sábado, 21 de março de 2020

Dia 5 — o terror nocturno

Ontem o meu filho embirrou mais que o normal com a rotina da hora da cama. Livre de roupa e fralda, em vez de se dirigir por si até à casa-de-banho, onde a mãe esperava, banheira cheia e brinquedos a nadar, resolveu passear a sua nudez por todos os centímetros do apartamento que não são a casa-de-banho. A negociação foi dura mas firme; ele lá foi, sempre com um sorriso de charme, a ver se a mãe o deixava solto e seco por mais algum tempo. Não é que não goste de tomar banho, mas mais porque gosta de ser ele a controlar os tempos.
Banho tomado, dentes lavados, lá foi para o quarto, onde começou nova ronda de negociações. Desta vez não queria fazer o que faz todos os dias: ir pacificamente para a cama. Ganhou uns minutos, mas acabou por ir com um lamento que não é comum — regra geral, vai sem espinhas. Mas o pior estava para vir.
Acordei com o monitor a chorar e a reproduzir uma musiquinha de embalar. Eram 3 e 25 da manhã, e o meu filho acordara de repente, a chorar estridentemente, o que disparou a lua que lhe toca canções de embalar. Esperei uns minutos, a ver se a música funcionava, como é costume. O aperto emocional de o ouvir chorar continuou, e lá foram ambos os pais ver o que se passava. Estava de pé, agarrado ao interruptor da lua, a tentar desligá-la. Sempre a chorar, pediu colo e que desligasse aquilo. Fiz tudo o que me pediu. A mãe perguntou-lhe se queria leite, e disse que não. Não era normal. Parecia genuinamente assustado. Um terror nocturno, presumimos.
A mãe, tendo que ir trabalhar na manhã de hoje, confiou-me a missão de o acalmar e adormecer de novo. Ele pedia, sempre choroso, para abrir os estores, como pede de manhã quando já não volta para a cama. Mostrei-lhe, por outras janelas, que estava tudo escuro lá fora e não era hora de acordar. Entre passeios ao colo, conversas sentados no sofá da sala escura, e tentativas de o deitar de novo, passaram duas horas até que adormecesse, colado a mim, no sofá-cama que temos no quarto dele. Entre pô-lo de volta na cama dele (tentei...), onde ele desatava a chorar como se a cama o mordesse, ou deixar toda a gente dormir, desde as vizinhas idosas, em cima e em baixo, até a minha mulher, no quarto ao lado, resolvi dormir assim, sem cobertura e com almofada de sofá.
Dormiu até pouco antes das nove, sempre aninhado contra mim. Eu?... fui dormindo; umas vezes com medo de me mexer e esmagá-lo (pouco provável, porque quase não me mexo quando durmo), outras com frio nas pernas. Mas lá ele dormiu.

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