa que implicaria perder mais uns 5 minutos e passar pelos semáforos da rua principal aqui perto. Foi a pé, que ainda por cima a mãe tem hora para chegar ao local de trabalho.

A verdade é que, com esta mudança, o equilíbrio e a destreza do meu filho sobre duas rodas estão a melhorar a olhos vivos. Está de tal forma que começo a sentir a falta de um travão naquela traquitana amarela. Eu e a minha mulher, sócios nesta coisa de acompanhar o crescimento do petiz, já nos vemos forçados a considerar uma bicicleta a sério, com travão e — imagine-se(!) — pedais. Sem rodinhas; se se equilibra nesta, equilibra-se noutra. Mas aí vem outra questão: se a nova bicla vem com o descanso do travão, também vem com a velocidade do pedal...

Terei de ir de bicicleta, também... e uma guia a unir as duas? (Antevejo joelhos e mãos esfoladas: meus e da minha mulher.)