segunda-feira, 13 de abril de 2020

Dias 27 e 28 — Quer lá saber...

Ontem fomos jogar à bola para os campos à volta da cidade. Peguei na bicicleta, acoplei-lhe a carroça em que puxo o filho, e levei a minha pequena família a ver uns cavalos que vira dias antes. Tinha ido dar uma volta de bicicleta, para fazer exercício — não foi para desanuviar sozinho por uma hora; foi para pôr a máquina a mexer, sim. Claro que, chegado ao local, nada de cavalos. O cheiro estava lá, mas os quadrúpedes não estavam à vista.
Paramos pouco depois, numa clareira, e descarregamos filho e bola, ambos soltos quanto baste. Ora, solto, o meu filho aproveita. Brinca um bocado e depois explora o que pode sem pedir cavaco nem ajuda. Foi, por exemplo, vê-lo fazer um sprint repentino na direcção do rio que passa ali mesmo ao lado, a mãe a dar um grito e a correr atrás. Também por algumas vezes parecia correr de propósito para as trajectórias das bicicletas que iam passando, aqui e ali. Também foi muito divertido vê-lo desandar por ali a fora, cada vez mais longe dos pais, sem ligar aos nossos esforços para o chamar de volta, ou atraí-lo para o pé de nós. Quer lá saber.

Hoje fui passear com ele de manhã, sem a mãe. Foi pegando em paus para praticar dar coça em árvores, ervas e vedações sem contar muito com o pai, a não ser para me apontar o pau e imitar o que eu imagino ser um tiro. Nestas ocasiões era suposto eu reagir, fosse fingindo-me atingido por um projéctil imaginário, fosse com uma careta e um som engraçado. O que era preciso era reagir, fosse como fosse.
Quando chegou a hora de voltar para casa, aquela mania dele de ignorar os pais atacou forte. Eu indiquei-lhe a esquina a dobrar para regressar; ele foi em frente, sozinho e a ignorar os meus chamamentos. Deixei-o ir um bocado, a ver até onde ia. Parou ao pé de um carro e começou a tentar abrir-lhe a porta. Imitei um latido. Ele gosta de cães mas tem medo deles, por isso ouviu o latido e correu para perto de mim, sempre à procura do cão. Não tenho orgulho da brincadeira (apenas da minha imitação quase perfeita), mas funcionou...
Negociado o regresso a casa, evitando tentar roubar viaturas pelo caminho, ele lá me foi seguindo, de pé pesado, bem arrastado. Toda a planta do caminho foi desculpa para parar. As habitações daquela zona têm todas jardins e quase todas plantas pendentes para o caminho. Com a paciência em cheque, comecei a não parar quando ele parava. Mais uma vez, quis lá saber. Eu ia andando, ele ia ficando, deitando o olho de vez em quando. Ladrei de novo e mais uma vez veio para o meu lado.
Na última esquina a virar, a uma recta de duzentos metros de casa, ele reabriu as negociações, que eu recusei. Queria continuar o passeio, mas eu queria chegar a tempo da hora certa do almoço, não eu fosse ouvir da minha mulher — que tem sempre razão, como é de esperar. Afinal, escolheu-me para marido (ehehe!).
Ladrei de novo, confiante de que ia resultar. Mandou-me bugiar. Aqui o Pedro gritou lobo demasiadas vezes. Foi à moda antiga: carregado, a pesar ao pai, mas sem escolha. Fiquei com a impressão de fiz o que ele queria...

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