segunda-feira, 21 de junho de 2021

"Não, 'bigád'"

O meu filho está muito educadinho:

— Queres uma bolacha?

— Não, 'bigád'.

Há mais de um ano que aprendeu a dizer obrigado e a usá-lo no sentido correcto. Ultimamente dizia-o pouco, mais a pedido dos pais que outra coisa. A nega saía-lhe isolada de correcção social, mais vezes em alemão bruto ("nein!") que em português.

— Queres um sumo?

— Não, 'bigád'.

Também já dizia o germânico bitte no final dos pedidos, com os olhos muito brilhantes e fofinhos. Agora raramente o faz; apenas tenta imitar o por favor que os chatos dos pais insistem em exigir-lhe (a lata!!). "Po'f" é a versão que lhe sai. Mas o obrigado depois da nega, esse sai que é uma maravilha:

— Vai lavar os dentes.

— Não, 'bigád'.

O que é que um pai há-de fazer?...

terça-feira, 15 de junho de 2021

Tabletes de desrespeito

Tenho aqui, mesmo ao meu lado e com o tablet da mãe, o filho a rir-se às gargalhadas enquanto os amarelos Minions se manifestam ruidosamente de forma muito pouco verbal. Vê o filme pela — calculo de cabeça — 56ª vez desde que foi por mim apresentado aos comprimidos com pernas e jardineiras, há pouco mais de uma semana. Não deve entender metade do que se passa, mas lá se pendura na sua cadeira, meio deitado sobre a mesa, e ri-se muito.

Não sei se fiz bem em apresentar-lhe estes engraçados e estranhos seres, em eterno estado de icterícia, que misturam línguas e baboseiras várias em vez de coerência. Este meu filho, que ainda não tem, ele próprio coerência linguística — mistura português e alemão (o pouco inglês que dizia, para já, caiu) — pode estar a aprender mais uma salganhada... Mas sabe bem ouvi-lo dar tanta gargalhada.

Outro problema é o seu desrespeito pela física e pelo design da cadeira: ainda há pouco, estava ele a jogar um qualquer jogo próprio para a idade, quando se pôs a choramingar e a chamar pelo pai. No meio da ginástica toda com que ele testa a cadeira — com degraus para subir por si, mas sem cinto ou qualquer outra barreira que o impeça de cair —, enfiou as pernas pelo espaço entre o assento e as costas. Ficou preso e pedia ajuda. Acudi, como um pai faz, mas achei uma falta de respeito que, no meio da lamúria de alarme, o petiz não tenha parado de jogar...

Já não há respeito pelo salvamento.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Tentativa de patricídio

Já aqui me queixei da tendência que o meu filho tem, quase sempre por azar (meu), em acertar-me uma pancada ou outra nas partes baixas. Até cabeçadas já levei, correndo ele na minha direcção para me abraçar, com demasiada vontade, quando tinha a testa na altura certa para me acertar em cheio. Esta semana, num só momento entre pai e filho, a coisa tomou características preocupantes.

Quem me conhece sabe que não sou um homem alto, mas também não sou pequeno. Tive uma infância muito fisicamente activa, pratiquei karaté na pré-adolescência e passei a adolescência a dar à pagaia em cima de um caiaque (e correspondente treino de ginásio). Talvez por isso, tolero um pouco além do normal as brincadeiras mais truculentas do meu filho.

Num desses momentos, fui apanhado de surpresa por uma carga bem disposta do meu filho. Se lhe vissem o sorriso querido e fofo que lhe brilhava na cara quando, ao ver-me entrar pela sala dentro, correu na minha direcção de mãos fechadas na ponta dos braços, esticados para a frente — qual Super-homem. Não tive tempo de me proteger. Acertou-me bem perto da zona proibida, ainda causando alguma dor (mesmo que psicológica). Fiz uso, de imediato, do jogo psicológico que tem dado resultado, que foi fazer-me de magoado para lhe puxar pela empatia, para saber que aquela brincadeira magoa. Deixei-me cair no chão, de barriga para baixo, dizendo que estava magoado. Esperava que ele reagisse como é normal e costume dele: que me viesse dar um abraço e um beijinho. Desiludi-me.

Vendo-me deitado abaixo, à sua mercê, o meu amoroso filho saltou-me para cima das costas e saltou três vezes, enquanto se ria às gargalhadas. Estaria o meu filho a querer matar-me? Suei em frio, cheio de medo. Medo de reagir, já que estávamos bastante perto de cadeiras, a minha poltrona e uma pequena cómoda, e eu não queria que, ao virar-me ou mexer-me, ele fosse cair contra uma destas esquinas.

"Fingi" chorar (chorava por dentro — o meu filho herdou a sua tendência dramática de algum lado...) e, mal senti que estava de quatro em cima de mim, virei-o para o lado mais seguro e fui amuar (mais uma vez, dramático) para o sofá, à espera do beijinho de desculpas. Obtive-o.

O terror ficou (mais drama...!).

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Ciclos atrás de ciclos

O meu filho mudou de infantário em Março — a burocracia assim o exigiu. Podia ter continuado no anterior, mas uma pequena falha na nossa interpretação dos lineares trâmites da monolítica burocracia teutónica levou à mudança. Está agora, o meu filho, com crianças mais velhas (dos 4, a fazer 5, aos 6). Ele acabou de fazer 3. A verdade é que, até agora, esta mudança não parece ter traumatizado o petiz por aí além, ao contrário do que a potencial úlcera do pai teimou em antever. Tem mais espaço exterior para se espalhar, correr, escangalhar, esticar, esbardalhar e andar nuns triciclos fantásticos (confesso ter alguma inveja). Também aprende mais alemão, e isto das línguas está a dificultar o desenvolvimento verbal do rapaz. Entende perfeitamente ambas as línguas, mas ainda só usa raras frases curtas, palavras soltas (mas bem aplicadas) e dedos apontados e cheios de birra.

Outra consequência desta mudança, para mais longe (passei de gastar 5 minutos a ir buscá-lo a pé, para 20 minutos), é que começamos a usar a bicicleta para o levar mais rápido para a escolinha (adora empatar...). É uma bicicleta sem pedais, útil para lhe treinar o equilíbrio, com aspecto racer, amarelo torrado brilhante e apliques em preto. Está nas nuvens, o pequeno. E eu encontrei uma forma de fazer algum exercício aeróbio — o burocrata alemão proibiu-me de ir ao ginásio — sem ter que me andar a forçar a andar por aí a correr sem rumo. Corro atrás do meu filho quando ele acelera para o meio de pessoas e estradas, e já fico bastante suado. Uma vez até fiz um pouco de exercício de força quando tive que transportar filho e bicicleta, porque sua excelência decidiu que já não queria andar — nem bicicleta, nem bota — e eu estava com pressa. Tive sorte que foi sol de pouca dura.

Hoje (já o vou buscar daqui a pouco) vou alombar a bicicleta até ele. De manhã, ao sair de casa com a mãe, decidiu que não queria ir de bicicleta ou carrinho, que ia a pé como a mãe. Como imaginamos que seja difícil forçar uma criança a sentar-se num carrinho, ou a andar de bicicleta, eu e a mãe (principalmente a mãe, que é quem tem a responsabilidade de o levar) acedemos. Escusado será dizer que, quando se apercebeu que a sua jogada de poder tinha resultado na ausência de brincadeira na bicicleta até à escolinha, mudou de ideias. Segundo a minha mulher, já estavam a uma distância de casa que implicaria perder mais uns 5 minutos e passar pelos semáforos da rua principal aqui perto. Foi a pé, que ainda por cima a mãe tem hora para chegar ao local de trabalho.

A verdade é que, com esta mudança, o equilíbrio e a destreza do meu filho sobre duas rodas estão a melhorar a olhos vivos. Está de tal forma que começo a sentir a falta de um travão naquela traquitana amarela. Eu e a minha mulher, sócios nesta coisa de acompanhar o crescimento do petiz, já nos vemos forçados a considerar uma bicicleta a sério, com travão e — imagine-se(!) — pedais. Sem rodinhas; se se equilibra nesta, equilibra-se noutra. Mas aí vem outra questão: se a nova bicla vem com o descanso do travão, também vem com a velocidade do pedal...

Terei de ir de bicicleta, também... e uma guia a unir as duas? (Antevejo joelhos e mãos esfoladas: meus e da minha mulher.)

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

To fralda, or not to fralda?

Tivemos, antes do fim-do-mundo de 2020, uma reunião com a educadora responsável (uma russa que não se deixa levar pelo charmezinho das crianças) pela sala do nosso menino. Entre outras coisas, ficou combinado que íamos tentar convencer o petiz a largar as fraldas este verão. Tendo ele outras três ou quatro crianças de idade muito próxima, talvez o grupo o fizesse em conjunto, seguindo os exemplos uns dos outros.
Acontece que, aquando do regresso da criança ao infantário após meses sem socialização nenhuma, além da que sofre por ter de aturar os pais — o pai, então...! —, a russa, nossa aliada, não voltou ao trabalho. A sala dele estava entregue às duas jovens que se amolecem todas com o sorrizinho dele, deixando-o fazer o que quer delas. Não nos pareceu que viria grande ajuda dali.
Fomos observando o nosso filho, à procura de sinais que nos fizessem acreditar que estava pronto, mas ele não tem demonstrado qualquer interesse em avisar que vai fazer um qualquer despejo fisiológico, nem sequer se incomoda em ter o rabo borrado. De qualquer das formas, e depois de a minha mulher ter visto um dos tais coleguinhas do nosso filho a avançar, lampeiro, casa-de-banho adentro, baixar as calças e sentar-se na retrete do infantário (com o tamanho certo para os petizes), sem ajuda ou incentivo presencial, assomada que se sentiu de pressão social, decidimos experimentar avançar com o desfralde.
No fim-de-semana passado, por ocasião do que seria uma muda de fralda, a minha mulher tirou-lhe a fralda suja, mas substituiu-a por umas cuecas, em nada absorventes. Trouxe, também, o penico em forma de baleia para a sala, onde o sentou, explicando-lhe que teria de baixar as cuecas, sentar-se, e fazer o que viesse. Ficou ali, o miúdo, sentado na baleia, de tablet na mão e cuecas nos joelhos, sem ares de preocupação nenhuns. A sua primeira reacção veio quando sentiu os pés molhados.
Fez, efectivamente, o seu primeiro chichi no pote — e eu celebrei muito, a ver se ele curte a coisa — mas, uma vez que a mãe dele é desprovida de extensão exterior da uretra (vulgarmente apelidada de pila), não se lembrou que devia apontar a do petiz para baixo. Alguma urina acabou, efectivamente, dentro do pote, mas eu diria que a maior parte ficou fora. Correria para limpar, entre vivas e palmilhas ao petiz, que me parecia confuso entre as felicitações e a azáfama urgente com que limpávamos o chão, acabamos por o deixar mais livre ainda, sem a cueca.
A micção seguinte foi, sem qualquer pejo e na maior das descontrações, confortavelmente sentado na sua poltrona de esponja. De esponja, sim. Outra houve em cima do tapete da sala. Não podia ser no chão; tinha de ser no tapete. E na esponja. E claro que a conversa não podia parar na micção.
Continuou, o meu rico filho, nas suas brincadeiras, de tudo pilinha e traseiro ao léu. Ainda havia esperança de que usasse o penico por vontade própria, já que ele é dos que se incomoda se se sujar — à excepção do rabo, quando de fralda. Apoiado na mesa onde normalmente desenha (na mesa, não em cima da mesa), no meio do tapete da sala (onde também já desenhou qualquer coisita), de repente e sem qualquer tipo de aviso não-verbal (nem um esgar de esforço, nem um desvio na atenção que prestava aos bonecos com que brincava, nada), sai-lhe um escatológico bolo por entre as nádegas, de saudáveis dureza e tamanho. Disparei na direcção do meu petiz ainda antes do cocó cair no tapete, mas ele reagiu antes de eu chegar e virou-se, a ver onde tinha tombado a obra. Pisou-a, descalço, no momento em que o levantei. Incomodado com meio-bolo pendurado no pé, o rapaz esperneou, espalhando bocados de cocó em volta, incluindo no exacto ponto onde, fracções de segundo depois, eu pousei o meu pé — também descalço — e nem reparei.
Nos minutos subsequentes, enquanto a minha mulher me avisava que eu tinha pisado a prova do crime e limpava o tapete e restante chão da sala, eu limpava o filho e o meu pé — confirmada a pisadela — daquele desastre. Depois limpei o chão do corredor, onde as minhas pegadas denunciavam o sucedido.
Cerca de dez minutos depois, estava o meu filho já de fralda (foi demais para hora e meia sem fralda) e a brincar no chão limpo de fresco, e eu, que me deitara de lado no chão a brincar com ele, queixei-me de ainda sentir o cheiro do bolo do meu menino. "É impressão tua", disse-me a minha mulher.
Pouco depois, incomodou-me uma comichão na perna, na zona da canela. Fui coçar... Depois fui a correr à casa-de-banho lavar a perna: restava um pequeno pedaço da prova do crime, provavelmente aspergido contra a minha perna pelo espernear do rapaz.
Não sei... não sei se o meu filho está pronto. Também não sei se eu estou pronto. Sei é que o trauma deixou-nos avessos à experiência. Vai ser preciso encontrar nova coragem.

PS: A educadora russa não voltou, para já, porque está de licença de maternidade, descobrimos entretanto.

PPS: As jovens educadoras que restam estão doentes, pelo que o meu filho tem estado com outra educadora. Ela conseguiu pô-lo a ir ao pote, fazer um cocó, uma vez. Na verdade ela pô-lo no pote e ele largou a bomba. Será que conta?...

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O que tem de ser...

Foi já há duas semanas e meia que o meu filho foi autorizado a voltar à creche. Desde o início que nós, pai e mãe, esperamos que ele traga para casa qualquer coisa extra. Bactérias ou vírus, é sempre de esperar que, quando se reunem crianças em bandos, se espalhem mais ou menos amiúde e com alguma eficácia. Nesse caso, porque vivemos em tempos de medo generalizado, antecipávamos procedimentos e burocracias várias para levar a criança de volta para a creche. Mas a certeza de que ia acontecer estava lá, e a desconfiança era de que fosse quase de imediato. O que tem de ser...
A primeira semana passou com o nosso filho tão saudável como nos meses em que ficou confinado a casa, aos passeios com os pais, e a uma ocasional visita ao parque infantil. Nem um pingo de ranhoca. A segunda semana acabou da mesma forma: nada de infecção ou virose, nem um toque de febre para amostra. Estávamos com sorte.
No Domingo antes de começar esta terceira semana de regresso à creche, passou a manhã bem-disposto, mas a jorrar ranho pelo nariz. Pronto, já tem um toque, pensamos nós. Depois de uma hora do almoço em que, para não variar, comeu de pouco a nada (diz que é normal, algures no segundo ano de vida, mas é um estímulo ao desenvolvimento de úlceras nos pais), parecia um pouco cabisbaixo. Ao tirá-lo da cadeira, a mãe apercebeu-se de que estava quente. Era altura de muda de fralda (espero não ter de o fazer dentro de um mês ou dois...), por isso seria uma boa oportunidade para lhe medir a temperatura. Febre.
Passou a tarde assim, com uma febre alta, mas não exagerada. A noite, filho entupido de anti-piréticos, foi um carrossel de deita-levanta, tira temperatura aqui, muda fralda acolá, tosse cavernosa e respiração dificultada, a espaços dolorosa. Calhou-me medir-lhe uma febre de quase 40º, já depois das 4 da manhã. Por momentos considerei levá-lo para o hospital, mas decidi-me por um novo supositório e voltar para a cama. Dormir é que já foi pouco e leve, para ambos os pais. Ouvi-lo gemer não ajuda nada à conversa com Morfeu.
Segunda-feira de manhã, eu com receio que fosse o mefistofélico vírus, a minha mulher com a calma de quem tem de aturar um filho doente e um marido nervoso, fomos directos à pediatra do petiz. Esperamos cá fora, numa espécie de sala-de-espera naturalmente arejada e desinfectada a raios ultra-violeta directos do Sol, máscaras penduradas no nariz e orelhas. Éramos os quintos da fila — da exterior, para as crianças cujos sintomas coincidem com os da doença-que-não-se-pode-mencionar. Antes de sermos chamados, chegaram mais três, se bem me lembro.
Feito o exame rápido — pulmões limpos e uma ligeira vermelhidão na garganta —, a médica pede-nos autorização para lhe enfiar uma zaragatoa pelo nariz acima, outra no fundo da língua. Acedemos, mas doeu-nos ter de agarrar no nosso filho, forçando-o àquela tortura que ele, claramente, não queria. Esperneava e eu impedia-o de o fazer, prendendo-o. Senti que o traía. A mãe dava-lhe beijos no cocuruto, com ar consternado. O que tem de ser...
Nesse dia a febre foi sempre no limite mais baixo, o que me deixou mais descansado — agora era a minha mulher a mais nervosa dos dois. Eu previa a melhoria, ela desconfiava (ainda bem que não coincidimos nos momentos pessimistas). Ainda por cima, não tendo a certificação documental de que não era o vírus do Capeta, ela foi forçada a trabalhar em casa. Eu fiquei no meu escritório mais comum (em casa), mas o serviço foi cuidar do petiz.
Na manhã seguinte, papel de resultado negativo na mão, a minha mulher já pôde voltar ao laboratório. Eu... mais dois dias com o filho em casa: a nova política do infantário é que a criança fique em casa por 48 horas depois a última medição de febre. Amanhã, se o rapaz não tiver febre entretanto, volta para os amiguinhos. O que tem de ser...

segunda-feira, 6 de julho de 2020

De regresso

O meu filho foi, finalmente, autorizado a regressar à creche. Regressou há exactamente uma semana e foi um dos primeiros, por decisão da instituição de ensino, a participar do regresso progressivo do "resto das crianças". Estas crianças, as que restavam, eram aquelas cujo regresso não era absolutamente necessário. O infantário nunca fechou a cem por cento, já que algumas das crianças teriam ambos os pais a trabalhar nas actividades essenciais (no caso, por ser um dos infantários dos serviços da universidade, eu diria que médicos, enfermeiros ou investigadores cujo trabalho não parou por estar ligado à clínica da universidade). A primeira fase de regresso, já há cerca de um mês, fez-se para as crianças cujos pais, os dois, não pudessem ser dispensados do trabalho presencial. O meu filho tem uma mãe que apenas abrandou, ligeiramente, o trabalho que desenvolve para bem da ciência, mas um pai que escreve coisas. Não precisa de sair de casa para isso, dizem eles; e têm razão.
De email informativo em email informativo, lá foi a nossa expectativa crescendo, à espera de notícias definitivas acerca do regresso do nosso petiz à socialização com outras crianças. A certeza veio em forma de telefonema — tenho orgulho em dizer que foi todo em alemão, se bem que cheio de "bitte?" e engasganços da minha parte. O meu mais-que-tudo desamparar-me-ia a loja a partir da segunda-feira seguinte.
Mas, como em quase todos os países em desconfinamento, o regresso teria regras. Imaginei o meu filho de chapéu-de-distanciamento-social, supervisionado por meias-caras, sem nariz ou boca, que não lhe permitiriam qualquer contacto humano. Enganei-me. Apoiados num estudo da universidade cá do burgo, os responsáveis do estado de Baden-Württenberg não impuseram nenhuma regra de distanciamento às crianças — apenas aos pais.
A ver: as crianças estão como sempre estiveram, sem regras nenhumas de distanciamento e com educadores desmascarados. Os pais vão pô-las e buscá-las como sempre foram, mas de máscara na fuça e mãos devidamente descascadas de pele morta e perfeitamente estéreis, por vigorosa lavagem das ditas com gel desinfectante disponível atrás da porta de entrada. Já me fizeram entrar pela porta do jardim, onde não há desinfectante, mas não me queixei. As regras são, claramente, para proteger os educadores; foi precisamente uma educadora quem me abriu a porta do jardim e chamou, estava eu a esconder o bigode e a barba na máscara, pronto para entrar pela frente e matar a flora da pele das mãos. Avisei. Confirmou-me que entrasse por ali — não me queixei.