quarta-feira, 18 de março de 2020

Dia 2

(O petiz já dorme a sesta, posso escrever.)
Depois da sesta de ontem, lanche tomado, resolvi levar o rapaz a dar um passeio a pé. Levá-lo à rua para respirar ar fresco, apanhar sol e exercitar as pernas sem ser a dar voltas ao apartamento. Aqui não pensam pôr quem sai à rua no calabouço mas, não tendo muito para onde ir (a cidade pediu que fechasse tudo menos supermercados, farmácias e bombas — os restaurantes laboram, mas só para take-away ou entrega) e o receio da infecção, as ruas estão mais ou menos vazias. Apesar da primavera que espreita desde anteontem, os alemães contentam-se, com responsável diligência, em apanhar sol nas varandas e nos jardins. O meu filho adorou, apesar de ter feito, de forma intermitente, mais de metade do passeio ao colo do pai. No fim não queria voltar para casa, pelo que teve de ser carregado mais uma vez; de forma pacífica, surpreendentemente.

Hoje acordou às 6h30 da matina... iupi.
A meio da manhã lá me pôs a fazer exercício. "Bola", disse-me. Eu acedi a dar uns pontapés na pequena bola que ele persegue e pontapeia com vontade. De vez em quando pára a bola, dá uns passos de dança para trás — mais uns saltinhos de hesitação que passos —, arma os braços para o lado direito, para dar balanço — ainda é mais um desperdício de energia que outra coisa — e avança para o esférico, com a vontade de um CR7, mas o jeito do pai — genes(?). Mas acerta na bola, e com força. Cansado da bola, aproveitou que o pai se atirou ao chão, depois de sofrer uma horripilante entrada a pés juntos — ok; ele nem me tocou... — para se sentar nas minhas costas e começar a puxar o meu tronco para cima, sem resultados. É o sinal dele para que eu faça flexões com ele em cima. E fiz, sempre cheio de medo que ele se largasse e me caísse ao chão no pico da subida. Depois decidi eu, já que estava a fazer algum exercício, pegar nele pelo tronco e fazer agachamentos que terminavam com o arremesso (não era atirar ao ar, que o tecto falso é baixo...) da preciosa carga de 13 kg acima da cabeça. Ele riu-se como um perdido; eu fiquei com os ombros a arder — para as pernas é brincadeira (ehehe!).
Ao almoço pediu-me que lhe mostrasse como usar faca e garfo. Já usa o garfo há muito tempo, mas a curiosidade para com o nosso uso dos dois talheres tem aumentado a olhos vistos. Estive cinco minutos a cortar o que lhe restou no prato em bocados cada vez mais pequenos, agarrado às mãozinhas dele, que não largavam nem faca nem garfo. Ele estava maravilhado.

Agora que dorme, não consigo deixar de pensar que o meu receio de perda de juízo é, para já e ainda no início, uma visão longínqua. Hoje, até agora, passei bons momentos.

Sem comentários:

Enviar um comentário