No passeio desta manhã, depois da luta para o convencer a largar os bonecos, o meu filho liderou o passeio sem problemas, divertido e interessado em ver coisas. Aos 15 minutos de passeio passamos ao largo de um jardim onde deambulam dois ou três coelhos de estimação. O petiz agarrou a minha mão — só desce o passeio agarrado à minha mão — e puxou-me até o outro lado da estrada, onde se colou à cerca. Durante mais ou menos o mesmo tempo que durou o passeio até ali, o meu filho perguntou-me vezes sem conta "qui'é?", ao que eu respondi de algumas formas diferentes, incluindo sempre a palavra coelho na frase — a maior parte das vezes respondi com uma frase de uma palavra só.
A princípio ele só apontava, excitado, enquanto perguntava o que aquilo era. Por vezes parecia conversar com o próprio coelho, não entendi bem sobre o quê. Ou o quê...
Acocorado ao lado do meu rapaz, uma das vezes em que o bicho se aproximou da cerca e meteu o focinho entre as grades, passei-lhe o dedo pelo focinho. O meu filho excitou-se ainda mais; mas quando o coelho se virou para ele, deu um salto para trás, reclamou um segundo, e depois abriu um sorriso enorme. A partir dali queria falar com o animal mais de perto. Agarrou-se à cerca, meteu o braço na cerca algumas vezes, mas nunca tocou; até que o coelho voltou a pôr o focinho entre as grades, mesmo apontado ao meu filho. Ele aventurou-se, devagar, e tocou no focinho do manso animal. Se a cara dele já estava iluminada, agora parecia o Sol. Achei que era a altura ideal para o levar para casa bem-disposto.
Pegando nele ao colo, atravessei a rua com alguma, pouca, reclamação, e pousei-o do outro lado da estrada. Não tentou voltar para trás. Entende que não vai dar e pronto.
Voltar para casa, apesar da ausência de reclamação, birra, ou exigência de colo, foi penosa. O malandro foi andando, devagar e devagarinho, parando de vez em quando para investigar o que já investigou vezes e vezes sem conta em passeios anteriores. Houve dois pontos da viagem de retorno em que isto foi evidente.
Já perto de casa há um grupo (cinco ou seis...) de estacionamentos em espinha privados, com aquelas trancas que se deitam para que o carro estacione por cima, mas que ficam erectas quando os proprietários do lugar as trancam, impossibilitando o estacionamento por parte de estranhos. O meu filho, que já os analisou e mexeu à náusea noutras ocasiões, resolveu que aquilo tinha piada e começou a sacudir uma das trancas, a ver como é que aquilo funcionaria. Eu esperei, pacientemente. Ele resolveu que queria investigar mais uma, para comparar, e aproximou-se de uma mais para trás, afastando-se de casa. Eu chamei-o e comecei a andar em direcção a casa, a ver se ele sentia a pressão. Nada. Continuei a andar, sempre a chamar, até estar a cerca de 5 metros dele, atrás de uma sebe arbustiva. Dava para o ver, mas ele não me via. Chamei, ele não ligou. Aguentei-me ali a ver até onde o braço-de-ferro ia. Lá resolveu, passado meio minuto (uma eternidade para um pai cujo filho está longe e na rua — a estrada estava vazia, sem movimento absolutamente nenhum, quer pedestre, quer automobilístico, senão nem tinha deixado o miúdo assim), chamar por mim. Eu respondi, sem sair do lugar. Não veio; preferiu abanar uma das trancas uma última vez. Chamou outra vez. Desta vez respondi saindo de trás da sebe. Ele veio ter comigo, com a maior calma do mundo.
Logo a seguir, já nas escadas do edifício, ele começou a parar nos degraus, a conversar comigo, a apontar para sei-lá-o-quê pela vidraça. Estava a um lance da porta de casa, já atrasado para pôr o almoço a fazer. Resolvi subir e abrir a porta — desatou a reclamar, correu para o lance de escadas e apontou para mim, dando-me uma descompostura. Desci as escadas e acompanhei-o na subida, agora mais rápido, mas sempre a reclamar, comigo. Tens razão, filho, mas já estavas a exagerar.
O meu filho é um reguila. Ainda bem.

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