terça-feira, 5 de maio de 2020

Dias 49 e 50 — Porque sim

Há dias o meu filho perguntou-me "poquê?" Na altura respondi-lhe "porque eu quero"; referia-me a mudar a fralda. Senti-me um pouco culpado, mas era o que era preciso naquela situação, já ao fim de uma negociação aturada. Não estava a conseguir convencer o adorável malandro a ceder, até porque, nas palavras dele, "cocó na tem!" E não tinha — mas estava a abarrotar de xixi.
O meu petiz tem demasiada estima por tabletes e/ou telemóveis espertos. Digamos que essa estima exacerbada é, de momento, a maior fonte de birras. O ecrã de televisão também lhe testa a concentração. São raras as vezes em que lhe quebro a concentração nos bonecos à primeira. Regra geral, só pondo-me entre ele e o ecrã é que consigo quebrar o feitiço, e mesmo assim há sempre um atraso na resposta — demora a desligar...
Ontem ele viu o meu telemóvel e decidiu que queria fazer uso do aparelho. Eu neguei, dentro daquele meu esforço para o separar da mania, mas ele insistia, a fugir para a birra. Disse-lhe logo que com birra não tinha nada de certeza. Desta vez resultou — não escalou mais. Mas continuava a estender a mão na direcção do malfadado objecto, com insistentes "mein" pelo meio. Fui ignorando, até que lhe deitei um olhar inquisitivo. Foi aí que me pareceu ouvir um claro "eu qué". Resolvi responder com uma pergunta: "porquê?"
"Poque sim". Foi o que me pareceu que ele respondeu, apanhando-me de surpresa. Fiquei calado um bocado, sem saber se desatava a rir, se o abraçava, mas não cedi. Há que manter a decisão de não lhe dar o aparelho para a mão só porque sim.
O karma tem esta mania estúpida de nos morder o assento...

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