Hoje soube que a cidade-distrito de Heidelberg, onde resido, pondera obrigar os seus cidadãos a ficar em casa. Soube-o depois de ter passado a primeira parte da manhã na pequena (440m) "montanha dos santos" (Heiligenberg) com o meu filho, a respirar o ar fresco entre árvores, aves canoras e a possibilidade de ver uma rapina. Corços, ou outros mamíferos de maior porte, tenho pouca esperança de ver — não me afastei muito da estrada, que eles têm a inteligente tendência de evitar.
A felicidade do meu filho ao explorar as ruínas do mosteiro de São Estêvão, o sorriso com que apontava para as árvores de cada vez que ouvia um pássaro cantar por cima dele e a vontade com que comeu o lanchinho, sentado num banco virado para a cidade velha lá em baixo, deixaram-me babado e feliz por lhe ter dado este mimo. O facto de estarmos lá em cima sozinhos — um carro ou outro passaram, um parou, mas nunca vimos outras pessoas — ajudou bastante.
Ontem à tarde, no passeio diário, já o meu filho tinha tido um pequeno contacto extra com a natureza (tem sempre, que esta zona é bastante verde e amiga da fauna que se atreve a penetrar na área urbana). Levei-o ao campus universitário, ali ao lado, para perto de onde a mãe estaria ainda a trabalhar. Estando quase nada em funcionamento, o campus está quase vazio. O meu filho, sempre intermitente entre o próprio pé e o transporte parental, lá foi descobrindo as relvas e flores silvestres, os barulhentos periquitos-de-colar, os chapins-azuis, os melros, as gralhas e os corvos, até pôr o olho num outro animal, incapaz de voar. A uns dez metros de nós, uma lebre julgava-se camuflada pela erva alta. Eu vi-a e apontei, o petiz viu-a e não aguentou; dirigiu-se, a medo, para lá. Eu segui-o, devagar. Excitado, o meu filho dava uns passos, olhava para mim, apontava, e sorria muito. A lebre, confiante, não se mexia. Quando o meu busico estava a cerca de um metro do bicho, desatou a correr, o que fez disparar a lebre, o que fez explodir a excitação do meu filho, que me apontou a lebre em corrida, seguindo-a com os olhos até que se escapulisse para lá da esquina de um edifício. Os olhos arregalados dele diziam tudo.
Voltando à manhã de hoje, apenas um comentário: ao conduzir de volta, encosta abaixo, uma rapina de grande porte levantou voo à minha frente, da beira da estrada. Só tenho pena que não fosse do lado em que o meu filho estava preso à cadeira de segurança. Desconfio que não a viu.
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