segunda-feira, 6 de julho de 2020

De regresso

O meu filho foi, finalmente, autorizado a regressar à creche. Regressou há exactamente uma semana e foi um dos primeiros, por decisão da instituição de ensino, a participar do regresso progressivo do "resto das crianças". Estas crianças, as que restavam, eram aquelas cujo regresso não era absolutamente necessário. O infantário nunca fechou a cem por cento, já que algumas das crianças teriam ambos os pais a trabalhar nas actividades essenciais (no caso, por ser um dos infantários dos serviços da universidade, eu diria que médicos, enfermeiros ou investigadores cujo trabalho não parou por estar ligado à clínica da universidade). A primeira fase de regresso, já há cerca de um mês, fez-se para as crianças cujos pais, os dois, não pudessem ser dispensados do trabalho presencial. O meu filho tem uma mãe que apenas abrandou, ligeiramente, o trabalho que desenvolve para bem da ciência, mas um pai que escreve coisas. Não precisa de sair de casa para isso, dizem eles; e têm razão.
De email informativo em email informativo, lá foi a nossa expectativa crescendo, à espera de notícias definitivas acerca do regresso do nosso petiz à socialização com outras crianças. A certeza veio em forma de telefonema — tenho orgulho em dizer que foi todo em alemão, se bem que cheio de "bitte?" e engasganços da minha parte. O meu mais-que-tudo desamparar-me-ia a loja a partir da segunda-feira seguinte.
Mas, como em quase todos os países em desconfinamento, o regresso teria regras. Imaginei o meu filho de chapéu-de-distanciamento-social, supervisionado por meias-caras, sem nariz ou boca, que não lhe permitiriam qualquer contacto humano. Enganei-me. Apoiados num estudo da universidade cá do burgo, os responsáveis do estado de Baden-Württenberg não impuseram nenhuma regra de distanciamento às crianças — apenas aos pais.
A ver: as crianças estão como sempre estiveram, sem regras nenhumas de distanciamento e com educadores desmascarados. Os pais vão pô-las e buscá-las como sempre foram, mas de máscara na fuça e mãos devidamente descascadas de pele morta e perfeitamente estéreis, por vigorosa lavagem das ditas com gel desinfectante disponível atrás da porta de entrada. Já me fizeram entrar pela porta do jardim, onde não há desinfectante, mas não me queixei. As regras são, claramente, para proteger os educadores; foi precisamente uma educadora quem me abriu a porta do jardim e chamou, estava eu a esconder o bigode e a barba na máscara, pronto para entrar pela frente e matar a flora da pele das mãos. Avisei. Confirmou-me que entrasse por ali — não me queixei.

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