Não tenho orgulho nisto, mas sou um cabeça-quente. Quando era criança e alguém me irritava os nervos, parti um brinquedo ou outro contra o chão. Não ganhei nada com isso — e fiquei sem brinquedo. Lembro-me de, adolescente já com canoagem no corpo, ter-me chateado com um jogo muito importante da equipa da Federação Portuguesa de Futebol e, controlando o nervo, ter saído porta da cozinha fora, ter apanhado três ou quatro troncos de lenha e tê-los disposto contra uma parede, partindo-os um a um, com método e sem espalhafato. A minha mãe observou tudo e riu-se, abanando a cabeça, a gozar comigo. "Que é que resolveste com isso, rapaz?", perguntou-me. Na altura ri-me de volta, já descomprimido, e respondi "Nada, mas ao menos já deitei os nervos fora."
Hoje, mais controlado, volta e meia sou capaz de dar um murro no braço do sofá, ou na minha coxa. Péssimo exemplo, eu sei.
Esta manhã vi-me no lugar da minha mãe. O meu filho estava chateado com alguma coisa no seu pequeno-almoço, e reclamava comigo. Eu comecei a imitá-lo. Ele enervou-se mais e deu uma pequena palmada na mesa. Tanto eu como a minha mulher dissemos logo "não!" Ele irritou-se ainda mais e deu nova palmada, mas desta vez acertou de raspão na beira da tigela de plástico de onde comia os cereais. Voou a tigela, voou a colher, voaram os cereais. Enquanto a minha mulher lhe ralhava, eu tive de sair. Ia começar a rir. Não por achar a acção dele engraçada, mas porque me vi nele (neste caso, infelizmente), parvo como tudo, e porque, como eu com os brinquedos, ele ficou sem os cereais que tanto adora. A sorte dele é que a mãe foi buscar mais.
O que não teve piada foi limpar aquilo tudo. Ainda bem que a minha mulher ainda estava em casa — não limpei sozinho.
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