Por muito porreirinho que seja o meu filho, todo charmes, sorrisos e conversa de bebé, também tem os seus momentos rei-na-barriga. Quando não quer comer o que está na mesa, ou já acabou o que tinha e quer mais, vira-se para a mãe e aponta para a cozinha com uma vocalização não-verbal que soa a ordem. Não o faz comigo, por estranho que pareça, apesar de apontar para a cozinha, mas com olhos de quem pede muito delicadamente. Mas faz-me outras...
Hoje, à hora do lanche, resolveu que o sumo que lhe restava na canequinha, depois de comer as bolachas todas, servia perfeitamente para fazer experiências. Enfiou a mão lá dentro, punho fechado. Como esperado, o punho fechado do meu fofinho provocou uma deslocação do sumo para o único espaço livre, a boca da caneca. Algum sumo pelo tabuleiro da cadeira dele, algum pelo chão, foi uma brincadeira divertida. Tirou a mão de lá e reclamou, apontando-me a mão a pingar sumo. Fui buscar um guardanapo, limpei-lhe a mão (faz destas e depois fica todo nojentinho) e pu-lo no chão. Depois de lhe lavar mãos e cara, fui limpar a cadeira e o chão. Foi aqui que sua majestade, vendo-me de quatro no chão, a limpar o sumo que sua excelência espalhou, resolveu que eu não estava a limpar de acordo com os seus padrões. Apontava-me o que estava sujo, incluindo um pedaço de papel que ele tinha acabado de deixar no chão, acompanhando o dedo com a tal vocalização com que manda mãe para cozinha.
Mais tarde, mesmo antes do jantar, estava eu a mexer no telemóvel e o meu rico filho aproximou-se de mão em riste, apontada ao telemóvel. Eu disse que não, não podia ser. Ele insistiu e esticou a mão. Ao afastar o aparelho do alcance dele o couraçado do meu telemóvel fugiu-me da mão, tentei apanhar-lo com a outra e só consegui fazê-lo girar no ar, de encontro à minha cara. Apanhei-o no ar logo depois de me acertar no lábio superior, deixando-me com uma dor considerável. Enquanto eu me agarrava ao lábio, que parecia arder, o meu adorado filho ria-se à gargalhada. Riu-se à gargalhada o tempo todo em que eu estive agarrado à boca. Não lhe dei o telemóvel, bem feito!... Com filhos destes...
A sorte dele é que o adoro.
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