terça-feira, 14 de abril de 2020

Dia 29 — Uma batata de sofá

A expressão idiomática da anglofonia que uso ali como título refere-se ao meu filho. Não que eu não tenha a mesma tendência, daí obrigar-me a fazer exercício fora de casa — em casa sento-me e vejo TV; quando o meu filho não toma conta da programação —, mas o miúdo tem apenas dois anos e migalhas.
Tem sido cada vez mais difícil pô-lo a mexer, a andar, a correr, a corrigir aqueles pés-para-dentro que me preocupam. Levanta-se da cama e resiste a mudar a fralda e do pijama para qualquer outra coisa, porque só quer ir a correr para a frente do ecrã, sentado na sua poltrona à medida. Nós ligamos a televisão, sim, mas nas notícias, o que suscita apenas uma leve reclamação por parte do petiz, que acaba espantado até mesmo para as notícias. Só sai dali para se aproximar mais do ecrã, ou para ir para mesa comer o pequeno-almoço.
Entretanto a mãe sai para trabalhar. Fica o pai, que lhe muda para a RTP2, onde estão a dar outros dos novos favoritos do rapaz, os Twirlywoos. São uma família de bonecos que lembram aves de cintura vasta e asas úteis apenas como braços sem dedos. Voam usando as três penas da cabeça, que giram como as pás de um helicóptero, se esse helicóptero tiver o tamanho de um avião jumbo com as hélices de um drone. Não falam, mas são muito coloridos e barulhentos.
Mal aquilo acaba eu tento brincar com ele. Jogo à bola dentro de casa, ele olha de lado e aponta para o ecrã, pedindo que mude de canal. Sento-me ao lado dele a fazer coisas com os legos duplo, e ele só se levanta se lhe apetecer testar, com violenta minúcia, a robustez das minhas construções. Ri-se e senta-se logo de seguida.
Hoje vesti-me por completo, calçado e tudo, o que costumava fazer soar um alarme na cabeça dele e correr a buscar as suas botas para as calçar. Desta vez mandou-me ir. Eu perguntei se ele não queria vir passear. "Na...", sem tirar os olhos do ecrã. Como até estava uma manhã fria, deixei a saída do dia para o fim da tarde, com a minha mulher (sou um querido, eu sei). Como precisava de ir tratar da louça e do almoço, piorei as coisas. Deixei-o de bonecos na TV, e o tablete no colo. Se eu costumo vir ver como vão as coisas com frequência, hoje quase não precisei. Por alguma razão, o rapaz veio amiúde ter comigo, de tablete na mão, música de um genérico a bombar, para abanar o capacete comigo.
À tarde, disse-me a mãe (eu fui às compras), foi preciso forçá-lo pela porta fora. Depois, para não variar, foi preciso muito para o convencer a voltar.
Tenho que o fazer mexer, longe do ecrã. Ainda desligo a televisão, sacrificando o meu próprio vício, mas as pernas algo musculares do meu filho estão a ficar mais... borrachudas. Uma batata de sofá...

Sem comentários:

Enviar um comentário