sexta-feira, 20 de março de 2020

Dia 3 — Cérbero põe o nariz de fora

Ao terceiro dia, com pouco tempo para escrever — porque quero dormir um pouco (fui acordado às 6 da manhã, outra vez, pelo mais fofo dos filhos) —, eis que tive um vislumbre do que o medo e o condicionamento mental, provocados por uma pandemia das chatas, fazem a um pai.
Fui para a cozinha tratar da louça e do almoço, deixando os bonecos televisivos nas cantorias e/ou histerias despropositadas a dançar no ecrã. Desta vez o petiz preferiu seguir o pai a ficar a saber, no meio de gritinhos e risinhos incompreensíveis, a quem pertencem as orelhas pintadas, sabe-se lá porquê, numa parede de madeira lá na quinta por onde saltita, desacompanhada, a Pequena Lola. Nenhum problema; desde que não se agarre às pernas do pai, não atrapalha.
Como o pai pouco lhe ligava — uma seca...! —, o meu filho fez o que faz com frequência, há muito tempo, quando está na cozinha com os pais. Trepa ao escadote/banco de dois degraus que temos encostado à janela e encosta-se ao vidro, de cotovelos no parapeito interior, a coscuvilhar o mundo exterior. O pai relaxa, porque é algo habitual e ele já o faz com o cuidado e a destreza mais que necessários.
Mas... (o raio do mas) há sempre excepções à regra. Num segundo em que virei as costas, para pôr um prato a secar, ouvi-o trambolhar. Ainda me virei a tempo para o ver a cair de lado no chão e rodar, dando um pequeno toque com a cabeça no chão. Antes deste prognóstico de pouca gravidade, o meu cérebro disparou: primeiro, "Ai, que o miúdo matou-se!", seguido de — e aqui é que me dei algo em que pensar —, "Irra, que não é boa altura para ir às urgências!" Como é óbvio, não queria correr o risco de ter de o levar a um possível foco de infecção...
Vi o inferno por segundos, mas o dói-dói foi ligeiro — o mimo não.

Sem comentários:

Enviar um comentário