O meu filho é, por assim dizer, arrumadinho. É comum, quando resolve ajudar na arrumação das caixas de brinquedos, mudar o que eu pus numa caixa para outra, onde ele acha que é o lugar daquilo. Tudo tem o seu lugar, e ele reclama se descobre algo fora dele.
Há já algumas noites seguidas que ele me surpreende, de manhã, com uma arrumação expediente — e interesseira. O ritual de acordar passa (ou passava) por tirá-lo da cama, dar-lhe o biberão, abrir o estore (ele ajuda), despir o saco-cama e mudar a fralda e a roupa, para depois ser solto — vai a correr para a poltrona de onde vê televisão. Nós ligamos a televisão para o pequeno-almoço, nas notícias, e ele pede sempre bonecos; não os tem, mas pede-os. Recentemente, depois de começar a chamar — e nós esperarmos pelo nosso despertador para o habituar que não é ele quem decide quando acordamos; apesar de ser... — eu entro no quarto e, surpresa, está já sem saco-cama e este está dobrado sobre a grade do fundo do berço, onde eu o costumo pendurar daquela mesma forma. Já saltou um passo para poder ir pedir bonecada para a frente do ecrã. Malandro...
Por falar em malandro:
Ontem à noite, batia a meia-noite, a minha mulher ressonava ao meu lado e eu acabava de ver um episódio de uma série sobre um vírus (coincidência) disseminado na chuva, quando ouço um choro baixo, adormecido, com uma palavra repetida. Era a palavra dele para a chupeta (não usa nem a portuguesa, nem a alemã — usa "mi'a", porque é dele). Fui verificar ao monitor e vi que, realmente, estava a chucha no chão e ele estava de costas, para a câmara, meio a dormir. Correndo o risco de o acordar mesmo, entrei no quarto e pus a "dele" na cama, ao pé da mão do meu filho. Apanhou-a e meteu-a na boca, mas virou-se logo para mim, que já me esgueirava para fora do quarto. Levantou-se e começou a fazer o seu choro propositado, para me chamar a atenção, ligando a lua que lhe toca canções de embalar. Saí na mesma, esperançoso no sono dele, e voltei para a frente do monitor. Mantendo sempre o choro em ondas regulares, qual sirene, vi o meu filho por-se de quatro na cama, esticar o braço através das grades, e largar a chucha no chão, quase pousada. Se eu fui lá por causa da chucha, iria outra vez. Resisti, a ver o que ele faria. Passado um minuto ou dois, baixou o volume e a intensidade do choro e esticou de novo a mão, para apanhar a chucha. Para azar de ambos, ele enfiou a mão entre as barras erradas, falhando a dita cuja. Tentou outra abertura, mais longe da chucha, e o choro começou a ficar mais sério. Lá entrei eu de novo.
Desta vez não consegui ignorar o choro. Cedi. Dei-lhe a chucha e ele esticou-me os braços. Peguei nele ao colo, por dois minutos, sempre a conversar com ele, a pedir-lhe que dormisse. Voltei a pô-lo na cama e saí com um "boa-noite!". Voltei para o monitor. Voltou a deixar a chucha no chão. Deixei-me estar, a ver até onde ia o malandro. Desta vez desistiu do artifício rapidamente — menos de meio minuto — e resgatou a mi'a com sucesso. Deitou-se e pareceu adormecer quase de imediato. Ufa...! Era a minha vez de ir dormir.
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