O desfralde do meu petiz vai, para já, de vento em popa. Começou devagar, com acidentes a rodos, mas à segunda semana a frequência das desventuras baixou consideravelmente. De trazer, do infantário, mais de uma saco de roupa molhada por dia, já é raro trazer qualquer saco.
Na noite passada, por exemplo, mais um salto na direcção certa: acordou a berrar pelo pai para que o ajudasse na ida ao penico (ao pico, diz ele). Uma senhora micção, diga-se, feita com ele a adormecer a meio. Mas fê-la, e a fralda (ainda a usa durante a noite, claro) estava seca. Sofreu o meu sono, mas ganhou o meu orgulho de pai. (Isto de ter orgulho na micção alheia é coisa de paternidade...)
Já confio nele. Se me diz que não precisa de ir, não insisto (muito). E hoje provou-me que estou certo em confiar. Depois de começar a semana com umas manchinhas avermelhadas, sempre sem febre, que me fizeram ficar com ele em casa durante dois dias, foi para o infantário a meio da semana. Acordou, hoje, após apenas um dia na escolinha, com um olho inchado. Conjuntivite. Forçou-me a uma manhã multilingue: em alemão arranhado (muito) para avisar que não ia, de novo, para o infantário, e em inglês a tentar que a pediatra o visse. Fui encaminhado para outra pediatra, pronto, que me viu o filho só mesmo para justificar a receita do creme antibiótico.
Antes do passeio (esta outra pediatra é a 5 minutos a pé daqui de casa), pedi-lhe que fosse ao penico. Acedeu e foi produtivo. Esperamos, entre passeios e brincadeiras, quase 50 minutos pelo atendimento, apesar de hora marcada. Prometi-lhe que, se se portasse bem, íamos comer batata frita (um grande sacrifício para mim — quem me conhece sabe-o bem). Portou-se bem e levou-me de volta a casa pela mão, para ir buscar a chave do automóvel e fazer a visita ao restaurante rápido em questão. Lá fomos; mas esqueci-me de sugerir nova ida ao penico ao rapaz.
Sentamo-nos, bem alapados, na mesa da esplanada, com o tabuleiro carregado com as batatas fritas (dose para ele — pequena —, dose para mim — menos pequena), os medalhões de frango do meu filho, o meu modesto hambúrguer e as nossas bebidas (sumo de laranja para ele, refrigerante para mim). Ainda lhe disponha as batatas à frente do nariz, e o rapaz dispara "tenh' chichi". Senti-me culpado e aterrado ao mesmo tempo. Que fazer? Que fazer, com a comida toda à nossa frente, num estabelecimento de restauração em que uma mesa vazia de comensais corre sérios riscos de ser limpa de imediato, mesmo com a comida intocada. Comecei a tentar guardar a comida na embalagem do menu de criança, enquanto dizia ao meu filho que íamos comer para casa, depois dele fazer chichi. Mal se apercebeu que ia ficar sem as pa'tas prites, disse, com a autoridade que o alemão lhe dá, "warte!" (espera!). Agarrou-se às batatas com a mão direita, à virilha com a mão esquerda. Deixei, a ver se se aguentava.
Comi o meu hambúrguer, depeniquei as minhas batatas (todas — para evitar o desperdício), bebi metade do meu refrigerante, enquanto o meu filho comia a sua dose de batatas toda, a mão esquerda sempre na virilha. Acabada a dose, permitiu-me que guardasse o frango e o sumo, para o levar à casa-de-banho.
Aguentou-se aquele tempo todo. Nem uma gota fora de sítio. Fiquei impressionado.
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