sexta-feira, 17 de abril de 2020

Dia 32 — Atleta de primeira

Hoje descolei o meu filho da televisão — desliguei-a — e peguei na pequena bola de futebol. A relutância passou-lhe quando a porta se abriu e ele pegou na bola. Meteu-a debaixo do braço, quase encostada ao sovaco, e saiu porta fora com a inconfundível postura de dono da bola.
Conduziu-me até o largo onde costuma dar os seus pontapés na bola, chamando-me para o seguir. Andou ao chuto e correria de um lado para o outro, arrastando o pai pelo processo, até meter a bola de novo debaixo da asa e apontar para o passeio que nos levaria a dar uma volta ao quarteirão.
Fez quase todo percurso a correr atrás da redondinha, eu a esforçar-me por não deixar a bola fugir demasiado. Nas zonas de possível passagem de carro, limite máximo de 30 à hora, dei saltos de cabrito para manter a bola no passeio. Até que a bola cai para a estrada. Eu arranquei atrás, disse-lhe que ficasse quieto, olhei para a estrada e fui buscar a bola o mais rápido que pude, não fosse o petiz saltar atrás de mim. Quando agarrei a bola e me voltei para ele, estava exactamente na mesma posição de quando lhe pedi, assertivamente, que ficasse quieto. Parecia uma estátua com um sorriso malandro.
Quando voltamos para o prédio, o meu filho quis jogar à bola de novo. Dei-lhe a bola e posicionei-me de forma a que a bola não fosse para a zona dos carros estacionados. Mais correria.
A certa altura o meu filho lembrou-se de que há ali muita relva e ervas e galhinhos pelo chão a explorar. Deixou a bola e encontrou a espada perfeita.
Quando ele agarrou noutro pau e mo pôs na mão, eu fiz a asneira de bater no dele, como se estivesse a esgrimir. Percebeu a brincadeira e achou piada. Começou a atacar a minha espada num frenesim impressionante. Eu, arrependido, pensei que esta seria uma brincadeira má para ele levar de volta ao infantário, não vá acertar no olho de alguém. Depois lembrei-me que eu próprio, naquele momento, de cócoras, estava a correr o risco de levar uma vergastada. Estava este pensamento a ferver-me na minha cabeça quando o meu filho, num entusiasmo mais aguerrido, me acertou com a ponta do galho na borda da narina. Parece ridículo, mas aquilo doeu-me como múltiplos cortes de papel simultâneos. Aguentei — que remédio!
O meu filho correu, saltou, deu pontapés e esgrimiu sem parar. Não é de admirar que tenha subido meio lance de escadas, suspirado profundamente, e pedido colo para o resto da subida.
Em casa, sentou-se na poltrona e apontou para o ecrã...

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