Tivemos, antes do fim-do-mundo de 2020, uma reunião com a educadora responsável (uma russa que não se deixa levar pelo charmezinho das crianças) pela sala do nosso menino. Entre outras coisas, ficou combinado que íamos tentar convencer o petiz a largar as fraldas este verão. Tendo ele outras três ou quatro crianças de idade muito próxima, talvez o grupo o fizesse em conjunto, seguindo os exemplos uns dos outros.
Acontece que, aquando do regresso da criança ao infantário após meses sem socialização nenhuma, além da que sofre por ter de aturar os pais — o pai, então...! —, a russa, nossa aliada, não voltou ao trabalho. A sala dele estava entregue às duas jovens que se amolecem todas com o sorrizinho dele, deixando-o fazer o que quer delas. Não nos pareceu que viria grande ajuda dali.
Fomos observando o nosso filho, à procura de sinais que nos fizessem acreditar que estava pronto, mas ele não tem demonstrado qualquer interesse em avisar que vai fazer um qualquer despejo fisiológico, nem sequer se incomoda em ter o rabo borrado. De qualquer das formas, e depois de a minha mulher ter visto um dos tais coleguinhas do nosso filho a avançar, lampeiro, casa-de-banho adentro, baixar as calças e sentar-se na retrete do infantário (com o tamanho certo para os petizes), sem ajuda ou incentivo presencial, assomada que se sentiu de pressão social, decidimos experimentar avançar com o desfralde.
No fim-de-semana passado, por ocasião do que seria uma muda de fralda, a minha mulher tirou-lhe a fralda suja, mas substituiu-a por umas cuecas, em nada absorventes. Trouxe, também, o penico em forma de baleia para a sala, onde o sentou, explicando-lhe que teria de baixar as cuecas, sentar-se, e fazer o que viesse. Ficou ali, o miúdo, sentado na baleia, de tablet na mão e cuecas nos joelhos, sem ares de preocupação nenhuns. A sua primeira reacção veio quando sentiu os pés molhados.
Fez, efectivamente, o seu primeiro chichi no pote — e eu celebrei muito, a ver se ele curte a coisa — mas, uma vez que a mãe dele é desprovida de extensão exterior da uretra (vulgarmente apelidada de pila), não se lembrou que devia apontar a do petiz para baixo. Alguma urina acabou, efectivamente, dentro do pote, mas eu diria que a maior parte ficou fora. Correria para limpar, entre vivas e palmilhas ao petiz, que me parecia confuso entre as felicitações e a azáfama urgente com que limpávamos o chão, acabamos por o deixar mais livre ainda, sem a cueca.
A micção seguinte foi, sem qualquer pejo e na maior das descontrações, confortavelmente sentado na sua poltrona de esponja. De esponja, sim. Outra houve em cima do tapete da sala. Não podia ser no chão; tinha de ser no tapete. E na esponja. E claro que a conversa não podia parar na micção.
Continuou, o meu rico filho, nas suas brincadeiras, de tudo pilinha e traseiro ao léu. Ainda havia esperança de que usasse o penico por vontade própria, já que ele é dos que se incomoda se se sujar — à excepção do rabo, quando de fralda. Apoiado na mesa onde normalmente desenha (na mesa, não em cima da mesa), no meio do tapete da sala (onde também já desenhou qualquer coisita), de repente e sem qualquer tipo de aviso não-verbal (nem um esgar de esforço, nem um desvio na atenção que prestava aos bonecos com que brincava, nada), sai-lhe um escatológico bolo por entre as nádegas, de saudáveis dureza e tamanho. Disparei na direcção do meu petiz ainda antes do cocó cair no tapete, mas ele reagiu antes de eu chegar e virou-se, a ver onde tinha tombado a obra. Pisou-a, descalço, no momento em que o levantei. Incomodado com meio-bolo pendurado no pé, o rapaz esperneou, espalhando bocados de cocó em volta, incluindo no exacto ponto onde, fracções de segundo depois, eu pousei o meu pé — também descalço — e nem reparei.
Nos minutos subsequentes, enquanto a minha mulher me avisava que eu tinha pisado a prova do crime e limpava o tapete e restante chão da sala, eu limpava o filho e o meu pé — confirmada a pisadela — daquele desastre. Depois limpei o chão do corredor, onde as minhas pegadas denunciavam o sucedido.
Cerca de dez minutos depois, estava o meu filho já de fralda (foi demais para hora e meia sem fralda) e a brincar no chão limpo de fresco, e eu, que me deitara de lado no chão a brincar com ele, queixei-me de ainda sentir o cheiro do bolo do meu menino. "É impressão tua", disse-me a minha mulher.
Pouco depois, incomodou-me uma comichão na perna, na zona da canela. Fui coçar... Depois fui a correr à casa-de-banho lavar a perna: restava um pequeno pedaço da prova do crime, provavelmente aspergido contra a minha perna pelo espernear do rapaz.
Não sei... não sei se o meu filho está pronto. Também não sei se eu estou pronto. Sei é que o trauma deixou-nos avessos à experiência. Vai ser preciso encontrar nova coragem.
PS: A educadora russa não voltou, para já, porque está de licença de maternidade, descobrimos entretanto.
PPS: As jovens educadoras que restam estão doentes, pelo que o meu filho tem estado com outra educadora. Ela conseguiu pô-lo a ir ao pote, fazer um cocó, uma vez. Na verdade ela pô-lo no pote e ele largou a bomba. Será que conta?...
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