segunda-feira, 27 de abril de 2020

Dias 41 e 42 — Locomoção

Andar. Todo o progenitor anseia pelos primeiros passos do seu primogénito. Sabendo o que sei hoje, deduzo que os anseios mudam, talvez de forma diferente para cada um, no que à prole subsequente diz respeito. Sendo eu pai de um anjo que já anda há algum tempo (já corre e tudo), já sei o que significa ter o petiz capaz de se locomover de forma ligeira.
Começar a andar é começar a ganhar independência, o que é positivo tanto para os pais como para os próprios. Também é pesar menos vezes na coluna dos pais, uma vez que se vai diluindo a necessidade de o transportar para todo o lado. Não me lembro de mais pontos positivos, assim de repente, além do gozo (já viram uma criança de fralda a andar?).
Quando o petiz começa a usar locomoção bípede abre-se um outro mundo — um mundo assustador. A criança passa a chegar onde antes não chegava. Começa a viajar mais longe, mais rapidamente, e sem ajuda — sem companhia, cada vez mais. Começa a ter ideias... e não são ideias indutoras de serenidade.
Tudo o que houver para agarrar à altura que agora alcançam, mãos dispensadas da prisão da locomoção quadrúpede, agarram. É preciso alterar a decoração toda, mudar produtos perigosos de lugar e deixar telemóveis em cima da mesa passa a ser motivo de grande ponderação e cuidado — quanto mais longe da beirinha, que tanto jeito dava, melhor.
O salutar passeio, que antes se fazia de forma relaxada empurrando o carrinho para onde quiséssemos, aturando apenas um chorinho aqui, outro ali, passa a ser uma montanha-russa de emoções. A vontade do petiz tem agora mais força, e mais meios. É preciso tê-lo sempre debaixo de olho, não vá o adorável bípede inexperiente resolver desviar-se do caminho, parar, disparar para a estrada, ou tentar apanhar todo e qualquer animal em que ponha o olho em cima. Parar, ou não, é um problema; tanto pode não querer parar quando nós queremos, como pode querer parar, sem razão aparente (regra geral é porque não quer ir para onde vamos, ou porque está a largar lastro na fralda), quando estamos já atrasados para voltar para casa.
Quer, o progenitor, ir à casa-de-banho? Se estiver só com o pimpolho não pode (não deve) fechar a porta, e é mais que certo que, ou o desenho animado, o jogo no tablete ou que mais prender a atenção do petiz são mais mais interessantes, ou vamos ter companhia, a apreciar o que estivermos a fazer.
Mudar a fralda? Já foge, se não quiser passar pela seca de mudar de cueiros. Obriga quem o quiser fazer a uma perseguição pela casa.
Alívio, orgulho, preocupação, susto, nervos. No fundo, mudam-se as preocupações um pouco. Aumenta aqui, diminui ali; excepto os cabelos brancos — esses só aumentam.

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