quarta-feira, 25 de março de 2020

Dia 9 — carros e natureza

Aprendeu a palavra "carro", o meu filho. No nosso passeio matinal, pelas zonas verdes do campus universitário, exibia a nova habilidade de cada vez que via uma viatura de quatro rodas. "Carr'!", apontava energicamente e repetia, apontando para o do lado, "Carr'!" A falta da última vogal, prolongando o "rrrrr", pode ser da falta de aperfeiçoamento, ou do facto de ele ter nascido na Ilha da Madeira. Claro que a pronuncia do pai, também madeirense, não tem nada a ver com isso.
Como madeirense que ele não sabe que é, trepou colinas imensas (da minha altura, não é nada mau) de pau — perdão — espada na mão, em plena carga (desajeitada, é certo, mas ele só tem 25 meses) contra as forças opressoras de "Edward Longshanks". Quase se atirou a um lago artificial só para ver mais de perto um par de aves que me lembraram galinhas d'água — mas já estou destreinado... — e não queria vir embora. Claro que os bichos, de cada vez que ele se aproximava, com a delicadeza com que a Maria Leal sacode os ossos, se enfiavam entre os juncos.
Mais um pouco, mais um lago artificial. O busico não reparou logo, mas nele flutuavam, muito quietos, dois patos-reais macho. Eu apontei-lhos, um dos patos mexeu-se, e o meu filho excitou-se de tal forma que, mais uma vez, tive de o agarrar pela gola do casaco para que não tentasse correr pela água. Fiquei com ele ali, até que se cansasse de olhar para os patos que se afastavam devagar a cada gritinho excitado do petiz, para ir para casa.

Foi um bom dia.

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